segunda-feira, 8 de março de 2010

INOCENTES ÚTEIS

Recebo de alguns amigos um e-mail meio antigo que mostra cenas terríveis do Holocausto, lembrando que quando os americanos libertaram campos de extermínio nazistas, o general Eisenhower pediu a seus soldados que fotografassem os mortos e sobreviventes para evitar que, no futuro, alguém viesse a negar aquelas barbaridades. Ato contínuo, a mensagem informa que o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, nega o Holocausto, quer destruir Israel e preside um regime ditatorial. Por ser meio velho, o e-mail não menciona, mas poderia ter acrescentado que, ainda por cima, o maluco de Teerã quer ter a bomba atômica. Na sequência, pede-se enviar a mensagem para outras pessoas - a maldita corrente -, para que repudiem a visita de Ahmadinejad - ocorrida no ano passado - ao Brasil. Pretexto para criticar a política externa do governo Lula, exercício caro à direita tupiniquim. Mas meus amigos não percebem que, sob a máscara da defesa dos direitos humanos, da denúncia do negacionismo e do antissemitismo, a mensagem reflete os interesses dos Estados Unidos e de Israel no Oriente Médio. É verdade que Ahmadinejad é um déspota pouco esclarecido, para dizer o mínimo; mas não sejamos ingênuos: o que está em jogo não é uma reedição do nazismo em versão xiita: é a ameaça geopolítica que Teerã representa a esses interesses no tabuleiro da região. Senão, porque denunciar violações de direitos humanos e o antissemitismo no Irã e fazer ouvidos de mercador a essas práticas em países como a Arábia Saudita ou o Paquistão? Será porque eles são aliados estratégicos de Washington? E o que nós brasileiros temos a ganhar embarcando nessa política?

A Arábia Saudita é uma das mais opressivas ditaduras da face da terra. Naquela teocracia islâmica não existe liberdade política nem religiosa. A "sh'aria" (lei islâmica") é aplicada com extremo rigor: condenados recebem chibatadas em praça pública; ladrões têm as mãos decepadas e mulheres são executadas por lapidação (apedrejamento). "Delitos" como blasfêmia, adultério, homossexualismo, apostasia e prostituição são considerados crimes tão graves quanto assassinato, sequestro, tráfico de drogas e sedição e são igualmente punidos com a pena de morte por decapitação com espada. As mulheres são cidadãs de segunda classe. E, em nome do combate a Israel, a imprensa oficial saudita estimula o antissemitismo e a negação do Holocausto. Até pouco tempo atrás, a realeza saudita financiava grupos terroristas palestinos e islâmicos, entre eles a Al Qaeda. O regime saudita é muito mais opressivo do que o do Irã; no entanto, nossos democratas não ficam ultrajados com o fato de países democráticos manterem boas relações com os príncipes de Riad. O fato de a Arábia Saudita ser o maior exportador de petróleo do mundo explica em parte essa condescendência, mas só em parte, já que o Irã também é um grande produtor, mas - aí é que está o problema - não se alinha aos interesses de Washington.

Embora tenha armas nucleares, o Paquistão não sofre restrições dos países ocidentais por isso. É porque Islamabad sempre representou um contraponto geopolítico à Índia e à Rússia. Mas isso também fez do Paquistão o berço e o foco de expansão do radicalismo islâmico no Oriente. Suas madrassas - escolas religiosas muçulmanas - formam todos os anos milhares de jihadistas dispostos a matar civis "judeus e cristãos" para a maior glória de Alá. E o serviço secreto paquistanês, o ISI, com a ajuda da CIA, foi o principal responsável pela formação de grupos fundamentalistas para combater os soviéticos no Afeganistão nos anos 80. Um deles, o Talibã, foi a milícia que levou o Afeganistão de volta ao século IX até ser derrubada por tropas da Otan em 2001. Seria o Paquistão, com bombas atômicas e veículos para lançá-las e difusor do extremismo islâmico, melhor do que o regime dos aiatolás? Parece que sim, porque o Paquistão é fiel aliado de Washington. E nós com isso?

Por fim, gostaria que esses amantes da paz me explicassem por que o fato de o Irã tentar fabricar artefatos nucleares representa uma ameaça à estabilidade mundial maior do que o arsenal atômico israelense ou paquistanês.

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