quinta-feira, 7 de março de 2013

OUSAR PENSAR!


Passou praticamente em branco, no Brasil, a data que marcou os 60 anos da morte do dirigente soviético Josef Stálin (5 de março). Hoje, formou-se um consenso universal, à esquerda e à direita, de que Stálin foi um tirano monstruoso e sanguinário, como se determinados indivíduos fizessem a história por vontade própria, guiados por algum espírito demoníaco. Ora, isso é pré-política. Quem estudar a época sem antolhos ideológicos verá que, quando Stálin morreu, milhões de pessoas choraram sua morte, e não apenas na União Soviética, mas em todo o mundo. É verdade que não se sabia – ao menos a maioria – dos crimes cometidos por Stálin, que seriam revelados somente três anos depois – no XX Congresso do Partido Comunista – e, mas fortemente, em 1961, no XXI Congresso. Mas, na época, acreditem ou não, havia um sentimento de genuína gratidão pelo papel que a URSS teve – com 30 milhões de mortos – na derrota do nazi-fascismo. Hoje, essa informação fundamental para se compreender aquela época trágica desaparece em nome do bom-mocismo ideológico.
 
O texto que apresento abaixo é uma resenha do veterano comunista português Miguel Urbano Rodrigues, de 2009, sobre o livro Stálin – História e crítica de uma lenda negra, do marxista italiano Domenico Losurdo. Escrever com isenção sobre Stálin e o período dramático que ele viveu não é tarefa fácil, principalmente em tempos politicamente corretos e incorretos. Como bom historiador, Losurdo se propõe a analisar o personagem à luz de documentos históricos, sem ceder às tentações ou preconceitos ideológicas. E, como demonstra a resenha, ele o consegue em larga medida. O personagem que emerge do livro é um dirigente multifacetado, misto de gênio político e tirano, mas jamais alguém redutível a esquemas preconcebidos. Podemos gostar ou não gostar de Koba – aliás, quase ninguém gosta. Mas não se pode deixar de analisá-lo dentro de um contexto histórico, apoiado em fatos documentados, não em considerações metafísicas. Um relato histórico não faz de Stálin um líder inocente, ou prisioneiro das férreas “leis da História”. Mas é preciso deixar de lado os estereótipos e “fazer a história a contrapelo”, como ensinava Walter Benjamin. Ou ainda, como pregava o filósofo iluminista Immanuel Kant, Sapere aude! (ousar pensar). Às vezes é difícil, mas é fundamental.

PS.: Amigos e companheiros poderão pensar que virei stalinista. Não é verdade; apenas reafirmo o gosto pela provocação...


Stálin, história e crítica de uma lenda negra – um livro de Domenico Losurdo

Por Miguel Urbano Rodrigues

Há meses que me sento diante do computador para escrever este artigo. Mas o projeto foi adiado dia após dia.

Quando Domenico Losurdo me ofereceu Stalin – Storia e critica de una leggenda nera, já lera criticas sobre a obra. Mas não a imaginava.

Qualquer texto sobre pessoas que deixaram marcas profundas na história, quando escrito sem o suficiente distanciamento temporal, cria sempre grandes problemas ao autor.

Vivi essa situação este ano ao publicar um desambicioso artigo – Apontamentos sobre Trotsky – O mito e a realidade. Em Portugal, alguns camaradas que admiro acusaram-me de trotskista; no Brasil, onde o artigo, mais divulgado, desencadeou polêmicas, professores das Universidades de Campinas e do Rio Grande do Sul dedicaram-me trabalhos acadêmicos, definindo-me como stalinista ortodoxo.

Domenico Losurdo aborda no seu Stálin aspectos muito polêmicos da intervenção na História do homem que na prática dirigiu a União Soviética durante quase três décadas. Não conheço obra comparável pela ausência de paixão e pela densidade e profundidade da reflexão sobre o tema.

Stálin foi um revolucionário que liderou a luta épica da União Soviética contra a barbárie nazi. Por si só esse combate em defesa do seu povo e da humanidade garante-lhe um lugar no panteão da História.

Sinto, contudo, a necessidade de acrescentar que nunca senti atração por Stálin. Não admiro o homem. A sua personalidade aparece-me inseparável de atos e comportamentos sociais que reprovo e repudio.

A contradição não me impede de escrever este artigo, estimula-me a assumir o desafio.

A DEMONIZAÇÃO DE STÁLIN

A demonização de Stálin principiou nos anos 20, adquiriu proporções mundiais com o XX Congresso do PCUS, foi retomada durante a Perestroika e prosseguiu após o desaparecimento da União Soviética, embora com características diferentes. Ao proclamar “o fim do comunismo”, a intelligentsia burguesa, empenhada em demonstrar a inviabilidade do socialismo, diversificou a ofensiva, atribuindo a Marx, Engels e Lênin grandes responsabilidades pelo “fracasso inevitável da utopia socialista”. Stálin foi sobretudo visado como criador e executor de uma técnica de governança ditatorial, monstruosa. A palavra stalinismo entrou no léxico político como sinônimo de um sistema de poder absoluto que teria negado o marxismo ao impor “o socialismo real” mediante métodos criminosos.

Não são apenas acadêmicos anticomunistas que satanizam Stálin. Dirigentes de partidos comunistas e historiadores marxistas, alguns de prestígio mundial, emprestaram credibilidade à condenação sem apelo de Stálin.

Eric Hobsbawm, o grande historiador britânico que foi, na juventude, membro do Partido Comunista inglês, esboça no seu livro A Era dos Extremos - Breve História do Século XX um retrato totalmente negativo do estadista que anos antes fora por ele elogiado como revolucionário merecedor da admiração da humanidade.

O peso do anátema é tão forte que a Fundação Rosa Luxemburgo atribuiu em Janeiro passado um prêmio ao historiador alemão Christoph Junke pelo seu livro Der lange Schatten des Stalinismus, uma catilinária impiedosa sobre um “fenômeno histórico” que é também “uma teoria e uma prática política” que exorciza.

DA ESPERANÇA À REALIDADE

Sobre Stálin e a sua época foram escritos centenas de livros. Dos que li nenhum me impressionou tanto como este. A esmagadora maioria condena o homem e a obra; uma minoria de incondicionais faz a apologia do dirigente comunista e defende sem restrições a sua intervenção na história. Um abismo separa os críticos como o polonês Isaac Deutscher (trotskista) dos epígonos como o belga Ludo Martens (maoísta), dois autores cujos livros foram publicados em português, no Brasil.

Losurdo, filósofo e historiador, ao iluminar uma época e o homem que foi o timoneiro da URSS durante quase trinta anos encaminha o leitor para uma reflexão complexa, inesperada e difícil. Não assume o papel de juiz.
 
O conhecimento profundo da história da Revolução Russa e das lutas que lhe marcaram o rumo após a morte de Lenine permitiram-lhe situar Stálin nesse vendaval sob uma perspectiva inovadora. Procura, como filósofo, compreender. Não absolve nem condena.

Acompanhando a trajetória de Stálin pela mão de Losurdo, o leitor é levado a conclusões incompatíveis com a lenda negra criada em torno da personagem. Mas Losurdo não reescreve a história, não tenta interpretá-la. Como investigador, fixa a atenção em períodos decisivos, procede a uma seleção de fatos e acontecimentos e situa Stálin nos cenários em que atuou.

Quase todas as revoluções devoram os seus filhos. A que se impôs em Outubro de 1917 não foi exceção à regra. Mas, quando ela triunfou, eram inimagináveis as crises e conflitos que desembocaram na execução da maioria das personagens mais brilhantes da grande geração de bolcheviques que se propunha a construir o socialismo na Rússia atrasada e famélica.

O tempo era de esperança. Ao encerrar o I Congresso da Internacional Comunista, Lênin sintetizou a sua confiança no futuro numa frase: “A vitória da revolução comunista em todo o mundo está assegurada. Aproxima-se a fundação da república soviética internacional”.

A previsão foi rapidamente desmentida pela História.

O dissipar das ilusões e a sua superação quase coincidiram com a doença e a morte de Lênin. Após a derrota da revolução alemã, o autor de O Estado e a Revolução teve a percepção de que o capitalismo iria sobreviver por muito tempo e que era necessário defender a todo o custo a jovem revolução russa. Trotsky não acreditava na viabilidade do “socialismo num só pais” e, desaparecido Lênin, acusou de covardia e oportunismo quantos tinham renunciado à ideia da revolução mundial.

Losurdo lembra que Stálin foi o primeiro dirigente soviético a afirmar que por um longo período histórico a humanidade continuaria dividida não somente em diferentes sistemas sociais, mas também em diferentes identidades linguísticas, culturais e nacionais.

Enquanto Trotsky dirigia ainda apelos à insurreição ao proletariado da Finlândia, da Polônia, das repúblicas bálticas, e das grandes potências capitalistas, Stálin criticava as teses sobre a exportação da revolução. Na sua opinião, a correlação de forças na Europa justificava a defesa do princípio da coexistência pacífica entre países com diferentes sistemas sociais.

Numa época em que muitos comunistas continuavam a sonhar com “o ascetismo universal”, Stálin lembrava que o marxismo é inimigo do igualitarismo e insistia num ponto central: “seria estúpido pensar que o socialismo pode ser construído com base na miséria e em privações, com base na redução das necessidades pessoais e na queda do padrão de vida dos homens ao nível dos pobres”.

Nos capítulos em que estuda as divergências de fundo que opuseram Trotsky e Stálin, Domenico Losurdo abstém-se mais uma vez de críticas e elogios. Situa o choque no grande painel da URSS pós-Lênin e resume as posições de ambos, recorrendo a múltiplas citações.

São particularmente interessantes as páginas em que são confrontadas as posições de Trotsky e Stálin sobre os temas da organização jurídica da sociedade, da família, da propriedade e sobretudo do Estado.

A questão central da extinção do Estado, prevista por Marx, e exaustivamente analisada por Lênin, antes e depois da tomada do poder, merece-lhe uma atenção especial.

Às críticas de Trotsky – então no exílio – à Constituição Soviética de 1936, Stálin responde que as lições de Marx e Engels não devem ser transformadas em dogma e numa nova escolástica.

O Estado Soviético, ao invés de caminhar para a extinção, fortalece-se cada vez mais. Segundo ele, o papel fundamental do Estado na URSS “consiste num trabalho pacífico de organização econômica e no trabalho cultural e educativo”. A antiga função repressiva fora “substituída pela função de salvaguarda da propriedade socialista da ação dos ladrões e dos esbanjadores do patrimônio do povo”.

Losurdo sublinha que, na prática, o Estado soviético se desviou dessa função e lembra que em 1938 “imperava o terror e se ampliava monstruosamente o Gulag”.

Mas a permanência do Estado repressivo não responde à pergunta: até que ponto é válida a tese de Marx sobre o definhamento e a extinção do Estado? Deve ou não manter-se o Estado numa sociedade comunista?

Losurdo recorda que na posição assumida por Stálin são identificáveis muitas contradições, mas sublinha que, ao contrariar uma tese clássica de Marx, o secretário-geral do PCUS atuava num terreno minado o que o expunha à acusação de “traidor” lançada por Trotsky.

A partir do início dos anos 30, Stálin, na sua luta contra a oposição, acusa os seus membros, globalmente, de “agentes do inimigo”.

Exagerava. Mas Trotsky, principalmente, oferecia-lhe argumentos que contribuíam para a credibilidade das acusações que lhe eram dirigidas. Quando rádios da Prússia Oriental começaram a transmitir para a URSS textos trotskistas, Stálin tirou benefícios dessa iniciativa. E quando Trotsky, nas vésperas da II Guerra Mundial, em 22 de Abril de 1939, deu o seu apoio aos que pretendiam “libertar a Ucrânia soviética do jugo stalinista”, intensificou-se a perseguição a quadros suspeitos de ideias trotskistas.

A OUTRA “GUERRA CIVIL”

Ao contrário do que se afirma na História oficial da Revolução Russa editada pelo PCUS, o grupo dirigente que assumiu o poder em Outubro de 1917 estava já dividido no tocante a problemas fundamentais da política interna e internacional.

Os debates sobre os sindicatos, o papel do campesinato, a economia, as relações com as potências capitalistas, a questão das nacionalidades foram sempre polêmicos no Politburo e no Comitê Central. Somente o carisma e o imenso prestígio de Lênin retardaram os conflitos sobre a orientação do Partido que se produziram após a sua morte.

Losurdo conclui que o Relatório Secreto de Kruchóv ao XX Congresso apresenta desse período histórico uma visão distorcida e fantasiada.

A tese de Kruchóv, segundo a qual cabe a Stálin a responsabilidade pelo assassínio em 1934 de Serguei Kírov, porque o jovem dirigente estaria implicado numa vasta conspiração contra ele, é rebatida por Losurdo com o apoio de documentação recentemente divulgada. Na realidade Kírov tinha uma grande admiração por Stálin, que depositava nele uma confiança total.

As conspirações para afastar Stálin do poder foram muito reais, mas as versões delas apresentadas no Ocidente por sovietólogos anticomunistas contribuem na opinião do filósofo marxista italiano para falsificar a história. E atingiram esse objetivo.

Domenico Losurdo está consciente de pisar um terreno perigoso na sua tentativa de iluminar um Stálin diferente do ditador cruel, megalômano e vingativo, cujo perfil aparece esboçado no Relatório Secreto ao XX Congresso. Essa imagem, com o aval de Kruchóv, foi exportada para todo o mundo e acabou por ser aceite no Ocidente como verdadeira até por muitos dirigentes de Partidos Comunistas.

Os capítulos do livro de Losurdo que suscitaram mais polêmica em Itália e noutros países são por isso mesmo os dedicados às lutas no Partido que precederam os Processos de Moscou.

De alguma maneira, a carta de Lenine ao Congresso do PCUS – lida por Krupskaia, mas somente publicada anos depois – estimulou em dirigentes do Partido a tendência para lutar contra Stálin. Trotsky começou a conspirar com Kamenev e Zinoviev logo após a morte de Lênin.

Losurdo define o conflito ideológico da época como uma “guerra civil” que foi permanente no Partido até aos últimos processos do ano 38. Na primeira fase da luta pelo poder, Stálin conseguiu isolar Trotsky dos velhos bolcheviques, desencadeando contra ele uma campanha em que foi recordado o seu passado menchevique e as polêmicas mantidas com Lênin.

O escritor italiano Curzio Malaparte, num livro que foi best seller – Técnica do Golpe de Estado – publicado em França em 1931, foi um dos primeiros intelectuais europeus a escrever no Ocidente sobre os acontecimentos mal conhecidos que, no ano 27, precederam a prisão de Trotsky, a sua expulsão do Partido e o confinamento em Alma Ata, no Casaquistão.

Uma documentação importante confirma que Kamenev e Zinoviev, que se opunham à política de Stálin mas, sem o enfrentarem no Politburo, participaram pessoalmente dessa primeira conspiração. O objetivo era o afastamento de Stálin, mas o projeto fracassou e o secretário-geral recuperou mais uma vez Kamenev e Zinoviev, isolando Trotsky.

Bukhárin, sempre imprevisível, fora até então – segundo Losurdo – como diretor do Izvestia, um aliado firme de Stálin, mas, a partir da extinção da NEP e do inicio da coletivização das terras, empreendida em ritmo acelerado e com recurso a métodos cruéis, chegou à conclusão de que a estratégia adotada pelo PCUS conduziria o país a um desastre. O dirigente, que em Brest Litovsk tinha liderado no Partido a ala esquerdista, deslocou-se para a direita numa brusca guinada, convicto de que a revolução somente poderia sobreviver se mudasse de rumo, adotando uma orientação democrático-burguesa, o que significaria uma regressão histórica.

Rogowin, um historiador trotskista citado por Losurdo, afirma que Stálin tomou então a iniciativa de desencadear “uma guerra civil preventiva” contra aqueles que pretendiam derrubá-lo. Nesse período de conspirações labirínticas, o envolvimento de destacados dirigentes em manobras de bastidores foi permanente, delas participando alguns membros da velha guarda bolchevique. A abertura dos arquivos soviéticos veio esclarecer que alguns mudaram com frequência de campo.

Rogowin, polemizando muito mais tarde com Solzhenytsin, afirma que, longe de ser a expressão de “um acesso de violência irracional e insensata”, o sanguinário terror desencadeado por Stálin foi na realidade a única maneira pela qual ele conseguiu quebrar a resistência daquilo a que chama “as verdadeiras forças comunistas”.

Nos processos de Moscou os ex-dirigentes bolcheviques aparecem todos como traidores. Mas a palavra é brutal e a generalização deforma a história. Antonov Ovsenko, Preobrajensky, Karl Radek, Rakovsky, Bukhárin, Kamenev, Zinoviev, entre outros, dedicaram as suas vidas a um projeto radical de transformação da sociedade cuja meta era o socialismo, rumo ao comunismo.

Domenico Losurdo, escorado por fontes credíveis, procura compreendê-los descendo às raízes de comportamentos contraditórios que expressavam simultaneamente as dúvidas, as opções ideológicas e a fidelidade ao ideal comunista desses revolucionários.

Nas páginas dedicadas ao vespeiro de lutas internas dos anos 20 e 30, a chamada conspiração dos militares merece atenção especial. Losurdo não deixa para o leitor as conclusões; neste caso não se limita a colocar os dados sobre a mesa.

Na torrencial bibliografia ocidental sobre o assunto, o marechal Tukachevsky, herói da guerra civil, é sempre apresentado como vítima inocente do terror stalinista, arquétipo do revolucionário puro, triturado por uma engrenagem perversa.

Losurdo afirma que já em 1920, durante a guerra na Polônia, Tukachevsky tinha deixado transparecer uma ambição militarista preocupante ao impor a marcha sobre Varsóvia que teve um desfecho desastroso. Mas Stálin confiava nele e promoveu-o a marechal após as vitórias alcançadas em 36 contra o Japão na Mongólia.

Transcorridos 70 anos, continua a ser polêrmica a questão dos contactos secretos que Tukachevsky teria mantido com potências estrangeiras. Mas historiadores que lhe atribuem a aspiração de se transformar no “Bonaparte da Revolução Bolchevique” acumularam provas que o comprometem.

O tchecoslovaco Benés, em 1937, informou os franceses desses contatos e Churchill, após a II Guerra Mundial, admitiu que a grande depuração no corpo de oficiais da URSS atingiu elementos filo alemães e, citando o nome de Tukachevsky, afirmou que Stálin tinha uma dívida de gratidão para com o presidente Bénes. O embaixador dos EUA em Moscou, Joseph Davies, alude também a uma “conspiração dos militares”. O próprio Trotsky, não obstante o seu ódio a Stálin, afirma evasivamente, num comentário à execução de Tukachevsky e outros oficiais, que “tudo depende daquilo que se entenda por conspiração”.

Na sua reflexão sobre a prolongada luta travada na direção do PCUS após a morte de Lênin, Losurdo emprega repetidamente a expressão “as três guerras civis” para caracterizar a amplitude que assumiram. A última findou com a execução de Bukhárin.

O filósofo italiano lembra no seu livro que Bukhárin, após a extinção da NEP, decisão a que se opôs, começou, em reuniões privadas, a chamar a Stálin “o representante do neotrotskismo” e “intrigante sem princípios”. Foi o começo da viragem que, paradoxalmente, mais uma vez o aproximou de Trotsky, que lhe inspirava temor e admiração.

AS ORIGENS DO STALINISMO

A deformação da história real da Rússia começou no Ocidente logo após o derrubamento da autocracia czarista. A tese segundo a qual a Revolução de Fevereiro teria sido uma revolução quase sem violência e a de Outubro uma sangrenta tragédia é um mito forjado nos países capitalistas. Na realidade morreu muito mais gente na primeira do que nas jornadas que precederam o assalto ao Palácio de Inverno e nos dias posteriores.

Losurdo, no capítulo em que estuda as “origens do stalinismo”, recorda que Stálin, contrariamente a Trotsky, defendia a compatibilidade de um “nacionalismo sadio”, do “sentimento nacional e da ideia de pátria” com a fidelidade ao internacionalismo proletário. Quando o Reich nazi invadiu a URSS afirmou insistentemente que o caminho para o universal passava através da luta dos povos que não aceitavam a condição de escravos ao serviço do povo de senhores imaginado por Hitler.

Stálin é acusado de defender um conceito de estado e uma política de nacionalidades cuja aplicação refletiu contradições antagônicas. Mas vivia-se uma época em que contradições simultaneamente transparentes e incompatíveis eram comuns na formulação da teoria revolucionária. Rosa Luxemburgo criticou duramente o partido bolchevique por ter liquidado a democracia tal como a concebia, mas simultaneamente exortava-o a reprimir com punho de ferro qualquer tendência separatista de “povos sem história”, incluindo o da sua Polônia natal. Stálin, pelo contrário, defendia a necessidade de um respeito enorme pelas mais de cinquenta nacionalidades da Rússia e considerava que a preservação das suas línguas e culturas lhe aparecia como indissociável do progresso da Rússia revolucionária.

Essas ideias, condensadas num livro elogiado por Lênin, não encontraram porém tradução na praxis, sobretudo a partir dos anos em que exerceu como secretário-geral do PCUS um poder pessoal quase absoluto.

Mas, paradoxalmente, nos últimos anos da vida, Stalin reassume a defesa das nacionalidades ao combater como utópica a ideia de “uma língua única para a humanidade quando o socialismo triunfar em nível mundial”. Sublinhando que a língua não é uma super estrutura, afirma que os idiomas não foram criados por uma classe social, mas “por todas as classes da sociedade graças aos esforços de centenas de gerações”.

No seu denso ensaio, cuja riqueza concetual e documental é incompatível com sínteses breves, Losurdo fixa as origens daquilo a que se chamou o stalinismo, numa época marcada por tensões, conspirações e fome, do inicio da coletivização das terras.

Citando a Fenomenologia do Espírito, de Hegel, e o que o filósofo alemão pensava da “liberdade absoluta” e do “terror”, sustenta que "o “stalinismo” não é o resultado “nem da sede de poder de um indivíduo, nem de uma ideologia, mas do estado de exceção permanente que se implanta na Rússia a partir de 1914”.

A maioria dos historiadores ocidentais sérios, lembra, coincidem em que no início dos anos 30, Stálin não era ainda um autocrata. Segundo Werth não existia nesse tempo o culto da personalidade e persistia a tradição da ditadura do proletariado.

Em 1925, em plena NEP, Stálin expressava opiniões como esta: “hoje não é mais possível dirigir com métodos militares”; “agora não se exerce a máxima pressão, mas a máxima flexibilidade, seja na política seja na organização”... Então considerava um erro “identificar o Partido com o Estado” e repetia que “o socialismo é a passagem (da fase) em que existe a ditadura do proletariado à sociedade sem estado”.

Foi a decisão de industrializar o país rapidamente que provocou a viragem estratégica que desencadeou a repressão sobre os camponeses. Cercada por potências hostis, sem acesso ao capital internacional, a URSS, para financiar a industrialização, recorreu aos excedentes gerados por uma agricultura atrasada. O projeto da coletivização da terra, pela maneira violenta como foi concretizado, produziu rasgões não apenas no tecido social como na direção do Partido. Atingiu o objetivo, mas o preço político e social foi altíssimo.

Mas terá sido somente a partir de 37, com o Grande Terror – expressão utilizada por Losurdo – que a ditadura do proletariado cedeu o lugar à autocracia.

Nas Obras Completas de Stalin são, porém numerosas as páginas em que ele repete que a ditadura do proletariado teria assumido um caráter muito diferente se a Guerra Mundial, anunciada com antecedência, não o tivesse encaminhado para uma política de concentração do poder. Seria sincero ao escrever que a concebeu como transitória? Nunca o saberemos.

O que está comprovado por uma abundante documentação é a convicção que Stálin tinha de que após a derrota do III Reich hitleriano se abriria à aliança com os EUA e a Inglaterra um grande futuro. Acreditou numa era de boas relações com o Ocidente capitalista.

Não previa então para a Europa Oriental o tipo de regimes que ali instalou com mão de ferro. Entendia que a Polônia não deveria optar pela via da ditadura do proletariado. “Não é obrigada a isso, não é necessário”. E, falando com dirigentes comunistas búlgaros, surpreendeu-os ao afirmar: “é possível realizar o socialismo de um modo novo, sem a ditadura do proletariado”. E, quando mantinha ainda uma relação cordial com Tito, disse-lhe: “Nos nossos dias o socialismo é possível inclusive sob a monarquia inglesa”.

O americano Robert Conquest, o historiador de ultra direita a que Losurdo atribui essas palavras, sublinha que elas demonstram que “Stalin estava repensando ativamente a validez universal do modelo soviético de revolução e socialismo”.

O que não suscita dúvidas é que a Guerra Fria fez ruir eventuais planos sobre uma mudança de estratégia e pôs termo à meditação ideológica sobre os modelos de socialismo. O degelo tornou-se uma impossibilidade.

SOBRE A POPULARIDADE DE STÁLIN E OS GULAG

Losurdo dedica muitas páginas ao tema da popularidade de Stálin. Baseado em fontes de múltiplas tendências, chama a atenção para uma realidade desconhecida no Ocidente. Mesmo durante o biênio do Grande Terror, 37-38, a base social de apoio à política de Stálin amplia-se.

Verifica-se, escreve Losurdo, “uma interação paradoxal e trágica”. Em consequência, por um lado, do forte desenvolvimento econômico e cultural e por outro do medo suscitado pela repressão, “dezenas de milhares de stakanovistas tornaram-se diretores de fábricas e uma análoga e rapidíssima mobilidade social ocorreu nas forças armadas”.

Nas vésperas da guerra, o chefe dos tradutores do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Reich, de visita a Moscou, ao passar pela Praça Vermelha resumiu nestas palavras a atmosfera de tranquilidade existente na capital: “Quem esteve em Moscou e não viu Lênin, disse-me um membro da Embaixada, não vale nada para a população rural russa”.

Nas campanhas anticomunistas, os textos sobre os Gulag siberianos criados por Stálin e os relatos sobre o sofrimento dos deportados funcionam como artilharia pesada. Muitos livros têm sido dedicados ao tema, desde o romance que valeu o Nobel a Solzhenytsin.

Losurdo aborda a questão de frente, situando-se numa perspectiva pouco habitual.

Estudou a fundo a documentação soviética existente nos arquivos. Como ser humano e revolucionário inspiram-lhe sentimentos de repulsa e indignação os campos de trabalhos forçados, em qualquer país e quaisquer que sejam os seus objetivos.

Essa posição não o impede de denunciar a falsificação das estatísticas ocidentais que inflacionam desmesuradamente a população dos Gulag, multiplicando o número de pessoas que passaram por eles e os que ali morreram. Simultaneamente rejeita os paralelos estabelecidos entre os campos de extermínio nazi e os campos de trabalho soviéticos. O universo concentracionário siberiano era um mundo de contradições. Na URSS – salienta Losurdo – a lei punia com rigor as violações rotineiras dos regulamentos. O próprio Vichinsky, quando Procurador-Geral da União, denunciou publicamente as condições intoleráveis de alguns Gulag onde os homens eram tratados como “animais selvagens”.

Losurdo recorda que nos campos soviéticos havia bibliotecas para os deportados, e a direção promovia espetáculos, concertos e conferências e que os prisioneiros em muitos Gulag estavam autorizados a publicar jornais murais.

A partir do início da agressão alemã, as condições de vida suavizaram-se em quase todos os campos de trabalho soviéticos. Milhares de prisioneiros foram beneficiados por uma série de anistias e reintegrados na sociedade ou nas forças armadas.

Losurdo, numa critica frontal à hipocrisia dos intelectuais anticomunistas que reescrevem a história, falsificando-a, procede a um breve inventário dos horrores de campos de concentração criados por potências ocidentais cujos dirigentes se apresentam como campeões dos direitos humanos, horrores ocultados por um manto de silêncio.

A Austrália, por exemplo, ao longo de quase todo o século XIX, foi a Sibéria oficial da Inglaterra imperial. Os textos que reproduz esboçam dos campos de concentração australianos um panorama só comparável ao dos criados pelas SS de Himmler. Os aborígenes, aliás, ainda eram caçados no país no início do século passado como animais.

E que pensar dos campos de internamento instalados por Roosevelt para cidadãos de origem japonesa – incluindo crianças – cujo único crime era a origem étnica? Durante a guerra, muitos prisioneiros alemães foram submetidos nos EUA a torturas medievais, como a destruição dos testículos.

É do domínio público que na primeira metade do século XX os linchamentos de negros eram ainda rotineiros em Estados do Sul do país. Ho Chi Min descreve esses espetáculos macabros, tolerados pelas autoridades. Assistiu, angustiado, a um deles.

Nas histórias da Inglaterra não há praticamente referências aos campos de trabalho militarizados instalados na Índia durante o Império. Mas eles existiram e foram cenário de crimes repugnantes.

O apagamento da memória histórica dos horrores dos campos de concentração criados pela França na Argélia é igualmente uma realidade na pátria de Victor Hugo.

Na Alemanha ignora-se o genocídio planeado dos Herreros e dos Hotentotes na Namíbia quando aquele país era uma colônia do Império dos Hohenzollern. Foram chacinados como animais em campos especiais pelo exército colonial do Kaiser Guilherme II.

Do genocídio dos indígenas também pouco se fala no Canadá; mas esse silêncio não apaga o fato de que o objetivo dos campos da morte do país foi o extermínio deliberado de tribos inteiras de índios num autêntico holocausto.

A evocação desses crimes esquecidos pelos defensores ocidentais dos direitos humanos ocupa muitas páginas no livro de Losurdo.

Poderia ter acrescentado uma referência ao campo do Tarrafal em Cabo Verde e aos campos de concentração, como o de São Nicolau, que Salazar instalou em Angola.

STÁLIN E OS JUDEUS

A satanização de Stalin no Ocidente não é somente uma constante nas campanhas anticomunistas. Historiadores europeus e estadounidenses de prestígio identificados com a ideologia neoliberal cultivaram nas últimas décadas uma perversa modalidade de irracionalismo no esforço para diabolizar Stálin.

A receita é primária: Stálin e Hitler seriam "monstros gêmeos".

Losurdo na desmontagem do paralelo e das imaginárias afinidades entre o dirigente soviético e o führer nazi analisa textos de autores como a destacada escritora sionista estadounidense Hannah Arendt para ridicularizar a argumentação inspirada por um anticomunismo cavernícola.

Arendt, entre outras inverdades, apresenta Stálin como um anti-semita fanático. Atribui-lhe uma "política canibalesca"contra os judeus, baseada num ódio racial feroz.

O historiador Robert Conquest, porta-voz da extrema-direita norte-americana, comentando a repressão na Ucrânia durante a coletivização afirma que Stálin transformou aquela república soviética num "imenso Bergen Belsen" (um campo de extermínio alemão).

Losurdo lembra que Conquest, num dos seus livros, editado no âmbito de uma operação político cultural anticomunista, responsabiliza a URSS por "infâmias iguais em tudo às cometidas pelo Terceiro Reich".

Cabe recordar que sucessivos presidentes dos EUA manifestaram grande apreço por Conquest como historiador e perfilharam a tese do Golodomor (o chamado holocausto ucraniano), transformando-a numa poderosa arma na Guerra-Fria. Reagan utilizou-a como instrumento ideológico no período que precedeu o desmembramento da URSS.

Losurdo, ao refutar as acusações de anti-semitismo feitas a Stálin, recorda que após o final da guerra, antes da partilha da Palestina, o dirigente soviético adotou "uma política fundamentalmente filo hebraica". A URSS foi, aliás, o primeiro país a reconhecer o Estado de Israel. Numa mensagem dirigida de Paris a Ben Gurion, o seu ministro dos Assuntos Estrangeiros, salienta que os delegados soviéticos atuaram como "advogados de Israel" na Conferência da ONU sobre a questão palestina.

Os arquivos do Foreign Office e do Departamento de Estado acumulam, aliás, documentação que confirma uma realidade hoje incomoda por muitos motivos: "a União Soviética contribuiu de maneira essencial – como escreve Losurdo – para a criação e fortalecimento do Estado hebraico",

Losurdo, recorrendo a citações de autores insuspeitos, lembra que Stalin fustigava o anti-semitismo com expressões como "chauvinismo racial" e "canibalismo".

Muitos dos bolcheviques mais destacados da velha guarda eram judeus. Zhdanov, um dirigente no qual Stálin depositou uma confiança irrestrita, também era judeu. E durante décadas milhares de elementos de origem hebraica ocuparam funções da maior responsabilidade no Estado Soviético.

Hitler, nas suas catilinárias antissemitas, atribuía aos judeus um papel decisivo na preparação da Revolução de Outubro. Utilizando uma linguagem desbragada, aludia a uma "horda terrorista hebraica" de "asiáticos circuncidados" e afirmava que sangue judeu corria nas veias de Lênin. E dizia que Stálin era um judeu, não pelo sangue mas pelo espírito.

A política pró Israel de Stalin somente deu uma guinada de 180 graus, assumindo uma orientação antissionista, quando os diplomatas de Tel Aviv, após a visita de Golda Meier a Moscou, iniciaram contatos secretos com a comunidade hebraica da URSS com o objetivo de estimular a emigração para Israel dos judeus soviéticos.

"Cada hebreu – teria dito então Stálin, segundo Roy Medvedev – é um nacionalista, é um agente da espionagem americana".

Losurdo aborda com cautela o tema da alegada "conspiração" dos médicos judeus de Stálin à qual escritores e jornalistas ocidentais dedicaram milhares de páginas. Transcorrido mais de meio século, o fuzilamento de alguns desses médicos continua a suscitar polêmicas apaixonadas dentro e fora da Rússia. O filósofo italiano, comentando versões contraditórias, evita uma conclusão, sublinhando que não foram somente dirigentes soviéticos a emprestar credibilidade à teoria do complô. O diplomata britânico sir Joe Gascoigne admitiu na época que os médicos do Kremlin eram "culpados de traição".

COMUNISMO, ANTÍTESE DO FASCISMO

A intensidade, as proporções e a sofisticação da campanha anticomunista na qual um dos objetivos era a destruição da imagem positiva projetada no mundo pela União Soviética produziram no Ocidente efeitos prolongados e complexos que se manifestam ainda, transcorridas quase duas décadas desde a reimplantação do capitalismo na pátria de Lênin.

A ofensiva prosseguiu. Os teóricos do capitalismo, criadores de slogans como "O império do mal" e outros similares, compreenderam que o esforço para desacreditar a URSS era insuficiente se não concentrassem as suas críticas na ideologia do sistema. Marx, Engels e Lênin tornaram-se então alvos preferências dos intelectuais e de políticos empenhados em apresentar o socialismo como um projeto fracassado não apenas utópico, mas monstruoso.

Qualquer cientista político minimamente estudioso sabe que não existiu até hoje um único regime comunista. Mas, simulando ignorar a evidência – o comunismo é uma fase superior do socialismo –, os ideólogos da burguesia insistem em chamar comunistas aos países que desenvolveram experiências socialistas, entre os quais a URSS.

A maioria dos Partidos Comunistas – o Português, o da Grécia e o Akel cipriota são na Europa exceções ao revisionismo – não soube reagir positivamente a essa ofensiva ideológica. Muitos dirigentes, por ela contaminados, não somente participaram das campanhas de satanização da URSS como renegaram os valores da Revolução de Outubro, levando a capitulação ao extremo de aderir a calúnias anticomunistas.

Registo que não faltam militantes de partidos revolucionários que, por temor, não ousam hoje assumir-se publicamente como marxistas e comunistas.

Foi no âmbito dessa ofensiva ideológica que acadêmicos de grandes universidades europeias e norte-americanas forjaram a tese segundo a qual fascismo e comunismo seriam, afinal, variantes de uma mesma concepção monstruosa da política. Entre os muitos livros publicado sobre o tema, alguns, como Origens do Totalitarismo, de Hannah Arendt, foram best-seller mundiais que disseminaram a mentira e a calúnia com verniz de verdade.

Domenico Losurdo, nos capítulos dedicados à psicopatologia e à moral das leituras ocidentais da era de Stálin e à aberração das comparações entre este e Hitler, desce às origens e motivações da estratégia anticomunista.

Relembra que esse trabalho tem raízes antigas. O presidente Wilson, por exemplo, era um fanático anticomunista. Na sua opinião, a Revolução de Outubro foi fundamentalmente um complô alemão e Lênin e outros dirigentes bolcheviques teriam estado durante anos ao serviço da Alemanha imperial.

Losurdo, que emprega a expressão Grande Terror com maiúsculas para designar o biénio 37-38 dos Processos de Moscou, esboça com frontalidade o quadro sombrio da repressão na URSS em diferentes fases da era de Stálin.

Alerta, porém, para a hipocrisia de eminentes historiadores ocidentais que branqueiam ou omitem crimes contra a humanidade praticados pelos governos e forças armadas de países capitalistas enquanto se esforçam para mobilizar as consciências contra os cometidos pelos "monstros comunistas".

Recorda – apenas um exemplo – que o fuzilamento de oficiais polacos pelos soviéticos em Katyn foi um crime indesculpável. Sublinha, porém, que esse massacre abjeto tem sido utilizado exaustivamente pela propaganda ocidental no cinema, na televisão, na imprensa, em livros – como prova do caráter bárbaro, desumano do regime soviético.

Num brevíssimo inventário de alguns crimes ocidentais que não figuram ou são suavizados nos manuais de História, Losurdo cita entre outros:
•        A morte por fome e maus-tratos de dois dos três milhões de prisioneiros soviéticos capturados pelos alemães na Frente Leste.
•        A chacina pelos britânicos de milhares de mulheres e crianças no campo de concentração de Kamiti, no Quênia, após a rebelião dos Mau Mau.
•        O bombardeamento genocida de Dresden pelos ingleses quando a guerra estava no final e o apoio de Churchill, Roosevelt e Truman aos bombardeamentos terroristas de cidades alemãs sem objetivos militares com o objetivo de aterrorizar as populações.
•        A execução na Sicília por ordem do general Patton de soldados italianos que se tinham rendido ao exército americano.
•        O genocídio nas Filipinas no começo do século XX durante a revolta contra a ocupação norte-americana.
•        O extermínio total da população aborígene da Tasmânia.
•        A recusa de fazer prisioneiros muçulmanos durante a campanha do Sudão no final do século XIX na qual Churchill participou como oficial de cavalaria.
•        A execução em Taejon em Julho de 1950 de 1.700 coreanos que antes do fuzilamento foram obrigados a escavar a fossa onde foram sepultados.
•        O extermínio, pelo Exército dos EUA, do total dos moradores de dezenas de aldeias no Vietnã e no Laos.
•        A ordem de Nixon no inicio dos anos 70 para que fossem lançadas nas áreas rurais do Camboja mais bombas de quantas haviam explodido nas cidades japonesas durante toda a segunda guerra mundial.
•        E o mais trágico e abjeto dos crimes contra a humanidade: o lançamento da bomba atômica sobre Hiroshima e Nagasaki em agosto de 1945.
O ÓDIO NÃO FAZ HISTÓRIA

Para os ingleses é muito constrangedor hoje reconhecer que os seus líderes derramaram elogios sobre Mussolini e Hitler antes da Guerra Mundial.

Churchill declarou em 1933 que via "o gênio romano personalizado em Mussolini, o maior legislador vivo, que mostrou a muitas nações como se pode resistir a chegar ao socialismo"…

Quatro anos depois, em 1937, escreveu que Hitler era um político "extremamente competente", com um "sorriso que desarmava "e um "sutil magnetismo pessoal".

Lloyd George, o ex primeiro-ministro liberal, foi ainda mais apologético ao definir o führer como "um grande homem".

Paradoxalmente, os mesmos dirigentes das grandes potências ocidentais cujos anátemas contra a URSS e Stálin continuam a ser peças de fundo nas campanhas anticomunistas reconheceram publicamente a decisiva importância da contribuição soviética para a derrota do Reich nazi e manifestaram grande apreço pela pessoa do secretário-geral do PCUS.

Roosevelt, já muito doente, não escondeu a impressão positiva que na Conferência de Teerã lhe causara a personalidade de Stálin, definindo-o como um estadista de grande talento e cultura.

Na correspondência de Churchill hoje publicada são numerosas as referências altamente elogiosas a Stálin. Identificou nele um dos mais dotados estadistas do século XX.

Isso não o impediu de dar o dito por não dito e de se orgulhar de ser o pai da Guerra Fria ao esboçar no famoso discurso de Fulton os perigos daquilo a que chamou a "Cortina de Ferro".

Obviamente o Relatório Secreto de Kruchóv trouxe um poderoso estímulo à campanha de demonização de Stálin.

A abertura dos arquivos soviéticos e as memórias de marechais que desempenharam um grande papel na derrota militar do III Reich constituem o mais eficaz dos desmentidos a afirmações caricaturais desse Relatório que apresenta de Stálin a imagem de um dirigente que caíra em depressão com a invasão alemã e sem influência direta na condução da guerra patriótica.

A tese provocatória dos “monstros gêmeos”, difundida por Hannah Arendt e outros escritores anticomunistas não passa de uma grotesca operação de marketing político. Mas continua a ser tempero utilizado nas campanhas de satanização de Stálin.

Losurdo chama a atenção para o protagonismo que Arendt mais uma vez assumiu nessa ofensiva, na tentativa de forçar um paralelo entre a Alemanha nazi e a URSS stalinista.

A escritora sionista pretende iluminar "a origem do totalitarismo", mas na realidade o seu ensaio agride a História, configurando aquilo a que Lukács chama o assalto à razão.

A obsessão dos ideólogos do neoliberalismo em lançar pontes entre Hitler e Stalin é tão irracional que assume facetas de paranoia.

Losurdo pulveriza a tese e lembra com fundamento que pelo pensamento e pela sua intervenção na Historia foram precisamente duas personalidades antagónicas.

Enquanto Hitler fez do racismo um cimento do Estado nazi, Stálin condenou-o como forma de canibalismo social e ameaça à paz. Stálin investiu sempre contra o mito da superioridade dos arianos puros, sobretudo os alemães, sobre os demais povos.

Sob a sua direção, a União Soviética assumiu um papel decisivo na descolonização e foi graças à solidariedade do Partido sob a sua direção, apoio ideológico e ajuda material que as lutas de libertação nacional se desenvolveram vitoriosamente na África, na Ásia e na América Latina.

Até Friedrich Hayek, o economista austríaco que é considerado o pai do neoliberalismo ortodoxo, reconhece que, sem a Revolução Russa, o chamado estado social não teria sido possível na Europa.



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