quarta-feira, 25 de agosto de 2010

O QUE É ISSO, COMPANHEIRO???

Gabeira, hoje uma espécie de tucano verde em extinção 
Seria patética senão fosse trágica a leviandade com que Fernando Gabeira vem tratando a questão da luta armada contra a ditadura, da qual ele participou como integrante do MR-8. Fazendo eco a um discurso da extrema-direita cada vez mais disseminado, o deputado da Veja agora diz que os guerrilheiros dos anos 60 e 70, como ele, "não lutavam pela democracia, mas pela ditadura do proletariado". Na ânsia de atingir a candidata do PT, Dilma Rousseff, também ex-guerrilheira, o  deputado do PV do Rio de Janeiro se presta a renegar seu passado, oferecendo-o de bandeja aos saudosistas do porão. E quem se banqueteia são seus atuais companheiros, demos e tucanos com DNA de corvos.


Interessante notar que o primeiro livro de Gabeira, O que é isso companheiro?, publicado em 1980, já usava esse expediente de tentar explicar o passado com a lógica do presente. Na narrativa, os protagonistas da luta armada aparecem como se já na época não acreditassem mais na viabilidade da via revolucionária para a tomada do poder. Ora, os militantes fariam essa crítica das armas bem depois, com as prisões, as torturas, as mortes, o exílio - a derrota, enfim. Ninguém jamais teria posto a vida em risco por ideias que considerasse irrealizáveis.

Na verdade, a reconstrução da memória histórica com base na experiência e nas convicções do presente é um fenômeno sociológico. “Sempre quando os povos transitam de uma fase para outra da história, e quando a seguinte rejeita taxativamente a anterior, há problemas de memória, resolvidos por reconstruções mais ou menos elaboradas, quando não pelo puro e simples esquecimento”, explica Daniel Aarão Reis, historiador da UFF, também ex-guerrilheiro. E, de fato, nos anos 1980, a própria a memória da luta armada foi reconstruída como "resistência democrática à ditadura" - o que ela não pretendia ser à época. Mas essa era a maneira de resgatar o "combate nas trevas" e os que tombaram, porque àquela altura os próprios sobreviventes da guerrilha consideravam que o caminho das armas tinha sido politicamente equivocado.

Che Guevara e Fidel Castro
Junta Militar do Brasil em 1969
Mas, como lembra Denise Rollemberg, nos anos 60 e 70 os valores democráticos não estruturavam a sociedade brasileira e não eram cultivados nem pela direita no poder nem pela esquerda na clandestinidade - armada ou não. Havia de um lado a ditadura alinhada aos EUA da Guerra Fria; de outro, a aura romântica da Revolução Cubana, de Che Guevara, da Revolução Cultural, da Guerra do Vietnã. E a fetichização da guerrilha. Era o Zeitgeist (o "espírito da época"). As desilusões vieram depois. Quem viveu naquela época ou a estudou sabe muito bem como a percepção desses eventos então era bem diversa da sensibilidade política atual.

Mas isso não autoriza, como parece sugerir Gabeira, colocar no mesmo nível os que resistiram à ditadura - mesmo com meios e por fins que hoje sabemos equivocados - e os algozes que os torturaram, mataram e os fizeram "desaparecer". Fazer isso é corroborar o discurso a-histórico que hoje serve à direita hidrófoba. Seria como comparar o guerrilheiro Gabeira ao torturador Sérgio Fleury. Seria aceitar a postura que justifica a tortura e os assassinatos no DOPS e no Doi-CODI sob a alegação de que na época havia uma "guerra" e que um dos lados foi vencido e agora quer "vingança" e "revanchismo". Gabeira sabe ou deveria saber que isso é uma manipulação sórdida da história: havia uma ditadura, houve resistência armada e houve repressão. E o Estado, que já havia suspendido a cidadania e interditado o caminho da democracia, tornou-se criminoso quando exerceu a violência contra cidadãos sob custódia, sem defesa.

Talvez Gabeira tenha querido se tornar apenas mais uma celebridade.
Gabeira e a tanga nos anos 1980
Gabeira nos anos 1960
É uma pena. Ele já foi uma promessa. Quando voltou ao Brasil com a anistia, em 1979, chacoalhou a velha esquerda ortodoxa denunciando seu atraso cultural. Tornou-se defensor pioneiro de temas então considerados tabus, como a liberação das drogas, os direitos dos homossexuais, o feminismo e, posteriormente, o ecologismo. O verão de 1980 ficaria conhecido como Verão da Abertura e Gabeira, com sua famosa tanga de crochê, foi a melhor tradução dos novos tempos. O que é isso companheiro? virou best-seller. O livro incomodava, mas era necessário, porque buscava ajustar contas com o stalinismo e o messianismo da esquerda revolucionária. Eu o li em estado de êxtase - mas só até tomar conhecimento da Autobiografia de Federico Sánchez, de Jorge Semprún,  publicado no mesmo ano e que também fala sobre a desilusão com a Revolução, mas é muito mais denso e muito mais bem escrito.   

Embaixador Charles Elbrick
A tentação de Gabeira de virar celebridade pode ser percebida na narrativa do livro. Quem o lê sai com a impressão que ele foi peça fundamental na montagem da operação que resultou no sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick, em 1969, e sua troca por 15 presos políticos. Depois, graças a depoimentos de outros participantes do episódio e ao filme Hércules 56, soube-se que o papel do futuro tucano verde foi o de mero soldado raso. A operação foi uma "parceria" entre a Dissidência da Guanabara (DG, futuro MR-8) e a Ação Libertadora Nacional (ALN de Carlos Marighella), que comandou a ação. Os protagonistas principais foram Joaquim Câmara Ferreira, Virgílio Gomes da Silva, Paulo de Tarso Wenceslau e Franklin Martins. O livro deu origem a um filme homônimo, esteticamente sofrível e politicamente lamentável, em que Gabeira é o mocinho e Virgilio Gomes da Silva, comandante militar da operação posteriormente assassinado, é demonizado.

Os 15 presos políticos trocados pelo embaixador Elbrick
Talvez a melhor definição do episódio seja a do jornalista Flávio Tavares, um dos 15 trocados pelo embaixador: "A ação foi o equívoco triunfal. A repercussão internacional desmoralizou os EUA e deu ao mundo a idéia do se que vivia no Brasil. Mas deu pretexto para a repressão se organizar mais. Deu à resistência uma dimensão que ela não tinha, mas a população amedrontada não nos acompanhava. Não era uma ação para dizimar diplomatas, era para salvar da prisão pessoas que estavam à beira da morte, como eu".

Em matéria de passado, como dizia meu analista, é melhor ficar com postura de Edith Piaf: Je ne regrette rien (eu não me arrependo de nada):

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