segunda-feira, 6 de setembro de 2010

DA UTOPIA PRECOCE À DILUIÇÃO DA IDENTIDADE

Salvador Allende
Há 40 anos, o médico e senador socialista Salvador Allende Gossens era eleito presidente do Chile. Pela primeira vez na história, um líder marxista com um programa abertamente revolucionário chegava ao poder na América Latina por meio das urnas. A “via chilena para o socialismo” era ambiciosa, uma vez que pretendia acabar com a sociedade de classes sem recorrer à revolução violenta nem à instauração de uma ditadura de partido único. Sim, porque país algum – nem antes nem depois – conseguiu substituir o capitalismo pelo socialismo por caminhos pacíficos, respeitando o mecanismo de maiorias parlamentares e mantendo as liberdades democráticas ditas “burguesas” – liberdade de expressão, pluripartidarismo e alternância de poder. Allende buscava um caminho diverso do experimentado por Rússia, China e Cuba.




Henry Kissinger
General Schneider
A experiência da Unidade Popular - uma coalizão de socialistas, comunistas, radicais e cristãos marxistas - foi uma utopia precoce que terminaria em tragédia três anos depois por uma concentração infernal de contradições. A primeira foi a conjuntura internacional da Guerra Fria. Os Estados Unidos, engajados até o pescoço no atoleiro do Vietnã, não estavam dispostos a permitir que outro país latino-americano saísse de sua esfera de influência depois da Revolução Cubana. Washington patrocinava as ditaduras militares de direita no subcontinente - Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai - e faria de tudo para tornar a experiência de "socialismo democrático" chilena impossível. Henry Kissinger, o poderoso secretário de Estado de Richard Nixon, disse de cara que o governo americano  “não podia ficar parado aguardando um pais tornar-se comunista devido à irresponsabilidade do seu povo”, ordenando o início das ações sujas para impedir a posse de Allende. O primeiro ato foi o assassinato do general legalista René Schneider, comandante do Exército, cometido por terroristas de direita a soldo da CIA. Allende, no entanto, foi confirmado pelo Congresso, como exigia a Constituição, e tomou posse em novembro.

Mina de cobre, principal riqueza do Chile
O governo da UP nacionalizou os bancos, entre eles o Citibank, a indústria de cobre - responsável por 80% das exportações chilenas e em mãos de monopólios estrangeiros, como a Anaconda, a Kennecott Copper e a Serro -, a indústria de ferro e de salitre e interveio na filial da ITT no Chile. Ao verem seus interesses prejudicados, as empresas norte-americanas exigiram providências de Washington. Um memorando interno da ITT indicava o caminho: "A esperança mais realista dentre aqueles que desejam destituir Allende é que uma rápida deterioração da economia provoque uma onda de violência que leve a um golpe militar". A pressão dos EUA impediu o Chile de obter emprésticos internacionais e de exportar o cobre a preços competitivos. Dependente de insumos importados, o Chile viu sua frota de caminhões, táxis e tratores ficar paralisada por falta de peças de reposição. Por outro lado, a CIA também financiava atos de sabotagem, como a gigantesca greve de caminhoneiros que paralisou o país, e coordenava, junto com a direita chilena, várias ações para provocar o desabastecimento dos gêneros de primeira necessidade.

Os últimos momentos de Allende
Na outra  ponta, o Chile mergulhaava num clima de polarização nunca visto antes, que ficou totalmente fora de controle do governo. A extrema equerda, capitaneada pelo MIR (Movimento de Esquerda Revolucionária) pressionava Allende por medidas mais radicais ainda, enquanto brincava de revolução. Por meio de Cuba, eles fizeram chegar ao Chile armas soviéticas. E e a extrema direita fascista, cujo principal representante era o movimento Patria y Libertad, criado pela CIA, recebia treinamento militar americano em Los Fresnos, no Texas, para praticar sabotagens e atos terroristas. As medidas socializantes do governo Allende, por outro lado, alienaram a base política no Congresso, fazendo a Democracia Cristã pender para a conspiração golpista, na esperança de recuperar o poder perdido nas urnas. O agravamento da situação econômica e social agudizou os confrontos e rachou a sociedade chilena.

Pinochet e a Junta

O Palácio La Moneda bombardeado
O tiro de misericórdia veio a 11 de setembro de 1973, quando as Forças Armadas chilenas romperam sua tradição legalista e desfecharam um sangrento golpe militar. Bombardeado por caças da Força Aérea no Palácio La Moneda, Allende se suicidou para evitar ser morto ou preso pelos militares. A ditadura militar do general Augusto Pinochet matou 3 mil pessoas, impôs um modelo econômico ultraliberal - preâmbulo do thatcherismo - e durou 17 longos anos. Seus efeitos nefastos até hoje se fazem sentir na sociedade chilena.

Enrico Berlinguer
Aldo Moro
A tragédia da "via chilena" chocou a esquerda reformista mundial, particularmente sua força mais expressiva - o Partido Comunista Italiano (PCI), o maior do Ocidente. Já afastados da ortodoxia de Moscou, os comunistas italianos extraíram da experiência de Allende importantes lições estratégicas. Concluíram que, mesmo por via democrática, o socialismo não podia ser implantado contra a vontade da metade da população de um país, porque era isso o que justamente proporcionava munição para que as forças reacionárias desestabilizassem o governo popular. Em decorrência dessa premissa, o PCI entendeu que nas sociedades industrializadas, mais ainda do que em países periféricos, a esquerda tinha a necessidade de conquistar o apoio das classes médias e de expressivos setores do empresariado nacional. E, para isso, seriam necessárias alianças com o centro do espectro político, amenizando, dessa maneira, o programa socialista. Nascia o "compromisso histórico" formulado por Enrico Berlinguer, então secretário-geral do PCI. Versão ampliada das Frentes Populares antifascistas dos anos 1930, o "compromisso histórico" almejava construir uma coalizão de centro-esquerda com os maiores partidos da Itália - a Democracia Cristã e o Partido Comunista - para isolar as forças de direita e possibilitar uma alternativa progressista viável. Tal posição tinha o apoio do dirigtente democrata-cristão Aldo Moro - depois assassinado pelas Brigadas Vermelhas - mas era rejeitada pelos sua liderança conservadora.  

À esquerda, à esquerda, à esquerda
A ideia de um "compromisso histórico" italiano moldou o processo de "social-democratização" dos mais influentes Partidos Comunistas da Europa, mas sua fórmula também foi assimilada por outras forças progressistas do continente, como os socialistas. Esteve na origem da "Terceira Via", tendência surgida com o colapso do comunismo e o triunfo aparente do neoliberalismo. Essa tendência tentou conciliar uma política econômica conservadora, de matriz thatcherista, com políticas sociais levemente progressistas. O resultado foi desfiguração da esquerda reformista enquanto força distinta e com identidade própria. Os partidos tradicionais da esquerda europeia acabaram se diluindo tanto que se tornaram meros arremedos de seus adversários conservadores. Hoje,o Partido Democrático (sucessor do PCI), o SPD (Partido Social-Democrata alemão), o PS francês e o Labour (trabalhista britânico) ficaram desfigurados, perderam influência e eleitorado. Como a "via chilena", a Terceira Via também fracassou.   

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