quarta-feira, 13 de março de 2013

PLEBISCITO PARA INGLÊS VER


O plebiscito armado pelo Reino Unido nas Malvinas – ou Falklands, como querem os britânicos – trouxe o resultado óbvio: mais de 90% dos kelpers, os habitantes nativos das ilhas, votaram por permanecer sendo súditos de Sua Majestade Britânica.

O que me impressionou na cobertura jornalístico desse evento foram são as “análises” ancoradas no mais primário tipo de maniqueísmo: de um lado, matérias à “esquerda”, denunciando o neocolonialismo britânico e ignorando o direito de autodeterminação dos povos; de outro, a direita colonizada falando em autodeterminação como se nunca tivessem existido fenômenos como o colonialismo e o imperialismo.

O fato é que, com o Reino Unido afundando na recessão e o governo conservador amargando altas taxas de impopularidade, o premiê David Cameron inventou este plebiscito para desviar a atenção dos britânicos e lhes insuflar o sentimento nacionalista. É o velho Panis et Circensis da Roma antiga. Cameron, aliás, nem precisaria conhecer a história antiga (tenho dúvidas de que ele conheça), pois ele está repetindo a tática usada em 1982 por sua antecessora em Downing Street, 10, Margaret Thatcher. Na época, os facínoras que ocupavam a Casa Rosada tiveram a brilhante ideia de invadir as Ilhas Malvinas para unir o país em torno deles e dar sobrevida à ditadura, já que a Argentina amargava uma grave crise econômica e social. Apostaram na aliança com os EUA e no fait accompli, mas quebraram a cara. O pior é que grande parte da esquerda mundial apoiou os gorilas argentinos, em nome do anti-imperialismo. 

Desgastada politicamente no front doméstico, a Dama de Ferro viu na desastrada iniciativa dos militares argentinos uma oportunidade para resgatar a popularidade. Despachou uma esquadra para o Atlântico Sul e retomou sem dificuldade o controle das ilhas, granjeando apoio popular em casa. Com isso, mesmo com a insatisfação dos britânicos com a recessão e o desemprego, ela ganhou facilmente as eleições daquele ano. Ironicamente, Thatcher, que tanto admirava tiranias latino-americanas como a de seu amigo Pinochet, ajudou a pregar o último prego no caixão da ditadura argentina.

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