sábado, 15 de outubro de 2011

RECUERDOS


O cadáver de Che em Vallegrande, Bolívia, 1967
Em 1997, quando fui cobrir pela ISTOÉ a descoberta dos restos mortais de Che Guevara e os 30 anos de sua morte na Bolívia, entrevistei várias pessoas envolvidas naqueles trágicos eventos de 1967. Dois deles pareciam ter saído das páginas de um romance de García Márquez, de John le Carré ou mesmo de Edgar Allan Poe: o general Gary Prado Salmón, responsável pela captura de Guevara e que depois se tornaria deputado pelo Movimiento de Izquierda Revolucionária (MIR); e Antonio Arguedas, ministro do Interior do general René Barrientos, que teve relações tanto com a CIA quanto com as esquerdas e que seria o responsável pela entrega dos diários e as mãos – sim, as mãos! – do Che a Fidel Castro.

O agente da CIA Félix Rodríguez  (esq.) e o Che preso 
Como capitão, Gary Prado foi o comandante do destacamento de “rangers” do Exército boliviano que prendeu Guevara na quebrada do Yuro, nas proximidades de La Higuera, interior da Bolívia, em 8 de outubro de 1967. Prado não foi o responsável pelo assassinato do dirigente argentino-cubano; a execução do Che, determinada pelo alto comando militar boliviano, foi levada a cabo pelo sargento Mario Terán. Em 1968, Gary Prado esteve no Brasil para fazer um curso na Escola do Estado-Maior do Exército no Rio e escapou de ser morto numa ação do grupo guerrilheiro Colina, que o confundiu com o major alemão Edward Ernest Tito Otto Maximilian von Westernhagen. Prado teve sorte, mas não se livraria da “maldição do Che”.

O general Gary Prado
Quando lhe perguntei se não era uma contradição ele ter sido o responsável pela prisão do Che e depois virar deputado por um partido de esquerda, Prado me disse, em português fluente, que não, muito pelo contrário. Ele não considerava Che o líder de uma revolução socialista, mas o comandante de um “exército de ocupação estrangeiro”. Guevara não conseguiu a adesão de um único camponês boliviano para sua causa, argumentava. “E você sabe por quê? Por que, durante a Revolução Boliviana de 1952, nós fizemos a reforma agrária”, dizia ele. Para o ex-militar, o Exército boliviano que ele serviu não era um exército da oligarquia, como tantos outros na América Latina, mas um exército popular nascido da Revolução de 1952, nacionalista e comprometido com os trabalhadores. Não me convenci...Na minha cabeça, vinha a lembrança dos cento e tantos golpes militares bolivianos, mas o discurso de Gary Prado tinha alguma coerência. Havia método naquele nonsense: os generais Alfredo Ovando Candia e Juan José Torres, que chegaram ao poder na Bolívia via quarteladas no final dos anos 1960 e início dos 1970, realizaram governos “à esquerda”, com nacionalizações e, no caso do último, até com a formação de conselhos operários e de soldados, à moda dos sovietes.

Em 1981, Gary Prado foi atingido por uma bala nas costas durante uma manifestação e ficou paraplégico. Nunca ficou claro se foi um acidente um ou um atentado. Para alguns, a “maldição do Che”, que atingiu quase todos os envolvidos na sua captura e assassinato, tardara, mas não falhara. Transformado em político, Prado seria embaixador da Bolívia no México. Em abril deste ano, ele foi preso sob a acusação de ter participado de uma ação terrorista contra o governo do presidente Evo Morales em 2009.

As mãos cortadas de Che Guevara
Personagem muito mais misterioso e sinistro foi, sem dúvida, Antonio Arguedas. Nunca se soube exatamente quantos senhores esse personagem serviu; a quem ele foi leal ou quem ele traiu. Arguedas morreu de maneira insólita em fevereiro de 2000, aos 72 anos, vítima da explosão acidental de uma bomba que ele carregava ao corpo, segundo a polícia. Sua família diz que ele foi assassinado. De qualquer forma, durante a inusitada entrevista em “off” que me concedeu em La Paz em 1997, Arguedas revelou os detalhes da operação para enviar às autoridades cubanas o diário que o Che escrevera nas selvas da Bolívia, mas principalmente as mãos do líder guerrilheiro, que foram cortadas para serem identificadas como prova de sua morte, já que os militares pretendiam dar sumiço ao corpo. Arguedas contou que as mãos de Guevara - bem como sua máscara mortuária - foram guardadas por dois anos num vidro com formol no Ministério do Interior boliviano. Depois, elas foram levadas por um ex-companheiro de Arguedas dos tempos do PC, Juan Coronel Quiroga, que guardou o sinistro pote embaixo de sua cama por meses. Para chegar a Cuba, as mãos tiveram que cumprir um trajeto tortuoso, para despistar as autoridades. Foram de La Paz para Lima, Guayaquil, Caracas, Madri, Paris, Moscou e, finalmente, Havana. Juntaram-se aos restos mortais de Che quando eles foram finalmente encontrados, no aeroporto de Vallegrande, em outubro de 1997.

Antonio Arguedas
Militante do Juventude de Esquerda Revolucionária e do Partido Comunista Boliviano nos anos 1940 e 1950, Antonio Arguedas entrou para a Escola da Força Aérea, de onde saiu como capitão-aviador. Foi um dos que trouxeram de volta do exílio Victor Paz Estenssoro, líder da Revolução de 1952 e do Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR). Estenssoro seria presidente da Bolívia entre 1960 e 1964, quando seria deposto por um golpe militar de seu vice, o general René Barrientos, colega de Arguedas na Aeronáutica. Alçado ao Ministério do Interior, responsável pela polícia nacional, Arguedas teve papel fundamental na repressão ao movimento guerrilheiro do Che – embora negasse e muitos assegurassem que ele fazia jogo duplo, ajudando vários perseguidos políticos. Há indicações de que, nessa época, Arguedas tenha começado a trabalhar para a CIA. Há histórias não comprovadas de que ele teria tido contatos com Haydée Tamara Bunke, a guerrilheira Tânia, que esteve no grupo de Guevara. Depois da morte do Che, Arguedas entregou os diários a Fidel por meio de seu amigo Victor Zannier. Barrientos ficou furioso, pois pretendia vender os diários a peso de ouro. Arguedas foi para o Chile e depois para Londres. De volta à Bolívia, foi processado; vítima de um atentado a bala, buscou asilo no México e depois em Cuba, onde viveu até 1976.

E a história não termina aí. De volta à Bolívia em 1979, com o fim da ditadura do general Hugo Bánzer, Arguedas começou a juntar informações sobre o narcotráfico. Não se sabe se estava a serviço da CIA, mas é provável. O fato é que ele montou um arquivo formidável sobre as máfias e participou do Conselho Nacional de Luta contra o Narcotráfico. Descobriu o envolvimento de figurões da política com o tráfico e passou a organizar seqüestros de empresários ligados à máfia. Por causa de um desses sequestros, acabou preso por três anos. Acusado de outros seqüestros, Arguedas caiu na clandestinidade por algum tempo. Foi acusado de organizar seqüestros para arrecadar dinheiro – não se sabe se para si próprio ou para uma nova organização de extrema direita. O fato é que, quando da sua morte misteriosa, a polícia boliviana encontrou em sua casa um grande arsenal de armas.

Dificilmente uma obra de ficção, mesmo de literatura fantástica, conseguira criar um personagem tão improvável.

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