terça-feira, 19 de julho de 2011

SUICÍDIO ANUNCIADO


O corpo de Salvador Allende
Hoje, depois de exumar o corpo de Salvador Allende, uma perícia médica concluiu o que já se sabia há tempos: o presidente socialista chileno suicidou-se com um tiro de fuzil AK-47 no dia 11 de setembro de 1973, depois que o Palácio de La Moneda foi bombardeado e atacado por forças militares golpistas. À frente deles estava um general calhorda chamado Augusto Pinochet, comandante do Exército, que dias antes havia jurado “sacrificar a vida” pelo presidente. O homem que tentou implantar o socialismo pela via democrática no Chile se recusou a se entregar às forças da direita, como Getúlio Vargas, repetindo-lhe o gesto dramático de agosto de 1954 – algo que Allende admirava, segundo o jornalista Flávio Tavares. Desta vez, no entanto, a História desmentiu Marx e se repetiu não como farsa, mas como tragédia ampliada. Ou tragédia organizada, como disse o escritor colombiano Gabriel García Márquez, já que o golpe estava sendo orquestrado por Washington desde 1970. A infame ditadura de Pinochet infelicitou o povo chileno por 17 longos anos, mas finalmente as “novas alamedas” se abriram – embora muito mais tarde do que cedo...

Abaixo, o último discurso de Allende – sua “carta-testamento”.

"Certamente esta será a última oportunidade de falar para vocês. A Força Aérea bombardeou as torres da Rádio Postales e Rádio Corporación. Minhas palavras não têm amargura, mas decepção que são elas o castigo moral para aqueles que traíram o juramento que fizeram: soldados do Chile, comandantes titulares, o almirante Merino, que se autodesignou comandante da Marinha, e o senhor Mendoza, general rasteiro que ainda ontem manifestara sua fidelidade ao governo, e também se autodenominou diretor geral da polícia. Perante estes fatos, só posso dizer aos trabalhadores: Eu não vou renunciar!

O Palácio La Moneda sob bombardeio

Colocado numa transição histórica, pagarei com minha vida a lealdade do povo. E lhes digo que tenho certeza de que a semente que temos entregue à consciência digna de milhares e milhares de chilenos não poderá ser ceifada definitivamente.


Eles têm a força e poderão nos submeter; porém, não se detêm os processos sociais nem com os crimes e nem com a força. A história é nossa, e os povos a fazem.

Trabalhadores de minha Pátria: quero agradecer a lealdade que sempre tiveram, a confiança que depositaram em um homem que foi apenas intérprete de grandes anseios de justiça, que empenhou sua palavra em respeito à Constituição e a lei, e que assim fez. Neste momento decisivo, o último em que eu posso dirigir-me a vocês, quero que aproveitem a lição: o capital estrangeiro, o imperialismo, unidos à reação, criaram o clima para que as Forças Armadas rompessem sua tradição, aquela que ensinou o general Schneider e reafirmada pelo comandante Araya, vítimas do mesmo setor social que hoje estão em casa esperando com mãos alheias recuperar o poder de continuar a defender os seus lucros e seus privilégios.
Dirijo-me, sobretudo, à mulher simples de nossa terra, a mulher camponesa que acreditou em nós, a avó que trabalhou mais, à mãe que soube de nossa preocupação para as crianças. Dirijo-me aos profissionais da Pátria, os profissionais patriotas que continuaram trabalhando contra a sedição patrocinada por escolas privadas, por classes que defendem também as vantagens de uma sociedade capitalista de uns poucos.

Dirijo-me à juventude, àqueles que cantaram e deram sua alegria e seu espírito de luta.

Dirijo-me ao homem do Chile, ao operário, ao camponês, ao intelectual, àqueles que serão perseguidos, porque em nosso país o fascismo já se faz presente por muitas horas, nos ataques terroristas, explodindo pontes, cortando a linha férrea, destruindo os oleodutos e gasodutos, frente ao silêncio de quem tinha a obrigação de impedir. Eles não impediram. A história os julgará.

Seguramente a Rádio Magallanes será calada e o metal tranqüilo de minha voz não chegará até vocês. Não importa. A audiência vai continuar. Eu sempre estarei com vocês. Pelo menos minha lembrança será a de um homem digno que foi leal à Pátria.


O povo deve defender-se, mas não sacrificar-se. O povo não deve deixar-se ser destruído ou crivado de balas, mas também não pode inclinar-se.


Trabalhadores da minha pátria, tenho fé no Chile e no seu destino. Outros homens superarão este momento cinzento e amargo em que a traição pretende impor-se. Sigam vocês sabendo que, muito mais cedo que tarde, de novo se abrirão as grandes avenidas por onde passará o homem livre, para construir uma sociedade melhor.

Viva o Chile! Viva o povo! Vivam os trabalhadores!

Estas são as minhas últimas palavras e tenho a certeza de que meu sacrifício não será em vão, tenho a certeza de que, pelo menos, será uma lição moral que castigará a perfídia, a covardia e a traição.

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