quinta-feira, 24 de novembro de 2011

NOTÍCIAS ALVISSAREIRAS (*)

Aos 87 anos, quem diria, o ex-presidente português Mário Soares parece querer resgatar a fibra progressista da juventude: ele lançou um manifesto contra a ameaça à democracia representada pela subordinação dos governos europeus às imposições determinadas pelo capital fianceiro internacional para sair da crise econômica. Nunca é tarde para voltar às origens... Filho de um militante anti-salazarista, Mario Soares foi um destacado dirigente da luta contra a ditadura do professor Oliveira Salazar, tendo trabalhado com os generais dissidentes  Norton de Matos e Humberto Delgado. Advogado de presos políticos, Soares foi preso cerca de 12 vezes e passou um total de três anos na cadeia até ser deportado e exilado. Depois da Revolução dos Cravos, em 1974, foi o líder do Partido Socialista e primeiro-ministro várias vezes, tendo adotado medidas de austeridade e planos econômicos monetaristas. Protagonizou a entrada de Portugal na Comunidade Econômica Européia, em 1986.
Mário Soares ficou conhecido como um típico político "socialista de direita". Quando eu trabalhava na Folha, nos anos 1980, havia uma expressão chamada "Operação Portugal" (OP), que significava matérias feitas por determinação expressa da direção do jornal. As origens dessa expressão, reza a lenda, estavam ligadas a Mário Soares. Segundo essa versão, Octavio Frias de Oliveira, o falecido publisher da Folha, dizia não entender por que os jornalistas chamavam o governo de um líder socialista de governo de direita. "Porque suas políticas são de direita", respondiam os jornalistas - à época, a maioria de extrema esquerda, acreditem. "Seu Frias" teria respondido que não havia Cristo que fizesse o leitor entender que um político socialista era "de direita". A partir de então, ficou proibido falar do socialista Mário Soares, líder como politico "de direita". E OP virou determinação expressa da direção. Abaixo, o texto de Mário Soares: 
      
 
Um novo rumo

Mário Soares, no sapo.pt

Este é o momento de mobilizar os cidadãos de esquerda que se revêem na justiça social e no aprofundamento democrático como forma de combater a crise.

Não podemos assistir impávidos à escalada da anarquia financeira internacional e ao desmantelamento dos estados que colocam em causa a sobrevivência da União Europeia.

A UE acordou tarde para a resolução da crise monetária, financeira e política em que está mergulhada. Porém, sem a resolução política dos problemas europeus, dificilmente Portugal e os outros Estados retomarão o caminho de progresso e coesão social. É preciso encontrar um novo paradigma para a UE.

As correntes trabalhistas, socialistas e sociais-democratas adeptas da 3ª via, bem como a democracia cristã, foram colonizadas na viragem do século pelo situacionismo neo-liberal.

Num momento tão grave como este, é decisivo promover a reconciliação dos cidadãos com a política, clarificar o papel dos poderes públicos e do Estado que deverá estar ao serviço exclusivo do interesse geral.

Os obscuros jogos do capital podem fazer desaparecer a própria democracia, como reconheceu a Igreja. Com efeito, a destruição e o caos que os mercados financeiros mundiais têm produzido nos últimos tempos são inquietantes para a liberdade e a democracia. O recente recurso a governos tecnocratas na Grécia e na Itália exemplifica os perigos que alguns regimes democráticos podem correr na actual emergência. Ora a UE só se pode fazer e refazer assente na legitimidade e na força da soberania popular e do regular funcionamento das instituições democráticas.

Não podemos saudar democraticamente a chamada “rua árabe” e temer as nossas próprias ruas e praças. Até porque há muita gente aflita entre nós: os desempregados desamparados, a velhice digna ameaçada, os trabalhadores cada vez mais precários, a juventude sem perspectivas e empurrada para emigrar. Toda essa multidão de aflitos e de indignados espera uma alternativa inovadora que só a esquerda democrática pode oferecer.

Em termos mais concretos, temos de denunciar a imposição da política de privatizações a efectuar num calendário adverso e que não percebe que certas empresas públicas têm uma importância estratégica fundamental para a soberania. Da mesma maneira, o recuo civilizacional na prestação de serviços públicos essenciais, em particular na saúde, educação, protecção social e dignidade no trabalho é inaceitável. Pugnamos ainda pela defesa do ambiente que tanto tem sido descurado.

Os signatários opõem-se a políticas de austeridade que acrescentem desemprego e recessão, sufocando a recuperação da economia.

Nesse sentido, apelamos à participação política e cívica dos cidadãos que se revêem nestes ideais, e à sua mobilização na construção de um novo paradigma.

(*) Que leva ou dá boas novas. Alusão irônica ao título de um artigo publicado da Folha em agosto de 1991 pelo falecido dirigente do PCdoB João Amazonas, que usou o português castiço para saudar a deposição de Gorbatchóv pela linha-dura do Partido Comunista Soviético. O golpe durou três dias. Seis meses depois, a prória URSS deixaria de existir...

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