quinta-feira, 30 de agosto de 2012

QUANDO A VÍTIMA É CULPADA

O cidadão anônimo contra os tanques: que fim levou?

 Em junho de 1989, correu mundo a foto de um cidadão que se colocou à frente dos tanques do Exército chinês que rumavam à Praça da Paz Celestial em Pequim para reprimir as manifestações estudantis contra o regime comunista. Nunca se soube quem era o rebelde desconhecido, nem seu destino. Surgiram muitas teorias; alguns disseram que ele teria sido morto pela polícia, ao lado dos outros milhares de estudantes assassinados durante aquele episódio que ficaria conhecido como o “Massacre da Paz Celestial”. Outras versões dizem que o rebelde sem rosto teria sido executado dias após o incidente; ou fuzilado meses depois do protesto. Há quem diga ainda que ele está vivo, escondido no interior da China ou em Taiwan. A verdade não veio à tona até hoje, mas aquela imagem se tornou uma das mais icônicas do sangrento século XX.

Rachel contra o bulldozer: o motorista foi pior que o tanquista chinês   
Mas há outra imagem igualmente dramática e com final trágico que não teve a mesma divulgação na grande mídia. Trata-se da militante pacifista americana Rachel Corrie, que em 2003, aos 23 anos, foi para Israel protestar contra a demolição de casas de palestinos expulsos pelas chamadas Forças de Defesa de Israel – nome das Forças Armadas do país. Na Faixa de Gaza, ela se colocou na frente de um trator bulldozer que trabalhava na demolição das casas. Mas, ao contrário do tanquista chinês, o motorista do buldozer não parou; ele não apenas atropelou deliberadamente a militante, como deu marcha à ré para passar sobre seu corpo novamente.  

Rachel Corrie
No último dia 27, a Justiça israelense deu seu veredicto: ela decidiu que o militar que dirigia o bulldozer não teve culpa, nem comportamento negligente. O tribunal inclusive sugeriu que Rachel foi a culpada por sua morte. Essa situação mostra que, sob a liderança de Netanyahu e Lieberman, Israel jogou na lata do lixo o legado do humanismo judeu. A exceção ficou por conta do grupo Jewish Voice, formado por judeus democratas que se opõem à política de repressão israelense ao povo palestino. Eles iniciaram uma campanha para que os investidores americanos vendam ações da Caterpillar, a fabricante dos tratores usados pelo Exército israelense para demolição casas e edifícios palestinos. Não dará em nada, mas é um gesto digno de inconformismo. É o que resta.  



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