quarta-feira, 6 de julho de 2011

A ESCOLINHA DE ÉTICA DO FMI


Christiane Lagarde, diretora-gerente do FMI
 Ao tomar posse no cargo de diretora-gerente do FMI, a francesa Christiane Lagarde prometeu em contrato seguir um “alto padrão de conduta” e a fazer “treinamento ético”. A exigência, inédita, foi acrescentada na semana passada, na sequência de um “escândalo” que derrubou seu antecessor, o também francês Dominique Strauss-Khan, preso em Nova York em maio sob suspeita de ter estuprado uma camareira do hotel. A acusação, depois se viu, era infundada.

Pensei que a noite mal dormida me embotara os sentidos e que, por isso, eu não tinha lido direito a manchete. Mas era isso mesmo: a poderosa chefona do FMI terá que fazer um treinamento ético! Nessa idade, meu Deus? Será que ela aprende??

Parece que o "jequismo" puritano dos americanos, ultimamente travestido de “politicamente correto”, chegou ao FMI. Os cartesianos franceses têm agora mais uma razão para desprezar a indigência intelectual do establishment americano. Fico pensando como seriam esses cursos; qual ética seria ensinada? A platônica, a aristotélica ou a sofística? A hobbesiana, a kantiana ou a hegeliana? Não, os calvinistas não são tão sofisticados... Por certo no curso haveria provas, notas, avaliações; neste caso, fico me perguntando se o sujeito (ou “sujeita”; afinal, “todas e todos” não virou regra?) que tirasse, por exemplo, nota 9 numa prova de ética seria considerado alguém um pouco menos ético do que quem tirasse 10... De uma coisa eu tenho certeza: esse curso do FMI jamais ensinará, por exemplo, que é aético impor políticas recessivas que provoquem desemprego e crise social nos países...

Alexander Hamilton
O fato é que o establishment americano, a despeito do ceticismo iluminista dos Pais Fundadores e dos Federalistas (Hamilton, Jefferson, Madison), tem uma mentalidade primitiva, religiosa e pré-moderna, moldada na época das 13 colônias. Tanto que, se você for preencher um formulário para tirar visto para os EUA, deve responder a perguntas cretinas, do tipo: “você pretende praticar algum atentado terrorista nos EUA?”; “você está traficando drogas ou armas?”; “você é comunista?” (esta, da época do macartismo, já tiraram).

O puritanismo que acha que pode melhorar as pessoas por meio de “treinamento ético” é o mesmo que aponta o dedo acusador e condena, antes de qualquer prova. E, se condena, se arvora no direito de impor uma punição exemplar. Veja-se o caso de Dominique Strauss-Khan. Ele foi preso, algemado e mostrado para um batalhão de fotógrafos do mundo inteiro – é o que os americanos chamam de “perp walk” (desfile do suspeito). E isso apesar do princípio de presunção de inocência que informa o Direito anglo-saxão. Aqui o puritanismo se encaixa perfeitamente no espírito da “sociedade do espetáculo” e, ainda por cima, o faz seqüestrando o discurso democrático (“todos são iguais perante a lei”) para justificar o circo.

Dominique Strauss-Kahn escoltado pelos guardiões da Justiça
Ora, na maioria dos países civilizados, um suspeito, seja figurão ou proletário, jamais poderia ser exposto dessa maneira. “Nos EUA, humilhações públicas fazem parte da tradição puritana, na qual os presos tornam-se exemplos públicos”, escreveu o jornalista Michael Kepp. O fato de a própria Promotoria de Nova York ter descoberto que DSK foi vítima de uma armação, a ponto de determinar sua libertação, não altera nada. No fundo, os puritanos devem achar que, pelo menos, DSK cometeu um “crime”, o de adultério, e que, portanto, é bom que pague por isso...

Sei não, mas suspeito que dona Lagarde não vai aprender nada nesse curso...

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