quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

A FABRICAÇÃO DE UM MITO: COMO TIRADENTES DERROTOU FREI CANECA

Num livro brilhante, A Formação das AlmasO imaginário da república no Brasil, o historiador José Murilo de Carvalho analisa o processo de criação de um mito, Tiradentes, cuja imagem foi idealizada pelos donos do poder, tanto da República Velha quanto do Estado Novo, para transformá-lo num herói nacional, acima das classes, do espaço e do tempo. Sintomaticamente, até a esquerda homenageou Tiradentes – houve um grupo guerrilheiro com esse nome. Já a memória de Frei Caneca, líder revolucionário radical e conseqüente, ficou esmaecida pelo Tempo e desconstruída pela História contada pelos vencedores:
“Frei Caneca e seus companheiros tinham se envolvido em duas lutas reais, uma pela independência, a outra contra o absolutismo do primeiro imperador. Ele morreu como heroi desafiador, quase arrogante, num ritual seco de fuzilamento – já que nenhum carrasco se dispusera a enforcá-lo. Foi mártir como Tiradentes, mas, ao contrário deste, Frei Caneca foi um mártir rebelde, acusador, agressivo. Não morreu como vítima, como portador das dores de um povo. Morreu como líder cívico e não como mártir religioso, embora, ironicamente, se tratasse de um frade”.

“Tiradentes foi o contrário. O patriota virou místico. A coragem que demonstrou vinha, ao final, do fervor religioso, não do fervor cívico. Assumiu explicitamente a postura de mártir, identificou-se abertamente com Cristo. O cerimonial do enforcamento, o cadafalso, a forca erguida a altura incomum, os soldados em volta, a multidão expectante – tudo contribuía para aproximar os dois eventos e as duas figuras, a crucificação e o enforcamento. O esquartejamento posterior [veja-se o quadro Tiradentes Esquartejado, de Pedro Américo, à dir., NC], o sangue derramado, a distribuição das partes pelos caminhos que antes percorrera também serviram ao simbolismo da semeadura do sangue do mártir”.

“Na figura de Tiradentes, todos podiam identificar-se, ele operava a unidade mística dos cidadãos, o sentimento de participação, de união em torno de um ideal, fosse ele a liberdade, a independência ou a república. Era o totem cívico. Não antagonizava ninguém, não dividia as pessoas e as classes sociais, não dividia o país, não separava o presente do passado nem do futuro. Pelo contrário, ligava a república à independência e a projetava para o ideal de crescente liberdade futura. A liberdade ainda que tardia”.

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