sexta-feira, 10 de setembro de 2010

A SOBREVIVÊNCIA DA LÓGICA TRIBAL

Politicamente sempre estive no campo da esquerda, mas "metodologicamente" evoluí (?) do romantismo radical para o ceticismo pragmático. Entre um e outro,  inebriado pelo canto da sereia apocalíptico dos frankfurtianos, cheguei a flertar com o niilismo anarquista. Finalmente, operei a "síntese dialética" e hoje adoto a consigna gramsciana de "pessimismo na teoria; otimismo na ação". Ainda me considero adepto do Iluminismo e da Revolução Francesa, bien sûr!  Contudo, vacinado contra as ilusões românticas, subscrevo a máxima cética (cínica?) churchilliana da democracia como pior dos regimes, salvo os demais. As dúvidas, portanto, nunca mais me abandonaram (Descartes explica?). Entendo a advertência tocquevilleana sobre a "tirania da maioria" tanto quanto me assusta o "fundamentalismo democrático" dos neocons e de seus epígonos ex-esquerdistas. Afinal, Dr. Jekyll e Mr. Hyde (o médico e o monstro) não é apenas uma metáfora da condição humana.

As reflexões abaixo, a partir do filósofo Herbert Spencer (1820-1903), citadas pelo estrategista e historiador militar britânico J. F. C. Fuller, são perturbadoras porque demolem o senso comum sobre a conexão necessária entre democracia, tolerância e paz; os regimes democráticos não estão necessariamente imunes aos horrores do ódio étnico e da guerra. A carnificina nos Bálcãs, a invasão americana no Iraque e a recente expulsão dos ciganos da França, por exemplo, mostram como a utopia liberal-democrática pode ser tão ilusória, opressiva e excludente quanto a distopia socialista. Sonhamos com a paz perpétua kantiana, mas no fundo ainda somos prisioneiros da lógica implacável do "estado da natureza" hobbesiano.

Nós (não importa quem) somos os eleitos, os melhores
"Tribos selvagens e [...] sociedades civilizadas [...] têm tido, continuadamente, que levar a efeito uma autodefesa externa e uma cooperação interna - antagonismo externo e amizade interna. Como consequência, seus membros adquiriram dois conjuntos de sentimentos e ideias ajustadas a essas duas espécies de atividades. Uma vida de constante inimizade externa dá origem a um código onde são inculcadas a agressão, a conquista e a vingança, enquanto a ocupação pacífica é condenada. Inversamente, uma vida de amizade interior, solidamente estabelecida, dá origem a um código no qual são preconizadas as virtudes que conduzem à cooperação harmoniosa - à justiça, à veracidade, ao respeito ao direito dos outros. Como a ética da inimizade e da amizade, que surgem em cada sociedade em resposta, respectivamente, as condições externas e internas, têm que coexistir, o seu encontro dá lugar a um conjunto de sentimentos e ideias absolutamente inconsistentes". Chega-se, assim, a "duas classes de deveres e virtudes, condenadas ou aceitas segundo padrões semelhantes, uma das quais (código de amizade) associa-se às concepções éticas, enquanto que a outra (código da inimizade), não", escreveu Herbert Spencer.

Os outros são abomináveis e devem ser eliminados
Conclui-se, assim, que há duas espécies de moral [...] uma para o grupo interno e outra para o grupo externo, ambas emanando dos mesmos interesses. "Contra estrangeiros é meritório matar, pilhar, praticar vinganças sangrentas e roubar mulheres, enquanto que, para o grupo interno, é válido o oposto. [...]

O homem, tal qual é, só pode ser explicado pelo homem tal qual foi e jamais pelo homem como gostaríamos que fosse - o pensamento ardente do pacifista. Ele é o produto de milhares e milhares de ancestrais selvagens e sanguinários, que lhe legaram seus instintos. O medo, o mais poderoso de todos, é igualmente a sentinela do bárbaro e do homem civilizado. [...]

A força motriz da democracia não é o amor por outrem; é o ódio a tudo que é exterior à tribo, à facção, ao partido ou à nação. A "vontade geral" preconiza a guerra total e o ódio é o mais poderoso dos recrutadores.
John Frederick Charles Fuller (A Conduta da Guerra)

Discordo, contudo, do determinismo da última frase. Ela deve ser tomada como uma advertência contra o ovo da serpente. Para se proteger, a democracia deve se erigir como um "ceticismo institucionalizado".  

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