terça-feira, 21 de setembro de 2010

OS DISCÍPULOS TACANHOS DE CATÃO


D'Urso e a turma do "Cansei": udenismo revisitado

Catão, o censor

A turma do "Cansei", aquela que ressuscitou o udenismo em São Paulo, está de volta, desta vez envergando as vestes de Catão, o censor. Só que com uma verve bem mais pobre do que a do patrício romano. Um dos líderes da "mobilização das dondocas" da elite branca - na definição impagável do ex-governador Cláudio Lembro -, o presidente da seção regional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Luiz Flávio Borges D'Urso, sugere, com todas as letras, a volta à censura no Brasil. Ele assinou uma nota pública na qual pede a exclusão das obras da série "Inimigos", de Gil Vicente, da próxima Bienal, onde será (seria?) exibida. São desenhos feitos em carvão, nos quais o artista se retrata assassinando autoridades como o presidente Lula e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. A nota da OAB-SP diz que as obras "demonstram desprezo pelo poder instituído, incitando ao crime e à violência" e que "uma obra de arte, embora livremente e sem limites expresse a criatividade de seu autor, deve ter determinados limites pafra sua exposição pública. Um deles é não fazer apologia ao crime". 

Seria cômico se não fosse trágico. A seção paulista da OAB, que no passado ditatorial lutou contra o cerceamento da liberdade de expressão, agora quer tutelar o gosto do público. Como se fôssemos todos criancinhas que precisassem de "proteção" paternal para não fazer bobagens. A obra em questão é de uma ruindade e de um mau gosto atrozes e o autor já conquistou seus 15 minutos de fama, mas só ao público cabe julgá-la. Pelo critério provinciano, tacanho e retrógado da OAB-SP, museus como o Louvre, o MoMa, o Hermitage, o Metropolitan e o Prado estariam entregue às moscas. Pior de tudo, a nota da OAB criminaliza uma obra de arte em nome do Estado de Direito - aquele que, justamente, tem como um dos pressupostos a garantia da liberdade de expressão. Voltaire, que aliás não era advogado, compreendeu muito bem o espírito do direito à livre expressão: "não concordo com uma só palavra do que dizes; mas defenderei até a morte o vosso direito de dizê-lo".

Voltaire
Não se pode exigir que suas excelências cansadas da OAB-SP conheçam Voltaire ou critérios artísticos; mas pode-se supor que eles conheçam, senão o espírito, pelo menos a letra da Carta Magna brasileira, que consagra a liberdade de expressão como uma de suas garantias fundamentais e proíbe a censura: "É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença" (Inciso IX do Art. 5º); "A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição" (Art. 220); "É vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística" (§ 2º do Art. 220).

A direita e a oligarquia paulista estão conseguindo fazer uma edição melhorada (ou piorada) do Festival de Besteiras que Assola o País (Febeapá), de Stanislaw Ponte Preta.

Um comentário:

  1. Cláudio

    Gostei do irônico toque de invocação do saudosismo, Febeapa. Triste tempo, porém hilário...

    Adinaldo

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