quinta-feira, 4 de abril de 2013

VOVÔ NÃO IRIA GOSTAR...

Aécio Neves, muito menor que o avô 

O senador Aécio Neves (PSDB-MG), provável candidato tucano à Presidência da República em 2014, tropeçou na língua e chamou o golpe cívico-militar de 1964 de “revolução”, como os militares e seus acólitos costumavam se referir à ruptura da legalidade e instalação da ditadura. A expressão foi usada em um encontro do senador mineiro com prefeitos na cidade de Santos. Defendendo as reivindicações dos prefeitos, Aécio fez um relato de episódios históricos que teriam levado à centralização do Estado brasileiro. Em determinado momento, o senador disse que esse fenômeno advém da proclamação da República. “Veio a revolução de 64, novo período de grande concentração de poder nas mãos da União, apesar de ter sido um período em que foram criadas políticas compensatórias para determinadas regiões menos desenvolvidas”, disse o tucano. Indagado por jornalistas sobre a razão de ter usado tal expressão, Aécio tergiversou: “ditadura, revolução, como quiserem”. Depois, talvez arrependido, arrematou: “ditadura, regime autoritário, que todos nós lutamos para que fosse vencido”. Então, tá...

A linguagem, todos sabemos, não é inocente. Aécio deve ter sido traído pelas práticas de seu partido, cada vez mais uma caricatura da velha UDN. Vide o que aconteceu com o secretário particular de Alckmin, esse janotinha direitista chamado Ricardo Salles. As bobagens reacionárias que ele disse (questionou, por exemplo, a existência de crimes cometidos pelos militares durante a ditadura) provocaram reações de antigos militantes esquerdistas que hoje estão no ninho tucano, como o senador Aloysio Nunes Ferreira (ex-ALN) e o ex-vice-governador Alberto Goldman (ex-PCB).

Tancredo não votou em Castello, mas Ulysses sim
Quem deve estar se revirando no túmulo é o avô de Aécio, Tancredo Neves, que morreu presidente sem ter conseguido tomar posse. Tido como uma das raposas conservadoras do velho PSD, Tancredo, no entanto, jamais traiu suas origens e convicções. Era ministro da Justiça de Getúlio Vargas em 1954 quando os brigadeiros se amotinaram na “República do Galeão”, no episódio do atentado ao jornalista Carlos Lacerda que resultou na morte do major da Aeronáutica Rubens Vaz. Tancredo foi o único do gabinete a sugerir que Getúlio prendesse os revoltosos. Quando Jango foi deposto, Tancredo o acompanhou até o aeroporto para o voo que o levaria ao exílio. E quando os militares reabriram o Congresso mutilado pelas cassações para que fosse encenada a farsa da “eleição” do marechal Castello Branco à Presidência, Tancredo foi o único parlamentar do PSD a votar contra. O ex-presidente Juscelino Kubitschek e o deputado Ulysses Guimarães - futuro "Senhor Diretas" - votaram em Castello. Tancredo era um conservador esclarecido, ao contrário do neto.           

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