quarta-feira, 22 de setembro de 2010

O VALE-TUDO DO PARTIDO MIDIÁTICO

"Acontece que somos negociantes de frases, vivemos de nosso comércio"  (Honoré de Balzac, Ilusões Perdidas)

Marcha da Família em 1964: hoje a classe média não vai às ruas 
 As duras reações do presidente Lula e da candidata do PT, Dilma Rousseff, à radicalização da campanha midiática contra o governo serviram de pretexto para que os grandes veículos de comunicação, desesperados ante a perspectiva de Serra perder a eleição no primeiro turno, levantassem a bandeira da "ameaça à liberdade de imprensa". Ela se junta às denúncias sistemáticas sem provas, à campanha suja na web, à verve dos articulistas inflamados, dos editoriais tenebrosos e dos protestos da turma do "Cansei" - até agora pálidos arremedos das "marchas da família com Deus pela liberdade" que mobilizaram a classe média contra João Goulart em 1964. Recicla-se também a tática udenista do "mar de lama" usada contra Getúlio Vargas em 1954.
Jango e a "república sindicalista"
A grande mídia acusa Lula de autoritário mas não se escandaliza com o fato de José Serra fazer uma palestra fechada no Clube da Aeronáutica revivendo o fantasma da "república sindicalista" - a justificativa dos militares para derrubar Jango. Pior: faz coro com o tucano. Articulistas da Veja e do Globo vão ao Clube Militar - um antro de reacionários de pijama saudosos do AI-5, da censura e das torturas - falar sobre "a democracia ameaçada: restrições à liberdade de expressão". Serra pede a cabeça de jornalistas, agride-os em debates e confisca fitas e é Lula quem ameaça a liberdade de imprensa... 
   
Como já disse Altamiro Borges, "toda a gritaria sobre a quebra do sigilo fiscal dos tucanos e outros factoides tem dois objetivos: o primeiro é tentar levar José Serra para o segundo turno, mesmo que seja com a ajuda da candidata verde Marina Silva. O segundo, como subproduto, é evitar o definhamento da candidatura demo-tucana contamine as disputadas estaduais. Os sinais, nesse sentido, são nítidos e indicam que a baixaria vai crescer nestes últimos dias de campanha eleitoral".   

Essa indignação contra as "ameaças à liberdade de imprensa", portanto, não passa de tática de guerrilha midiática. Os meios de comunicação tupiniquins repetem o modelo da Fox americana, que virou o "braço midiático" do Partido Republicano e promove uma campanha tão extremada contra o governo que o próprio Barack Obama foi obrigado a reagir. Ninguém, a não ser os fanáticos do Tea Party, achou que essa reação do presidente americano constituiu uma ameaça à liberdade de expressão...

Por outro lado, alguns fatos do passado remoto e recente protagonizados pelos oligopólios de comunicação brasileiros mostram o quão falazes são seus compromissos com a democracia e a liberdade de expressão:

Golpismo: O Globo, Estadão, JB e a Folha da Manhã deram apoio sistemático à mobilização contra o governo constitucional de Jango Goulart e ao golpe militar que o derrubou em 1º de abril de 1964;

Apoio logístico à repressão: a Folha da Manhã forneceu viaturas para o trabalho da repressão em 1968 e 1969 e deixou a Folha da Tarde ser editada por policiais do DOPS nos anos 1970; 

Subserviência canina ao poder: a Folha de S. Paulo, veículo que jamais foi censurado, afastou o jornalista Cláudio Abramo da Direção de Redação por pressão do ministro do Exército, Sylvio Frota, em 1977;

Falcatruas eleitorais: a Rede Globo tentou fraudar a eleição de Leonel Brizola ao governo do Rio de Janeiro no escândalo Proconsult em 1982;

Manipulação: em 25 de janeiro de 1984 a Rede Globo tentou esvaziar as notícias sobre a gigantesca manifestação pelas diretas em São Paulo ao apresentá-la como "festa do aniversário da cidade";

Mais manipulação: a Rede Globo fez uma edição escandalosa do debate final entre Lula e Collor em 1989 para beneficiar o "caçador de marajás", candidato da direita e dos grupos dominantes;

Interesses escusos: a Veja cravou a falsa versão do legista Badan Palhares sobre a morte de Paulo César Farias com a matéria "Caso Encerrado" (1996). Queria fazer um acordo com a família Farias para ter acesso aos arquivos de PC. Mesmo depois de essa versão ter sido desmoralizada por outros veículos, a revista jamais publicou uma linha de correção;    

Denuncismo barato: em 2006 a Veja acusou, sem nenhuma prova, o presidente Lula de ter contas no exterior em e o PT de ter recebido US$ 5.000 das Farc par a campanha eleitoral;

A falsa ficha da Dilma
Ligações perigosas: o pseudojornalista Diogo Mainardi, de Veja, agiu como cão de guarda do banqueiro Daniel Dantas, principalmente no caso das negociações da Brasil Telecom com a Telemar;

Má-fé: a Folha usou uma falsa ficha policial de Dilma Rousseff para fazer uma reportagem sobre a ação dela na guerrilha; recentemente, acusou a ex-ministra de causar prejuízos aos cofres públicos por uma lei da época do governo FHC. Depois, ignorou a repercussão negativa nas redes sociais;


Esqueceram-se do mensalão do DEM?
 A imprensa e a mídia têm o sagrado dever de investigar e denunciar o poder. A informação é um instrumento básico para que os cidadãos possam exercer seus direitos numa democracia. O problema é que aqui no Brasil a grande mídia virou partido político e trafega em via única. Só os escândalos do PT causam indignação. O mensalão tucano em Minas, os escândalos da governadora Yeda Crusius no Rio Grande do Sul, o mensalão do DEM em Brasília - em que o ex-governador "demo" Roberto Arruda, aquele que seria vice na chapa do Serra, foi filmado pegando dinheiro de propina - não merecem um décimo da "ira santa" que os jornalões e televisões destilam contra Lula e o PT. Isso sem falar nos escândalos da "privataria" da era FHC. E quando uma personagem patética como essa tal de Soninha Francine, a "nova cara" da política, diz que a paralisação do metrô de São Paulo foi um "complô petista", a mídia repercute sem questionar. Será que é porque o governo paulista garante recursos polpudos por meio de assinaturas de jornais e revistas para as escolas e instituições do Estado? 

Tomás de Aquino
 É pouco, muito pouco.

Algo me diz que os barões da mídia têm mais motivos para embarcar nessa guerra suja e sem quartel do que supõe nossa vã filosofia. Além das vantagens materiais imediatas e do indisfarçável preconceito classista contra Lula, os Marinho, Civita, Frias e Mesquista devem temer que um governo Dilma encaminhe uma reforma que quebre a propriedade cruzada - a possibilidade de uma empresa de comunicação ser dona de rádios tevês, jornais e revistas - ou modifique a lei que limita a participação de capital externo em 30%.   

Só isso explicaria tanto sangue nos olhos.

Pessoalmente, contudo, acho que é mais factível crer no "boi voador" de Tomás de Aquino do que na aprovação de leis que mexam com esse oligopólio da grande mídia. Talvez seja mais razoável esperar que as mídias sociais se consolidem como contrapoderes à mídia tradicional. 

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