terça-feira, 23 de abril de 2013

O PARAGUAI VOLTA A SER O PARAGUAI

O presidente eleito do Paraguai, Horacio Cartes

Com a vitória de Horacio Cartes na eleição presidencial de domingo no Paraguai, o país volta a ser governado pelo Partido Colorado, que ficou seis décadas no poder, mais da metade das quais sob uma ditadura militar. Cartes é dono de um conglomerado de bebidas, cigarros e charutos. Ele é acusado de lavagem de dinheiro e ligações com o narcotráfico. Assim, pode-se dizer que, com esta eleição, o Paraguai voltou a ser o Paraguai. Para o bem ou para o mal.

Fernando Lugo, presidente deposto em 2012
A eleição do bispo Fernando Lugo à Presidência, em 2009, parecia ter marcado uma mudança decisiva nos rumos do Paraguai. Isso porque, além de quebrar a longa hegemonia dos colorados, Lugo foi o primeiro presidente “de esquerda” e ligado aos movimentos sociais, particularmente aos sem-terras, a ser eleito no país. Sua plataforma política previa uma reforma agrária e a renegociação dos preços da energia gerada por Itaipu com o Brasil. Para vencer, Lugo teve que aliar-se aos liberais, adversários históricos dos colorados e o outro braço da oligarquia latifundiária paraguaia.

A condução dessa aliança com os liberais foi inepta, pois alienou o apoio dos trabalhadores ao mesmo tempo em que bloqueou a possibilidade de reformas. Os conflitos sociais aumentaram e, no ano passado, um deles resultou no assassinato de 11 camponeses numa ação repressiva. Aproveitando o cenário de instabilidade, os liberais e os oviedistas (dissidentes colorados) articularam um impeachment e derrubaram Lugo. O presidente foi acusado de responsabilidade pelos conflitos e teve duas horas para se defender. Nada menos do que um golpe constitucional.
  
Do ponto de vista geopolítico, no entanto, a eleição de Cartes representa um avanço. Isso porque, com o golpe contra Lugo, o Paraguai tinha sido afastado do Mercosul e da Unasul e estava isolado na América do Sul. O país ameaçava inclusive estabelecer acordos unilaterais de livre comércio. Agora, o futuro presidente já acena com a volta do Paraguai ao clube sul-americano.

O general ditador Alfredo Stroessner 
Ironicamente, as relações do Brasil com o Paraguai sempre foram melhores com os colorados no poder. O próprio partido nasceu no século XIX com o apoio da diplomacia brasileira para contrabalançar a influência da Argentina, que tinha o apoio do Partido Liberal. As relações entre Brasil e Paraguai foram de vento em popa sob a ditadura do general Alfredo Stroessner (1954-1989). De acordo com o professor Moniz Bandeira, “a amizade com o Brasil constituía fundamento da política exterior do Paraguai, onde o Partido Colorado, fomentando internamente o nacionalismo contra a supremacia de Buenos Aires, a ela recorria como esteio para eventuais pressões quer contra a Argentina quer até mesmo contra os EUA” (Brasil, Argentina e Estados Unidos – Conflito e Integração na América do Sul (Da Tríplice Aliança ao Mercosul).
       

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