segunda-feira, 30 de agosto de 2010

UMA NOVA CAÇA ÀS BRUXAS NOS EUA?

Bill e Hillary  Clinton
Paul Krugman
Num artigo deste domingo no New York Times, o economista Paul Krugman, Prêmio Nobel de Economia de 2008, afirma que um novo período de "caças às bruxas" está tomando corpo na cena política americana. Ele lembra que os últimos ocupantes democratas da Casa Branca (Bill e Hillary Clinton), que eram tudo menos radicais, foram acusados de quase tudo pela direita, desde tráfico de drogas até assassinato. E o fato de Clinton ter presidido o país num período de prosperidade econômica não o livrou da cruzada moralista dos conservadores, que quase conseguiu afastá-lo da Casa Branca por conta de um episódio menor, um ridículo affair com uma estagiária.

Obama pelo olhar da direita
Manifestação do Tea Party
Agora, uma campanha ainda pior da direita política estaria em curso contra a administração do presidente Barack Obama, diz Krugman. E com dois agravantes: o fato de os Estados Unidos estarem vivendo as consequências da maior crise econômica desde a Grande Depressão de 1929 e de serem presididos por um negro liberal ("esquerdista" no jargão político americano). Krugman cita como evidências dessa caça às bruxas a ascensão do Tea Party - movimento ultraconservador que surgiu para lutar contra os impostos e que incorporou a luta intransigente contra a reforma da previdência e do sistema financeiro -, a violenta polêmica surgida em torno da proposta da construção de uma mesquita perto do "marco zero" do 11 de setembro em Nova York e a crescente audiência de apresentadores racistas e de extrema direita. Alguns comentaristas chegam inclusive a insinuar que Obama é um muçulmano que estaria mancomunado com terroristas islâmicos.

Nessa onda, até Wall Street resolveu partir para a revanche contra a tentativa do governo de regulamentar o mercado financeiro: o bilionário Steve Scharzman chegou a comparar as medidas de Obama para diminuir  as lacunas fiscais dos fundos hedge à invasão nazista da Polônia. Para Krugman, o que torna essas atitudes aparentemente isoladas perigosas é o fato de figurões do Partido Republicano estarem flertando com essa cruzada. O que faz supor, conclui o Nobel de Economia, que se a oposição recuperar pelo menos uma casa no Congresso em novembro, deve-se esperar abertura de processos, acusações e até "autos de fé". 

Joseph McCarthy
A origem da moderna "caça às bruxas" remonta à Guerra Fria. Entre o final dos anos 40 e meados dos anos 50, os EUA viveram um dos episódios mais infames de sua história, conhecido como "macartismo". O adjetivo vem de Joseph McCarthy, um obscuro senador republicano de Wisconsin que presidiu o famigerado Comitê do Senado de Atividades Antiamericanas (HUAC). Foi um tempo em que, a partir do Congresso, os EUA viveram um clima de paranoia e de frenesi inquisitorial anticomunista que desencadeou uma campanha de perseguições a supostos espiões soviéticos infiltrados em diversas instituições do país, criando uma situação de absoluto desrespeito aos direitos civis. Embora alguns acusados realmente tivessem sido espiões soviéticos - como Alger Hiss e Julius Rosenberg - a maioria foi vilipendiada por causa de suas convicções políticas e ideológicas. Assim, caíram na chamada "lista negra" de McCarthy cientistas e funcionários públicos, mas principalmente artistas e escritores. Nomes célebres como Charles Chaplin, Dalton Trumbo, Lilian Hellman, Dorothy Parker, Leonard Bernstein, Bertold Brecht, Aaron Copland, Dashiel Hammett, Arthur Miller, Artie Shaw, Orson Welles, Luís Buñuel, John Steinbeck e Tennesse Williams, entre muitos outros, se viram no banco dos réus do Torquemada de Wisconsin.
Bogart e Bacall

Jornalistas como Edward M. Murrow e astros de Hollywood como Humphrey Bogart, Laureen Bacall e John Huston tiveram a decência de resistir bravamente à sanha persecutória do macartismo. Mas alguns, como o renomado diretor de cinema Elia Kazan, o ator de filmes "B" Ronald Reagan e até Walt Disney delataram seus companheiros. Ironicamente, um dos maiores colaboradores de McCarthy, o jovem congressista Robert Kennedy, se tornaria depois uma das maiores expressões do liberalismo americano. Só em meados de 1950 os abusos da comissão seriam denunciados e o macartismo, desmascarado. Mas, como uma fênix, sua sanha acusatória ressurge de tempos em tempos, sempre quando os democratas e os temas liberais ganham corações e mentes da maioria dos americanos e ameaçam o status quo conservador da América profunda.

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