segunda-feira, 20 de agosto de 2012

E, NO ENTANTO, É PRECISO CANTAR

Manifestante das Femen detida por policial em Kiev (Ucrânia)
Impressionante a velocidade com que as coisas se transformam e se esvaziam na sociedade do espetáculo – “tudo o que é sólido desmancha no ar”, já dizia o velho Marx. Em 2008 surgiu um grupo feminista na Ucrânia, as Femen, que inventou uma insólita maneira de protestar contra a sociedade machista e patriarcal: fazendo topless em público e pintando o corpo com palavras de ordem. O grupo, que nasceu na capital Kiev, realiza protestos ruidosos contra atos de sexismo, o turismo sexual e a exploração de menores, as agências internacionais de casamento, as religiões organizadas e outros. Volta e meia a imprensa divulga fotos de meninas seminuas do Femen sendo arrastadas por policiais truculentos para dentro dos camburões. O grupo chamou a atenção da mídia e começou a se espalhar pelo mundo, mas no país de origem bateu de frente com a conservadora opinião pública ucraniana. 


Ativista derruba cruz  
O estopim ocorreu na última sexta-feira, dia 17, quando a ativista Inna Shevchenko derrubou uma cruz dedicada a vítimas da fome provocada pela coletivização forçada promovida pelo stalinismo na Ucrânia nos anos 1930. As autoridades fecharam a sede e instauraram um processo contra o grupo – o que deve lhe aumentar a popularidade no exterior.


Sara Winter (à dir.) em manifestação no Masp 
O fenômeno chegou ao Brasil com o nome de Femen Brazil (com “z”).  No final de julho, duas manifestantes vestidas apenas de calcinhas e com palavras de ordem pichadas nos corpos foram ao vão do MASP protestar contra a decisão do Conselho Regional de Medicina (CREMRJ) do Rio contra os partos caseiros. Uma das moças, Sara Winter, de 20 anos, que já tinha se destacado em junho por ter sido  presa em Kiev numa manifestação do grupo durante a Eurocopa, apareceu como a porta-voz da organização no país. A moça, cujo nome verdadeiro é Sara Fernandes Giromini, virou celebridade da noite para o dia. Na semana passada, ela acabaria detida pela polícia paulista depois de participar de um protesto das Femen Brazil contra o governo do presidente russo Vladimir Putin pela prisão e condenação das integrantes do grupo punk Pussy Riots.

Mas os 15 minutos de fama de Sara, parece, não duraram muito. Descobriu-se que, no passado, “Sara Winter” simpatizara com grupos neonazistas e que era muito conservadora e moralista. A ponto de, em 2011 ter publicado um texto nas redes sociais criticando a Marcha das Vadias – movimento que luta contra agressão das mulheres, muitas vezes chamando a atenção com roupas sumárias –, dizendo que o grupo confundia liberdade de expressão com “promiscuidade”. 


Mulheres na "Marcha das Vadias"
Curiosamente, os argumentos de Sara contra as “vadias” são semelhantes aos usados por conservadores contra as Femen: “por que diabos essas meninas não fizeram uma marcha normal, quero dizer, COM ROUPAS NORMAIS, reivindicando o direito das mulheres [...] Mas é claro que é muito mais divertido tornar a coisa polêmica, usar a faceta da liberdade de expressão para andar seminua nas ruas e se encher de um ‘orgulho puta’ (como diz um cartaz aí), daria pra fazer a mesma marcha com outro nome, com roupas e sem orgulho puta, mas aposto que não dariam tantas pessoas quanto na original”, afirmou.

A cruz de ferro tatuada: culto ao nazismo?
Mas teve mais. Em seu perfil no Facebook, Sara Winter listou pessoas e grupos que admirava: Plínio Salgado – líder do Integralismo, cópia tupiniquim do nazi-fascismo dos anos 1930 –; o movimento skinnhead e líderes conservadores como Ronald Reagan. Estranho para uma libertária, não? E a moça também tem uma tatuagem em cima do seio esquerdo que reproduz uma cruz de ferro. Embora seja uma antiga condecoração militar alemã inspirada no símbolo dos Cavaleiros Templários, a cruz de ferro é frequentemente associada – erroneamente, é verdade – a um símbolo nazista. 

De qualquer modo, as simpatizas da jovem por personagens reacionários fica evidente quando se lembra que Sarah Winter é o nome da mais famosa nazista britânica (1870-1944), uma nobre ligada à British Union os Fascists. Questionada, a Sara brasileira disse que aquelas opiniões eram “coisa do passado”, que a cruz de ferro é apenas uma referência aos templários e que o codinome Sara Winter foi uma homenagem à cantora Sara Spring. “Ela é primavera (spring) e eu sou inverno (winter)”, disse. Pode ser. Sara é muito jovem e pode ter mudado de opinião. Mas fica a dúvida...

A superficialidade e a atomização dos movimentos de protestos são a fórmula para que se tornem folclóricos e fracassem. As Femen certamente encontraram uma forma engenhosa de lutar contra o machismo. Mas só agit prop, como se dizia antigamente, não basta. Se movimentos libertários como esse não ampliarem sua base de apoio, conectando-se a movimentos sociais de massa, e não buscarem alguma coerência política, durarão o tempo em que durar a curiosidade pública alimentada pela mídia. Fazer topless para protestar contra o patriarcalismo é simpático num primeiro momento, mas tende a virar folclore no segundo seguinte. Ou seja: não basta fazer ações espetaculares contra o machismo, é preciso romper o isolamento e inserir esses movimentos num processo maior de luta pela ampliação da democracia. Isso significa ligar o combate ao patriarcalismo às lutas contra o racismo, a xenofobia, a exploração do trabalho, o desemprego e, last but not least, em defesa da liberdade de expressão.

Manifestantes do Occupy Wall Street
Mas, não se iludam, isso não acontecerá. Não há mais movimentos de massa organizados capazes de, pelo menos, épater la bourgeoisie. Os movimentos e organizações políticas que conseguiram conter a sanha do capital tiveram suas garras devidamente cortadas.  Tampouco há libertários acreditando que a imaginação tomará o poder. Nos anos 1960, a contracultura hippie criticava a escalada e os crimes do governo americano na Guerra do Vietnã e pregava a subversão dos costumes por meio do amor livre: Make Love, not war.  Na época, era uma mensagem transgressora, mas depois ela foi devidamente domesticada, esvaziada de qualquer sentido subversivo. O sonho acabou, ou melhor, os sonhos acabaram: a revolução foi para as calendas gregas, o reformismo está congelado e a contracultura é apenas uma lembrança de velhos hippies. O mesmo destino aguarda movimentos como o Occupy Wall Street e as Femen. Logo, logo, haverá bonequinhas delas sendo vendidos em shopping centers.

E, no entanto, é preciso cantar...


  

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