segunda-feira, 11 de julho de 2011

OS JORNALÕES E OS JORNALISTAS


John Wayne e James Stewart em O Homem que Matou o Facínora
O cinema – Hollywood particularmente – produziu vários filmes sobre jornalismo inescrupuloso, onde qualquer método, mesmo o mais sórdido, é válido, desde que consiga um belo furo, que renda manchetes sensacionais, trazendo glória ao repórter e (muitos) dólares ao proprietário. O mais famoso deles, sem dúvida, é A Montanha de Sete Abutres, do inigualável diretor Billy Wilder, em que o canastrão Kirk Douglas vive o repórter que adia o salvamento de uma vítima de desabamento numa mina para continuar enviando notícias exclusivas. Em outro filme memorável, O Homem que Matou o Facínora, de John Ford, as práticas “heterodoxas” do jornalismo são criticadas apenas en passant, mas numa frase certeira no final: “quando a lenda é melhor que a história real, imprima-se a lenda”. 

O adeus do infame tabloóide
 Esta semana marcou o fim de um dos veículos mais típicos do jornalismo de esgoto em que se transformou boa parte da mídia comandada pelo gângster australiano-americano que atende pelo nome de Rupert Murdoch, dono de um império de quase 200 títulos, com ativos de US$ 60 bilhões que incluem, além dos veículos sensacionalistas, o respeitável The Wall Street Journal, a bíblia dos financistas de todo o mundo. No domingo, o tablóide News of the World, fundado há 168 anos, fechou as portas por causa das inescrupulosas escutas telefônicas, violações de sigilo da família real, de celebridades, políticos, familiares de militares que morreram no Iraque e no Afeganistão e pessoas comuns, como revelou o jornal The Guardian. O caso mais escabroso foi o de Milly Dowler, uma garota de 13 anos que tinhado sido sequestrada e assassinada e os jornalistas apagaram recados de seu celular para liberar espaço para novas mensagens, fazendo a família e a polícia terem esperança de que a menina ainda estivesse viva. O jornal também hackeou telefones das vítimas dos atentados de Londres, em 2005, e pagou policiais por informações. Murdoch tentou vender a versão de tudo não passou de um desvio de conduta de maus profissionais. Simples assim: a culpa pelos crimes de espionagem teria sido de jornalistas inescrupulosos, que avançaram o sinal sem o conhecimento dele e da poderosa Rebekah Brooks, a executiva-chefe do braço que cuida dos jornais do grupo no Reino Unido. Mas, na verdade, o fechamento do News of the World foi uma manobra de Murdoch para evitar que fosse por água abaixo seu projeto de expandir o império com a compra a BSkyB, a maior provedora de TV por assinatura no Reino Unido.
The Godfather

As pressões para que o governo vete a negociação – um negócio de US$ 14 bilhões – estão aumentando. A compra da BSkyB viola a lei da livre concorrência e concentra a produção e distribuição de informação, uma vez que o grupo de Murdoch já é proprietário de canais de tevê e de três jornais no Reino Unido, além de provedor de internet (isso se chama “propriedade cruzada”, uma prática oligopólica de grandes conglomerados de mídia que é proibida em qualquer país civilizado. Aqui no Brasil, a simples discussão do tema é tratado pelos jornalões e televisões como tentativa de “cercear a liberdade de imprensa”). Com a descoberta das escutas, da corrupção e de que os executivos do grupo mentiram para encobrir o caso, a probabilidade de aprovação do negócio é mínima. E o fato de um dos envolvidos no escândalo, o ex-diretor do News of the World Andy Coulson, preso na sexta-feira, ter sido assessor de imprensa do primeiro-ministro James Cameron, só piora as coisas para Murdoch.

Coulson, ex-assessor de Cameron
A imprensa britânica agora encontrou revidências de que outros jornais do grupo Murdoch – como o Sun e o Sunday Times – também fizeram espionagem política, violaram sigilos e fizeram escutas telefônicas contra o ex-primeiro-ministro Gordon Brown, do Partido Trabalhista. Papéis relativos à compra um apartamento pelo político, seus dados bancários e até mesmo os registros médicos que documentavam uma grave doença sofrida por seu filho mais novo teriam sido violados; alguns destes documentos foram encontrados com os “arapongas” que trabalhavam para Murdoch. A multiplicação de casos de escutas e violações por vários jornais do grupo deixa evidente que os crimes do News of the World não se tratavam de “desvios” cometidos por meia dúzia de jornalistas, mas de uma política empresarial do grupo Murdoch.

Janet Malcom, autora de O Jornalista e o Assassino
Tudo isso nos leva à reflexão sobre o perigo que representa para a democracia a concentração de veículos da mídia em poucas mãos. No Brasil, em nome da “liberdade de imprensa”, os barões da mídia se colocam resolutamente contra qualquer medida que vise a democratizar a informação. Isso é um ponto. Mas é preciso refletir, também, sobre o papel que nós, jornalistas, desempenhamos num contexto dominado pela completa mercantilização e espetacularização da notícia. O início do livro O jornalista e o assassino, de Janet Malcom, fornece um amarga reflexão sobre nossa mísera condição nas circunstâncias atuais:

“Qualquer jornalista que não seja demasiado obtuso ou cheio de si para perceber o que está acontecendo sabe que o que ele faz é moralmente indefensável. Ele é uma espécie de confidente, que se nutre da vaidade, da ignorância ou da solidão das pessoas. Tal como a viúva confiante, que acorda um belo dia e descobre que aquele rapaz encantador e todas as suas economias sumiram, o indivíduo que consente em ser tema de um escrito não ficcional aprende – quando o artigo ou livro aparece – a sua própria dura lição. Os jornalistas justificam a própria traição de várias maneiras, de acordo com o temperamento de cada um. Os mais pomposos falam de liberdade de expressão e do ‘direito do público a saber’; os menos talentosos falam sobre a Arte; os mais decentes murmuram algo sobre ganhar a vida.”

A montanha dos sete abutres, de Billy Wilder


Um comentário:

  1. Rosebud.

    Interessante as referências do cinema. Na verdade as desconhecia.

    Acho que se trata de um momento crítico para o império News Corp., porém me desanima pensar que o Charles Foster Kane contemporâneo não seja devidamente atingido.

    Ao mesmo tempo é inegável o baque nos negócios de Murdoch.

    Em síntese: O pior é dar-se conta que "valores Murdoch" contaminam boa parte da imprensa mundial, inclusive a brasileira. Tal qual a imprensa marrom do Hearst disseminou ao longo do século passado.

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