quarta-feira, 24 de abril de 2013

A VOLTA DA VELHA FRATURA DA FRANÇA

Manifestação a favor da lei do casamento homossexual 

A França se tornou o mais recente país europeu a legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo. A medida, de iniciativa dos socialistas, foi recebida com festa por boa parte da população, mas repudiada violentamente por outra parte dos franceses. 

Protestos contra a lei: curiosamente, elas usam o barrete vermelho
A Igreja Católica mobilizou contra o projeto sua vasta rede de escolas e paróquias e os representantes do islamismo e do judaísmo na França também repudiaram unanimemente o casamento gay. Ironicamente, os manifestantes contrários ao projeto estão usando barretes frígios vermelhos, símbolo revolucionário. O fato é que a velha fratura da França em duas nações antagônicas e inconciliáveis, nascida com a Revolução de 1789, parece não ter fim. 

A França viveu jornadas revolucionárias em 1789, 1830, 1848 e 1871, nas quais sempre ficou claro a luta fratricida que, em linhas gerais, opunha os partidários da liberdade e da igualdade social, de um lado, aos defensores da aristocracia, da ordem hierárquica e dos privilégios, de outro. E, em quase todos esses episódios, os primeiros levaram a melhor.

O capitão Dreyfus é expulso do Exército
Essa divisão ganharia contornos dramáticos a partir do final do século XIX, com o chamado “Caso Dreyfus” (Affaire Dreyfus, em francês). Em 1894 Alfred Dreyfus, capitão de artilharia do Exército francês, de origem judaica, foi condenado por alta traição por uma Corte Marcial, num processo fraudulento e conduzido a portas fechadas. Quando alguns oficiais descobriram as irregularidades, o alto comando militar tentou encobrir o erro apelando para o antissemitismo e a xenofobia. O caso saiu dos quartéis e ganhou dimensão nacional. Ao lado dos militares se postaram os os antidreyfusards: a Igreja Católica, que havia perdido os privilégios na educação; os contrarrevolucionários; os monarquistas e os políticos de direita. Em defesa do capitão Dreyfus, exilado na Ilha do Diabo, se colocaram os dreyfusards: revolucionários, socialistas, republicanos, radicais e intelectuais, como o escritor Émile Zola. Os dreyfusards venceriam a contenda muitos anos depois, mas o confronto não terminaria. 

León Blum, líder do Front Populaire 
A fratura entre as duas Franças reapareceria com força em 1936, com a vitória do Front Populaire, liderado pelo socialista León Blum; mas essa fratura ficaria realmente exposta com a ocupação alemã e a instauração do regime colaboracionista de Vichy, chefiado pelo marechal Philippe Petáin. Esse regime representava, grosso modo, os mesmos setores antidreyfusards do passado e tinha talvez a metade da nação atrás de si, ao contrário do mito da “França resistente”, propagado no pós-guerra pelo gaullismo para tentar restaurar a grandeur française humilhada pela ocupação.

O general Charles De Gaulle
A Guerra da Argélia (1954-1962) foi outro episódio a confrontar as duas Franças, mas desta vez as cartas ficaram um pouco embaralhadas. Isso porque, na IV República, os socialistas integraram vários gabinetes e apoiaram decididamente a repressão ao movimento de independência argelino, com todas as suas conseqüências, como a institucionalização da tortura. Paradoxalmente, o general Charles De Gaulle, que os militares viam como o “salvador” da França para esmagar os argelinos, iniciou a negociação com os insurgentes, atraindo o ódio eterno da extrema direita.

Maio de 1968
Em maio de 1968, os estudantes franceses foram às ruas para exigir “a imaginação no poder” e chegaram a assustar os vetustos líderes da V República. Mas a velha elite dirigente da França conseguiu se unir e o status quo foi preservado, com o governo inclusive ganhando as eleições gerais.

E, agora, a liberdade sexual, uma das heranças daquela época de rebelião comportamental, se tornou o mais novo campo de batalha entre dreyfusards e antidreyfusards.
             

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