quinta-feira, 21 de março de 2013

SHARPEVILLE REVELOU O APARTHEID



Hoje se comemora o Dia Internacional da Luta pela Eliminação da Discriminação Racial. A data foi instituída pela ONU em 1969 para lembrar o Massacre de Sharpeville, ocorrido em 21 de março de 1960 nas proximidades de Johannesburgo, na África do Sul. Naquele dia, cerca de cinco mil estudantes e trabalhadores sul-africanos realizaram uma passeata para protestar contra a “Lei do Passe”, que obrigava os negros a portar uma caderneta, uma espécie de passaporte interno, que indicava os locais onde eles poderiam se deslocar. A polícia abriu fogo contra os manifestantes com metralhadoras, matando 69 pessoas – inclusive dez crianças – e deixando 180 feridos. 

O episódio foi um turning point na história da África do Sul, pois chamou a atenção mundial para o apartheid, o regime racista da minoria branca que vigorava há décadas no país; levou o governo sul-africano a decretar a lei marcial e a prender quase 20 mil pessoas e fez com que grupos oposicionistas, com o Congresso Nacional Africano (CNA) à frente, abandonassem a tática de resistência pacífica e partissem para a luta armada contra a opressão.



O apartheid, na verdade, existia há muito tempo na África do Sul. A Lei da Terra, de 1913, por exemplo, destinava aos negros – que representavam 2/3 da população – 7,5% do território, enquanto os brancos, que eram um quinto dos sul-africanos, ficaram com 92,5% das terras. A vitória do Partido Nacional, em 1948, acelerou as leis discriminatórias, entre elas a de registro populacional, que obrigava a população a se definir como branca, negra ou mestiça. O objetivo da minoria branca era separá-las espacialmente e restringir ainda mais direitos aos negros. E o mais incrível de tudo é que os bôers – os sul-africanos descendentes de holandeses que dominavam o país – justificam o apartheid pela leitura da Bíblia feita pela Igreja Reformada Holandesa.   

Nelson Mandela, líder do Congresso Nacional Africano, foi preso em 1963 e condenado à prisão perpétua em 1964. Ficaria 27 anos no cárcere, mas se tornaria o maior símbolo da luta contra o apartheid. Nos anos 1970, uma nova onda de manifestações abalou o regime. Em 1974, o governo decretou outra lei segregacionista contra a população negra, tornando obrigatório o idioma africâner em todas as escolas do país. Em 30 de abril de 1976, crianças das escolas primárias de Orlando West, em Soweto, entraram em greve, se recusando ir às aulas. A medida teve o apoio da maioria da população negra de Soweto, incluindo professores e trabalhadores.

Os estudantes organizaram um protesto em 16 de junho de 1976, marchando aos milhares pelas ruas de Johanesburgo. O protesto foi duramente reprimido pela polícia sul-africana, que mais uma vez recebeu manifestantes à bala. Calcula-se, desta vez, que mais de 700 pessoas tenham sido assassinadas.


Revoltados com a repressão, os negros intensificaram protestos em todo o país. O regime prendeu, exilou, torturou e matou milhares de pessoas. Em 1977, o militante Steve Biko, do Movimento de Consciência Negra, morreu em consequência das torturas infringidas pela polícia, provocando nova onda de manifestações.

Muito sangue correria ainda até o fim do apartheid, em 1994, quando Nelson Mandela foi eleito presidente da África do Sul e conduziu, sem sectarismos, a difícil transição para um regime multirracial.     




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