segunda-feira, 13 de agosto de 2012

A VITÓRIA PÓSTUMA DE BARRY GOLDWATER

Paul Ryan (esq.) e Mitt Romney
Com sua proverbial verve, Noam Chomsky disse certa vez que os Estados Unidos são um país de partido único, com duas facções; democratas e republicanos. O país berço da democracia moderna está muito próximo disso, com o agravante de que as diferenças entre as duas facções estão se estreitando a cada dia. Não é de hoje que o Partido Republicano virou um partido de direita e o Partido Democrata, uma agremiação de centro, mas cada vez mais próximo do centro-direita. Mas preocupante é a marcha célere dos republicanos rumo à extrema direita. No sábado, o candidato republicano Mitt Romney escolheu como vice um representante do Tea Party, o congressista Paul Ryan, de Wisconsin. Trata-se de um crítico feroz dos gastos públicos, antiabortista fanático, favorável à criminalização do aborto em qualquer circunstância, mesmo em casos de risco para a vida da mãe e estupro. Quase um homem do Neardenthal, em suma.    
Barry Goldwater

Esse giro ultraconservador foi tentado pela primeira vez em 1964, quando os republicanos lançaram o reacionário senador pelo Arizona Barry Goldwater como candidato à Casa Branca. Ao contrário dos republicanos tradicionais, ele destoava do consenso que se criou depois da guerra em torno das políticas sociais do New Deal. Também defendia que os EUA jogassem bombas atômicas sobre o Vietnã. Perdeu fragorosamente para o democrata Lyndon Johnson, que jogava “apenas” bombas convencionais e de napalm sobre os vietnamitas. Em 1968 os republicanos lançaram Richard Nixon que, embora anticomunista ferrenho, era um republicano pragmático, tradicional. Tanto que, em seu governo, Nixon articulou uma aliança com a China de Mao, fez a détente com a URSS, reduzindo testes nucleares, e pôs fim à Guerra do Vietnã – não sem antes invadir o Camboja e bombardear impiedosamente os vietnamitas. A virada republicana à direita à outrance ocorreu em 1980, quando o californiano Ronald Reagan, herdeiro político de Goldwater, ganhou as primárias republicanas e depois conquistou a Casa Branca. Não por acaso, o último representante do ultraliberalismo americano (que significa algo como social-democrata europeu), Ted Kennedy, foi derrotado nas primárias pelo então presidente democrata Jimmy Carter, que perderia para Reagan. 

O inacreditável Dan Qayle

Depois de Reagan, os republicanos tradicionais voltaram à cena com a eleição de George H.W. Bush (pai), mas seu vice era um ser apatetado chamado Dan Quayle, que, aliás, era muito mais um reaça estulto do que propriamente direitista ideológico. Uma piada da época dizia que o serviço secreto americano estava orientado para eliminar Quayle imediatamente caso Bush fosse assassinado. E então, depois do interregno Bill Clinton, vieram as trevas de Bush Jr. Prova de que política não está no gene, George W. Bush era alinhado com os ultraconservadores “neocons”, e fez talvez a administração mais reacionária e incompetente dos EUA. Seu vice, Dick Cheney, conseguia ser ainda mais retrógado, embora tivesse mais luzes que o chefe. 

E a mais inacreditável ainda Sarah Palin

E quando o pêndulo republicano se inclinou novamente para um pragmático (John McCain), em 2008, o GOP teve que compensar os ultras escolhendo uma vice troglodita, Sarah Palin, alguém tão à direita – e intelectualmente no mesmo nível de Dan Quayle – que, perto dela, Margareth Thatcher parece uma perigosa e sofisticada comunista. A fórmula se repete agora com Paul Ryan, um hidrófobo à Barry Goldwater, mas muito mais estúpido do que ele.   

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