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eita americ

ana não conhece a História. Sua virulenta oposição à reforma

do sistema de saúde proposta pelo presidente Barack Obama atingiu as raias do absurdo, com extremistas como o
Tea Party acusando o mandatário democrata de querer "socializar" os Estados Unidos. Se fossem menos ignaros, esses trogloditas saberiam que o pioneiro na introdução de um sistema público de saúde e previdência social no mundo não foi nenhum esquerdista incendiário, mas um arquiconservador, o chanceler (primeiro-ministro) prussiano
Otto von Bismarck.
O "chanceler de ferro" acreditava que a diplomacia sem as armas era como a música sem os instrumentos e que há ocasiões em que se deve governar com liberdade e outras com mão de ditador. Bismarck introduziu os primeiros seguros obrigatórios cobrindo a doença em 1863, os acidentes de trabalho no ano seguinte e a invalidez e a velhice em 1889.
Ele não fez isso por benevolência, mas para barrar o avanço do movimento operário e sindical capitaneado pelo Partido Social Democrata (SPD). Da mesma forma, o
Welfare State (Estado do bem-estar social), adotado posteriormente pela maioria dos países europeus, foi uma resposta ao crescimento do movimento operário, radicalizado depois da Revolução Bolchevique na Rússia

, em 1917. Com um movimento traba

lhista menos combativo, os Estados Unidos ficaram na condição de ser o único país avançado que não garante assistência médica a todos os seus cidadãos. Desde os anos 1930, presidentes democratas tinham fracassado na tentativa de implantar o acesso universal à saúde. O último a sentir o amargo sabor da derrota foi Bill Clinton. Hillary Clinton, que conduziu o projeto de reforma, ganhou o ódio eterno dos conservadores. A cobertura universal foi também uma das últimas grandes batalhas do senador
Teddy Kennedy.
Obama fez uma aposta política arriscada e ganhou. Enfrentou o ataque histérico da direita hidrófoba e de boa parte da opinião pública. Com isso, já garantiu um lugar na História por ter acabado com um sistema que deixava 32 milhões de americanos à margem, permitindo que grandes seguradoras privadas excluíssem cada vez mais doentes dos planos de cobertura. "Nós pagamos para ter assistência enquanto não tivermos qualquer doença que possa exigir pagamento caro. Aí, a seguradora cortará nossas pernas", escreveu Nicholas D. Kristof no
New York Times.
"Por mais caro que pareça o seguro social, ele sairá mais barato do que uma revolução", advertia o conservador Bismarck. Sofisticado demais para fãs de Mel Gibson, da Sarah Palin e da KKK.
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