terça-feira, 20 de setembro de 2011

VOLTA ÀS ORIGENS?

O presidente americano Barack Obama

Cansado de bancar o conciliador e de ser percebido como vacilante e sem liderança, o presidente americano Barack Obama resolveu voltar às origens e apostar no confronto com os extremistas do Partido Republicano. Embora sem abandonar a agenda de redução do déficit público dos conservadores para combater a crise, o presidente propôs que, além dos cortes nos gastos sociais, o governo aumente os impostos sobre os mais ricos e corte gastos militares, acabando com as guerras do Iraque e do Afeganistão. Obama quer não apenas acabar com a farra da isenção aos multimilionários criada por Bush como também elevar a alíquota sobre quem ganha acima de US$ 1 milhão ao ano. “Na última década, gastos perdulários em Washington, cortes de impostos para multimilionários, o custo de duas guerras e uma recessão converteram um superávit recorde em déficit crescente”, disse Obama. “É errado que, nos EUA, professor que ganhe US$ 50 mil por ano pague mais impostos do quem ganha US$ 50 milhões por ano”, completou. O que seria uma obviedade em qualquer país civilizado é uma heresia para a liberticida direita republicana. Em resposta, os republicanos acusaram o presidente americano de incitar a “luta de classes”. Karl Marx, o filósofo alemão que disse que “a luta de classes é o motor da história”, deve estar se regozijando sob sua tumba no cemitério de Highgate, em Londres.

Nos país mais rico do mundo, os ganhos do capital são taxados em, no máximo 15%, ao passo que a alíquota sobre a renda do trabalho atinge 35%. O aumento de imposto proposto por Obama afetaria uma ínfima parcela de americanos – os 450 mil mais ricos (0,3% dos contribuintes). Mesmo assim, para o líder republicano da Câmara, John Boehner, com essa decisão Obama está penalizando a classe produtiva – ele definitivamente, não leu nada de Marx - e minando o espírito empresarial americano. O presidente respondeu dizendo que quem provoca a histeria sobre o déficit público e contra os gastos sociais e, ao mesmo tempo, quer manter a isenção fiscal dos ricos é que acirra a luta de classes.

O aumento de impostos proposto por Obama reduziria o déficit de 5,5% do PIB para 2,3% do PIB em dez anos e proporcionaria, no mesmo período, uma arrecadação de US$ 1,5 trilhão, o que representaria cerca de 1/3 do total de US$ 4,4 trilhões previstos no pacote de cortes. O restante viria de cortes nos programas de saúde pública (Medicare e Medicaid) e do corte de despesas militares advindos com o fim das guerras no Iraque e no Afeganistão. Sobre este último ponto, contudo, ainda há muitas dúvidas.

Soldados feridos na guerra do Afeganistão: beco sem saída?
A questão agora é saber se Obama terá disposição para levar o confronto com os conservadores até o fim. Se sua proposta não for aprovada no Congresso, o que é provável, apenas os usuários dos serviços de saúde pública e os idosos serão penalizados. Restará ao presidente vetar o projeto, o que acirrará ainda mais os ânimos. Mas ele pode ir a público e denunciar a insensibilidade social do “GOP”. Quanto às guerras do Iraque e do Afeganistão, veremos se Obama terá coragem de enfrentar o famoso complexo militar industrial americano. O que parece certo é que, se quiser ter chances de se reeleger, o presidente terá que voltar a empunhar a bandeira “liberal” – no sentido americano do termo.

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