quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

O HAITI NÃO É AQUI

O pavoroso terremoto que arrasou o já devastado Haiti e matou cerca de cem mil pessoas, entre elas soldados brasileiros e a ativista de direitos humanos Zilda Arns, é o mais recente e tenebroso capítulo da desventurada história desse pequena (meia) ilha do Caribe. Em pouco mais de um século, a primeira nação a abolir a escravidão nas Américas se tornou o país mais pobre do hemisfério ocidental e um dos mais desesperançados do mundo. Como se chegou a isso?

No final do do século XVIII o Haiti era a joia da coroa das colônias francesas. Sua economia, baseada na produção de cana de açúcar com mão de obra escrava, era a mais produtiva do mundo. A prosperidade era tocada por meio milhão de escravos negros dominados por 30 mil brancos e alguns milhares de mulatos, embriões da futura elite dominante. O preço dessa prosperidade, contudo, era alto. Além da opressão do escravismo, os navios que traziam os escravos voltavam para a Europa com cargas de madeira, desmatando completamente o país. A Revolução Francesa de 1789 proclamou a libertação dos escravos nas colônias e os cativos haitianos se rebelam contra seus senhores. Toussaint L'Ouverture assumiu a liderança do movimento em 1794. Realista, L'Ouverture teve o cuidado de manter o país como grande produtor de açúcar, mas isso obrigou os ex-cativos a retormar o trabalho nas fazendas. Então Napoleão Bonaparte reintroduziu a escravidão nas colônias e as tropas francesas prenderam e deportaram L'Overture, que morreu numa prisão na França. Liderados por Jean Jacques Dessalines, os haitianos derrotaram o exército napoleônico chefiado pelo general Leclerc. A independência foi proclamada em 1804. Radicalizado, o novo governo tentou se livrar do passado baseando a economia exclusivamente na agricultura de subsistência. Além disso, houve a pressão externa: uma nação independente de negros nas Américas colocava em risco o equilíbrio entre senhores e escravos de outros países, principalmente nos Estados Unidos, bem como a estrutura de economia exportadora de bens primários. Daí o embargo e a pressão que o Haiti sofreu dos países ricos ao longo do século XIX. Esse isolamento mergulhou o país na estagnação e no empobrecimento. A instabilidade política tornou-se recorrente. No século XX, o Haiti foi ocupado por tropas americanas durante 19 anos (entre 1915 e 1934). Em 1957, sob as bençãos de Tio Sam, o médico François Duvalier ("Papa Doc") instaurou uma sanguinária ditadura pessoal baseada no terror de sua guarda pretoriana, uma milícia paramilitar conhecida como tontons-macoute (bichos-papões, em créole). A ditadura, já sob o domínio de seu filho, "Baby Doc", caiu em 1986 e o que se seguiu foi um período de caos político, golpes, contragolpes e invasões. O país só conheceu alguma estabilidade com a intervenção da Força de Paz da ONU, a partir de 2004.
A pesada herança colonial e a irresponsabilidade de suas elites fizeram desse pequeno país uma nação sem Estado, sem futuro e sem esperança.
O filme Queimada (1969), de Gillo Pontecorvo, mostra como uma revolução anticolonial pode ser devorada pela sofisticada engrenagem imperialista e pela rapacidade de sua classe dominante. Uma metáfora do Haiti.
http://www.youtube.com/watch?v=lc7MiQclo18&feature=related
Como se não bastasse, agora essa catástrofe natural. Ó deuses, onde estais?

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