quarta-feira, 20 de março de 2013

GUATEMALA: UM MASSACRE ESQUECIDO

O ex-ditador guatemalteco Efraín Ríos Montt

Começou ontem o julgamento do ex-ditador da Guatemala, general Efraín Ríos Montt, de 86 anos, que governou o país entre 1982 e 1983. Ele é acusado pela morte de 1.771 indígenas no momento mais tenebroso da guerra civil que durou 36 anos – de 1960 a 1996 – e deixou entre 200 mil e 250 mil mortos. Outro general, José Rodríguez, de 68 anos, também está sendo julgado. Vejam só: nós nos chocamos – com justa razão – com as ditaduras da Argentina e do Chile, que mataram, respectivamente, 30 mil e três mil pessoas. Mas na Guatemala – um país hoje com 15 milhões de habitantes – foram mais de 200 mil mortos ou desaparecidos pela repressão e poucos se indignam. Talvez porque as vítimas sejam indígenas.   

Vala onde foram enterrados vários índios massacrados pelos militares e esquadrões da morte
Não por acaso, a Guatemala foi o primeiro país latino-americano em que a CIA patrocinou um golpe de Estado: em 1954, os militares derrubaram o coronel reformista Jacobo Árbenz, eleito democraticamente. Os americanos atribuíram aos comunistas o fato de Árbenz ter expropriado as propriedades da norte-americana United Fruit para realizar uma ampla reforma agrária. Depois do golpe, a Guatemala foi palco de sucessivos governos militares e serviu de base para o treinamento de cinco mil cubanos anticastristas, muitos dos quais participariam da frustrada invasão da Baia dos Porcos, em 1961. Começaram a surgir manifestações estudantis e, a seguir, grupos guerrilheiros de esquerda. Enquanto os “Boinas verdes” norte-americanos treinavam o Exército guatemalteco na arte da contrainsurgência, a extrema direita formava esquadrões da morte como o Mão Branca e o Exército Secreto Anticomunista para aterrorizar os camponeses. O genocídio foi tão explícito que em 1979 os EUA suspenderam toda ajuda militar ao país.

Ríos Montt e Rodríguez são apenas os primeiros militares da Guatemala a serem julgados por crime de lesa humanidade. Melhor que nada, mas ainda faltam muitos militares, políticos e empresários nos bancos dos réus.

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