sábado, 2 de julho de 2011

CHINA: A VIA COMUNISTA PARA O CAPITALISMO


Comemoração pelos 90 anos do PCC em Pequim
O Partido Comunista Chinês (PCC) completa 90 anos sem dar sinais aparentes de fadiga, liderando um país que caminha celeremente, 20 anos depois do colapso do comunismo soviético, para se tornar a segunda economia do planeta. Ele combina o vigor de uma economia capitalista em expansão há pelo menos 25 anos, que retirou cerca de 500 milhões de pessoas da pobreza extrema, com a manutenção da ditadura de partido único. Como explicar essa contradição? Como explicar o fato de que um partido responsável pela morte de cerca de 40 milhões de pessoas entre 1958-1960, no período da fome que se seguiu ao Grande Salto para a Frente, e outros milhões durante a Revolução Cultural (1966-1976), tenha conseguido se manter no poder sem enfrentar nenhuma ameaça, à exceção dos protestos da Praça da Paz Celestial em 1989? E por que o regime ainda se considera comunista, quando a China atual se assemelha mais ao capitalismo selvagem da Inglaterra vitoriana do que a qualquer utopia igualitária?

Massacre de comunistas em Xangai, 1927
Nestes 90 anos, o PCC passou basicamente por três grandes períodos, cada um com duração aproximada de 30 anos. O primeiro período, da fundação do partido em 1921 até a conquista do poder em 1949, é a fase heróica, que forjou um partido comunista de massas de novo tipo, ligado aos camponeses e que se relevaria uma alternativa ao modelo bolchevique de revolução comunista urbana. O batismo de fogo ocorreu em 1927, quando os comunistas chineses, obedecendo orientações de Moscou, entraram em massa no Kuomintang (Partido Nacionalista), de Chiang Kai-shek – que na ótica da III Internacional representava a “burguesia nacional anti-imperialista” – e foram massacrados em Xangai. Esse episódio é narrado no belíssimo romance A Condição Humana, de André Malraux.

A Longa Marcha, 1935
Depois disso, já sob a liderança de Mao, um exército de 80 mil homens iniciou em 1935 a Longa Marcha, percorrendo dez mil quilômetros para escapar das tropas nacionalistas. Apenas 10% do contingente inicial do exército sobreviveram quando chegaram a Yenan. As tropas de Mao se reagruparam e, à medida em que derrotavam as forças de Chiang, estabeleciam áreas liberadas no campo, onde realizavam a reforma agrária. Criaram, assim, um poder paralelo. Quando os japoneses invadiram a China, os comunistas propuseram uma aliança tática ao Kuomintang, que aceitou de maneira relutante. Depois do fim da Segunda Guerra Mundial, o Exército Popular de Libertação de Mao levou apenas quatro anos para conquistar o poder.

O PCC chega ao poder com Mao, em 1949
O segundo período, de 1950 a 1978, dominado por Mao Tsé-tung, foi o mais turbulento da história do partido. O impacto inicial da revolução foi enorme, pois a China de então era um país semifeudal, dominado e dividido por potências ocidentais. A unificação, a reforma agrária e a libertação da mulher mudariam a face do antigo Império do Meio. Mas logo o voluntarismo do “grande timoneiro” se mostraria trágico. O primeiro grande desastre foi a “Grande Salto para Frente”, uma tentativa tresloucada de transformar um país agrário em desenvolvido da noite para o dia, além de, paralelamente, pretender construir a “sociedade comunista” a fórceps. Os camponeses foram obrigados a se organizar em gigantescas comunas agrícolas, as "comunas populares", onde siderúrgicas improvisadas com tecnologia rudimentar foram instaladas por toda a parte. O Grande Salto desorganizou completamente a economia e provocou a morte de milhões de camponeses pela fome. Mao foi afastado da direção efetiva do partido, sendo substituído por uma direção mais pragmática. Ao mesmo tempo, a China rompia com a União Soviética, estabelecendo um novo centro para o movimento comunista internacional.

Os Guardas Vermelhos na Revolução Cultural, 1966
Em 1966, a pretexto de combater as “tendências capitalistas” no partido, Mao lançou a Grande Revolução Cultural Proletária – uma versão original e sofisticada dos expurgos stalinistas. Foram criadas milícias de jovens, os guardas vermelhos, que foram lançados contra o aparelho do PCC. O país foi sacudido de alto a baixo, milhares de dirigentes foram expulsos, humilhados, torturados e assassinados. O ensino ficou paralisado por anos. Mas, no Ocidente, a percepção foi de que a Revolução Cultural era a expressão chinesa da rebelião estudantil de 1968. Perdendo o controle do movimento, Mao foi obrigado a chamar o Exército para controlar os guardas vermelhos – o que atiçou as ambições do ministro da Defesa e sucessor designado de Mao, Lin Piao, que acabaria morto em 1969 num misterioso acidente aéreo quando fugia para a Mongólia. Ao mesmo tempo, Mao deu uma reviravolta no xadrez geopolítico mundial ao se aproximar dos EUA em 1971.

Deng Xiaoping
 O terceiro período se inicia em 1978, depois de um violento interlúdio de luta interna no PCC que se seguiu à morte de Mao Tsé-tung, em 1976, que culminará com a vitória de Deng Xiaoping, o dirigente pragmático execrado durante a Revolução Cultural por seus “desvios capitalistas”. Ele abriu a economia ao capital exterrno e criou as bases para uma profunda transformação na China. Durante 30 anos, o país cresceu a taxas médias de 10% ao ano, retirando milhões de chineses da miséria e se tornando a segunda economia mais poderosa do planeta. O contraponto foi o aumento brutal da corrupção, que provocaria manifestações no final dos anos 1980, culminando no massacre de estudantes da Praça da Paz Celestial por tropas do Exército Popular de Libertação, em 1989.
Os tanques do ELP na Praça Tian Anmen, 1989

Depois disso, o ELP se consolidou como fiador do regime. Deng, o homem para quem não importava a cor do gato, desde que ele caçasse ratos, inverteu a fórmula de Mao segundo a qual “o Partido comanda os fuzis e não o contrário”. O ELP se tornou uma casta dentro da Nomeklatura chinesa, com generais controlando várias empresas estratégicas. Isso também fez com que muitos oficiais se vissem como soldados profissionais, divididos entre a obrigação de defender o país e a de defender o partido. Protestos ocasionais surgem na imprensa chinesa pedindo a despolitização do ELP.
A via comunista para o capitalismo
Mas a legitimidade do regime se assenta fundamentalmente na expansão contínua da prosperidade econômica – o que exige muita flexibilidade dos dirigentes para se adaptar a um mundo em constante mudança. Isso talvez responda à pergunta sobre a ausência de grandes contestações populares ao regime depois de 1989. Mas essa expansão econômica vem alimentando a corrupção institucionalizada. Constitui um paradoxo o fato de os líderes chineses reconhecerem que a corrupção é a maior ameaça à sua autoridade, mas ao mesmo tempo apoiarem seu poder num sistema que a torna praticamente inevitável. Para Richard McGregor, autor do livro The Party: the secret world of China’s communist leaders, uma campanha independente anticorrupção seria capaz de fazer toda a estrutura do partido desmoronar.


Este é parte do que o autor chama de “paradoxo fundamental” do regime comunista chinês: um partido forte e todo-poderoso que tem que lidar com um governo fraco e com instituições comprometidas. Isso o deixa mal preparado para lidar com as grandes mudanças em curso, como o reequilíbrio da economia chinesa para estimular o consumo doméstico e a construção de uma rede de segurança social decente.

Para McGregor, a resposta à pergunta de por que o regime chinês ainda se considera comunista pode ser encontrada na frase de Chen Yan, administrador do Banco de Desenvolvimento da China, Chen Yuan: “Nós somos o Partido Comunista e nós decidimos o que o comunismo significa”.

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