domingo, 4 de setembro de 2011

AS RELAÇÕES PERIGOSAS ENTRE GADDAFI E O OCIDENTE

O jornal britânico The Independent revela documentos secretos que mostram a relação próxima do ex-premiê Tony Blair e o coronel Muammar Gaddafi, aquele que mandou explodir um avião da Pam Am sobre Lockerbie, Escócia, em 1988. Agora, falta virem à tona revelações sobre as relações entre Gaddafi, Silvio Bercusconi (petróleo e prostitutas?) e Nicolas Sarkozy (financimanento da campanha eleitoral à presidência?). 

Portia Walker e Kim Sengupta, do Independent, em Trípoli

O avião derrubado por agentes de Gaddafi em Lockerbie, em 1988
Arquivos secretos descobertos pelo Independent em Trípoli revelam que ligações espantosamente próximas existiam entre os governos britânico, norte-americano e o de Muammar Gaddafi.

Os documentos mostram como prisioneiros foram oferecidos para interrogatórios brutais pelo regime de Trípoli sob o altamente controverso programa de ‘rendição extraordinária’ e também como informações sobre opositores do ditador líbio exilados no Reino Unido foram repassadas ao regime pelo MI6.

Os papéis mostram que autoridades britânicas ajudaram a escrever o rascunho de um discurso do coronel Gaddafi quando ele tentava reabilitar seu regime do status de pária, no qual mergulhou depois do apoio dado a movimentos terroristas. Outros documentos revelam que os Estados Unidos e o Reino Unido agiram em nome da Líbia para conduzir negociações com a Agência Internacional de Energia Atômica.


Nas tentativas que tinham implementado de cultivar seus contatos com o regime, os britânicos algumas vezes não estavam dispostos a dividir sua “conexão líbia” com os aliados mais próximos, os Estados Unidos. Numa carta a um colega do serviço de inteligência líbio, um oficial do MI6 descreveu como tinha se negado a informar a identidade de um agente a Washington.


Os documentos, muitos dos quais tem implicações incendiárias, foram encontrados no escritório particular de Moussa Koussa, o braço direito do coronel Gaddafi e chefe do serviço de segurança, que se exilou no Reino Unido nos dias seguintes ao início da revolução de fevereiro na Líbia.

Os papéis revelam detalhes sobre a visita de Tony Blair ao ditador líbio em Trípoli — foi o escritório do primeiro-ministro britânico que requisitou que o encontro acontecesse em uma tenda. Uma carta de um oficial do MI6 ao sr. Koussa diz que ‘o número 10 [em referência ao endereço do primeiro-ministro britânico, 10 Downing Street, em Londres] quer que o primeiro-ministro encontre o Líder em uma tenda. Eu não sei porque os ingleses são fascinados por tendas. O fato é que os jornalistas adorariam’.

Gaddafi e Moussa Koussa (à dir.), ex-braço direito do ditador
Os documentos levantam questões sobre o relacionamento entre Moussa Koussa e o governo britânico e sobre os eventos que se seguiram ao exílio dele. A chegada surpreendente do sr. Koussa ao Reino Unido provocou pedidos para que ele fosse interrogado pela polícia sobre seu envolvimento em assassinatos no exterior praticados pelo regime líbio, inclusive a de uma policial, Yvonne Fletcher, e de oponentes de Gaddafi.


Koussa também estaria envolvido no envio de armas para o IRA [Exército Republicano Irlandês, grupo armado que enfrentou os britânicos na Irlanda]. Na época do exílio, o governo de David Cameron garantiu ao público que o sr. Koussa poderia ser processado. Em vez disso, ele recebeu autorização para deixar o Reino Unido e agora se acredita que esteja em um dos países do Golfo.

As revelações do Independent vão despertar perguntas sobre se o sr. Koussa, que há muito era acusado de abusos dos direitos humanos, foi autorizado a escapar porque tinha provas constrangedoras. O sr. Koussa copiou e levou com ele dezenas de arquivos quando deixou a Líbia.


Os papéis ilustram as relações íntimas do sr. Koussa e de alguns colegas dele com a inteligência britânica. Cartas e faxes eram enviados a ele com ‘Saudações do MI6’ e ‘Saudações do SIS’, felicitações natalinas, numa ocasião, ‘De seu amigo’, seguido pelo nome de um oficial de inteligência britânico, além de lamentações sobre encontros que não deram certo. Houve também uma regular troca de presentes: em uma ocasião um agente líbio chegou a Londres carregado de figos e laranjas.

O então premiê Tony Blair e o coronel Muammar Gaddafi
Os documentos repetidamente tratam de um florescente relacionamento entre as agencias de inteligência ocidentais e a Líbia. Mas havia um custo humano. O regime de Trípoli era um parceiro altamente útil no processo de ‘rendição extraordinária’ sob o qual prisioneiros eram mandados pelos Estados Unidos para ‘interrogatórios reforçados’, um eufemismo, dizem os grupos de defesa dos Direitos Humanos, para tortura.


Um documento do governo dos Estados Unidos, marcado ’secreto’, diz “nosso serviço está em condições de entregar Shaykh Musa para sua custódia física de forma similar ao que fizemos com outros líderes-sênior do LIFG (Grupo Líbio de Luta Islâmica) no passado. Nós respeitosamente pedimos a expressão de seu interesse em assumir a custódia do sr. Musa”.


Os britânicos também estavam tratando com os líbios sobre ativistas de oposição a Gaddafi, passando informações ao regime líbio. Isso acontecia apesar do fato de que agentes do coronel Gaddafi tinham assassinado oponentes na campanha para eliminar os assim chamados ‘vira-latas’ no Exterior, inclusive nas ruas de Londres. Os assassinatos tinham, na época, levado a protestos e condenações por parte do governo do Reino Unido.


Uma carta datada de 16 de abril de 2005 do serviço de inteligência britânico para uma autoridade do Departamento de Relações Internacionais da segurança líbia diz: “Desejamos informá-lo que Ismail KAMOKA @ SUHAIB (possivelmente se referindo a um apelido) foi solto em 18 de março de 2004. Um painel de juizes britânicos decidiu que KAMOKA não era uma ameaça à segurança nacional no Reino Unido e subsequentemente decidiu soltá-lo. Estamos solicitando que você informe (um oficial da inteligência líbia) sobre a soltura de KAMOMA”.


Ironicamente, os rebeldes líbios que chegaram ao poder depois de derrubar o coronel Gaddafi com a ajuda do Reino Unido e da OTAN acabaram de nomear Abdullah Hakim Belhaj, um ex-membro do LIFG, como seu comandante em Trípoli.


Outro papel sublinha a natureza de duas mãos da troca de informações. Um documento sob o título ‘Para atenção do Serviço de Inteligência Líbio. Saudações do MI6, que pede informação sobre um suspeito com as iniciais ABS (por razões de segurança, não publicamos o nome completo), que viaja com um passaporte líbio de número 164432. Isso é uma operação sensível e não queremos que nada seja feito para atrair a atenção de S sobre nosso interesse nele. Seríamos gratos por qualquer informação que vocês tenham sobre S”.


Uma das descobertas mais marcantes no conjunto de documentos é uma declaração do coronel Gaddafi durante sua reaproximação com o Ocidente, na qual ele abandonou o programa nuclear e prometeu destruir seu estoque de armas químicas e biológicas.


O líder líbio disse ‘vamos dar estes passos de uma maneira transparente e verificável. A Líbia afirma que vai cumprir seus compromissos… quando o mundo está celebrando o nascimento de Jesus, como uma pequena contribuição para um mundo cheio de paz, segurança, estabilidade e compaixão, a grande Jamahiriya [outro nome usado por Gaddafi para a Líbia, em árabe, 'estado das massas'] renova seu pedido honesto por uma zona livre de armas de destruição em massa no Oriente Médio e na África’.


A declaração, na verdade, foi escrita com a ajuda de autoridades britânicas. Uma carta, endereçada a Khalid Najjar, do Departamento de Relações Internacionais e Segurança em Trípoli, diz que ‘para efeito de clareza, segue anexa uma versão corrigida da linguagem sobre a qual concordamos na terça-feira. Queríamos assegurar que você tem o mesmo script’.


Quando o alto comando da Líbia expressou preocupações com o abandono do arsenal de armas de destruição em massa, que poderia deixar o país vulnerável, o Reino Unido propôs reforçar as defesas convencionais do país usando o marechal de campo Lord Inge, ex-comandante dos militares britânicos, como consultor. Em uma carta datada em 24 de dezembro de 2003, uma autoridade britânica escreveu: ‘Eu proponho que o marechal de campo Lord Inge, do qual você vai se lembrar bem de setembro, visite dois ou três oficiais-sênior para dar início às conversações’.


Uma quantidade considerável da correspondência diz respeito à visita em que Tony Blair encontrou Muammar Gaddafi em março de 2004, numa época em que o Reino Unido desempenhava papel-chave para tirar a Líbia do ‘gelo’.


Os documentos mostram quanto o MI6 estava envolvido na organização da viagem e o papel jogado por Moussa Koussa. Quando se trata do governo Blair, não é surpresa que o cenário do encontro fosse visto como de grande importância.


Um oficial do MI6 escreveu ao sr. Koussa dizendo: “O número 10 [em referência ao endereço do primeiro-ministro britânico, 10 Downing Street, em Londres] quer que o primeiro-ministro encontre o Líder em uma tenda. Eu não sei porque os ingleses são fascinados por tendas. O fato é que os jornalistas adorariam. Minha opinião é que isso causaria boa impressão sobre a preferência do Líder por simplicidade, o que eu sei é importante para ele. Você deve ter visto entrevistas coletivas muito diferentes em Riad [provavelmente aqui o agente britânico está mexendo com o orgulho dos líbios, que apreciavam sua distinção em relação ao luxo do governo da Arábia Saudita, capital Riad]. De qualquer forma, se isso for possível, o número 10 ficaria muito agradecido”.


O coronel Gaddafi aparentemente queria encontrar o primeiro-ministro britânico em Sirte, sua cidade natal. Atualmente a cidade está sob cerco de guerreiros da oposição. Na carta, o oficial do MI6 escreve: ‘O número 10 espera que a visita aconteça em Trípoli, não em Sirte. Aparentemente é importante que os jornalistas tenham acesso a hotéis onde eles encontrem facilidades para escrever suas reportagens’.


Seja como for, os espiões estavam lá para assegurar que seus interesses — e os interesses nacionais — fossem protegidos. Na carta, o oficial continuou, ‘o número 10 pediu que eu acompanhasse o primeiro-ministro e assim espero vê-lo na próxima quinta-feira. O número 10 me perguntou se eu conseguiria enviar um oficial a Trípoli alguns dias antes da visita… penso que isso daria conforto a eles e tudo sairia bem’.


O coronel Gaddafi tinha conseguido se reaproximar do Ocidente em parte por causa de sua luta contra o terrorismo islâmico, a sombra do qual, depois dos atentados de Madri, se projetava sobre a visita de Blair. A carta, datada de 18 de março de 2004, dizia, ‘o número 10 pediu que eu transmitisse a você o pedido de que não haja publicidade sobre a visita agora ou nos próximos dias — desde Madri todos estamos muito conscientes quanto à segurança’.

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