quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

O COMPLEXO DE VIRA-LATAS OU A MENTALIDADE COLONIZADA

A mídia de direita reproduz subliminarmente os preconceitos mais reacionários da classe média decadente – veja-se o caso de Boris CCCasoy e os garis. Tais preconceitos fazem parte de uma weltschauung (“visão de mundo”) tupiniquim segundo a qual o Brasil é um país atrasado, o povo daqui é vagabundo, ignorante e oportunista – como Macunaíma, o heroi sem nenhum caráter. Quem comunga dessa visão geralmente é fascinado por shopping centers, valores hiperconsumistas e competitivos e pela estética kitsch de Miami e de Las Vegas. Para eles, nunca seremos integrantes do “Primeiro Mundo” – até porque, ninguém ousa dizer, não somos uma nação de maioria branca e de origem européia. “Mentalidade de colonizado”, como diagnosticou Frantz Fanon ou “complexo de vira-latas”, como ridicularizou Nelson Rodrigues, essa visão é quase hegemônica na sociedade brasileira e impede a maioria de reconhecer nossos heróis do dia-a-dia. Até que catástrofes, como o terremoto do Haiti ou a guerra do Iraque, revelam alguns desses personagens e os transformam em heróis trágicos, no sentido grego da palavra. É o caso da médica sanitarista Zilda Arns Neumann (1934-2010), morta no Haiti em plena missão humanitária. Com pouquíssimos recursos, ela levou adiante um programa da Pastoral da Criança que reduziu drasticamente a desnutrição infantil com medidas simples e baratas. Chegou a ser indicada ao Prêmio Nobel da Paz. Até ontem (13) era desconhecida do grande público. E Sérgio Vieira de Mello (1948-2003), o diplomata brasileiro da ONU que conduziu magistralmente a reconstrução do Timor Leste devastado pela guerra da independência e que depois foi enviado a Bagdá como Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, onde morreu num atentado terrorista. Seria o sucessor de Kofi Annan na secretaria-geral da ONU. Desnecessário dizer o quanto ele era um ilustre desconhecido por aqui até sua morte - quiçá até hoje.
Não é à toa que celebramos tanto a memória de Ayrton Senna, o competidor, mas não a de Sérgio Vieira de Mello, nem a de Chico Mendes. E, daqui a algum tempo, pouco se falará também de Zilda Arns...

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