segunda-feira, 13 de agosto de 2012

LA MEDIA DESNUDA

La Maja Desnuda, de Goya 

Dois textos, um do Paulo Nogueira, ex-diretor da Época, outro do Jotavê, do blog do Nassif, dão conta do mal-estar que atinge a grande mídia brasileira, ameaçada de ser desmascarada pelo envolvimento com o bicheiro Carlinhos Cachoeira, assim como um de seus áulicos, o ex-senador Demóstenes Torres, autoproclamado Catão dos Trópicos. Historicamente comprometidos com os grandes grupos econômicos dominantes, implacáveis na destruição de adversários políticos e vivandeiras incorrigíveis, mas com discurso pseudo-liberal, os barões estão ficando mais nus do que La Maja Desnuda, do Goya...      

O triunfo de Alberto Dines 

Por Paulo Nogueira  
O jornalista Alberto Dines tinha uma boa definição sobre o código de conduta da grande imprensa brasileira. Era como se as publicações pertencessem à “Hípica”, um clube fechado no qual, por mais que os sócios se detestassem, ninguém falava publicamente nada de reprovável de ninguém. Era bom para eles próprios, mas não, necessariamente, para o interesse público.
O jornalista Alberto Dines
Dines foi, ele próprio, uma exceção de breve mas luminosa duração ao fazer, nos anos 1970, o ‘Jornal dos Jornais’ na Folha, uma crítica domenical da mídia.
Não é exagero afirmar que a carreira profissional de Dines nas grandes corporações foi praticamente liquidada por causa do inovador ‘Jornal dos Jornais’, uma das experiências mais fascinantes da história do jornalismo nacional. Dines teve que esperar a internet para, nela, construir o Observatório da Imprensa, uma espécie de versão digital do ‘Jornal dos Jornais’.
Quando diretor da Editora Globo, propus certa vez a João Roberto Marinho uma reportagem na Época sobre denúncias na internet contra a grande imprensa. Num email a JRM, que é na prática o editor das Organizações Globo, lembrei a frase de Dines sobre a Hípica. Bem, para encurtar a história, a recomendação – ordem, usemos a palavra certa – foi para não dar o texto.
Pois a Hípica foi invadida.
Na televisão e no mundo do papel, a Record e a Carta Capital estão publicando coisas que jamais seriam levadas ao público antes – excetuado o da internet.
Há interesses claros por trás da Record e da Carta, e o público deve levá-los em consideração. A Record quer derrubar a Globo, e tem um problema específico com a Abril, que publica a Veja. A Carta, fora a simpatia por Lula, é dirigida por Mino Carta. Mino jamais superou o trauma de sua saída da Veja, no final dos anos 1970. A cada dia, parece detestar mais Roberto Civita, ao qual atribui sua saída. Se pudesse, Mino marcaria um encontro com Civita numa próxima vida para um acerto de contas.
Do ponto de vista jornalístico, e estilístico, o material da Carta é superior ao da Record. Basicamente, porque Mino tem um talento extraordinário. E, ideologicamente, sua simpatia pelos chamados “99%” – semelhante à social democracia europeia, representada no presidente francês François Hollande – está muito acima da exploração da fé feita pela igreja que controla a Record.
Fique, ainda uma vez, claro: há, claro, viés no conteúdo da Record e da Carta sobre o que Dines chamou de “Hípica”. Não existe nele o que os idealistas chamam de objetividade e imparcialidade.
Mas, mesmo com essa ressalva, o público lucra com o novo quadro. Sobre isso não é dúvida. Da troca de tiros vai nascer, na marra, um debate indispensável sobre quais são os limites éticos e legais do jornalismo – até que ponto jornalistas podem ir à busca de informações.
Uma descarga de transparência na mídia – nos nomes que estão aí e nos que porventura chegarem com a nova era digital – pode não ser do interesse da “Hípica” de que falava Dines, mas é de absoluto interesse público.

O governo e a convocação de Policarpo na CPI

Por  Jotavê
Policarpo Jr., diretor da sucursal de Brasília de Veja
A Globo, ontem, fez o jogo dela. Sabe que a revista Veja corre o perigo de ir para a fogueira e tratou de sair na frente, dando uma matéria no Fantástico a respeito de Carlinhos Cachoeira. Nem uma palavra sobre Policarpo Jr., é claro. Faz sentido. Afinal, a emissora foi parceira da Veja esse tempo todo. Repercutiu uma a uma as matérias criminosas feitas pela revista, como o grampo sem áudio. Se disser que Veja estava o tempo todo vinculada a um criminoso irá admitir indiretamente que ela também estava. Nojento, portanto. Mas compreensível.
Mais nojenta e menos compreensível é a atitude dos parlamentares da base aliada na CPMI, que vêm atuando como verdadeiros guardiões da revista, sabotando sistematicamente todas as tentativas de convocar Policarpo Jr. para depor. O Partido dos Trabalhadores não é uma pobre vítima do PMDB de Temer, como dizem alguns. É CÚMPLICE de Temer. Ambos atuam em conjunto para proteger a revista. Há vozes isoladas (não só nem principalmente do PT) pedindo a convocação. O PT enquanto partido tem sido CONTRA. 
Ao que tudo indica, existe um acordo de "cavalheiros" entre o governo Dilma Rousseff e a editora Abril. A revista Veja faria apenas críticas pontuais ao governo, sem lançar nenhum tipo de campanha sistemática de desestabilização. Em troca, o governo cerraria fileiras contra o envolvimento da revista na CPMI. Agora, com o surgimento de novas evidências, o preço parece ter aumentado. Já não basta mais "pegar leve". Tem que aderir. Tem que apoiar. Anunciando na capa seu apoio ao governo Dilma Rousseff, a revista (para usar a metáfora popular que vem tão a propósito neste caso) ficou de quatro. Não se trata exatamente, como se vê, de uma posição política.
Meu palpite é que o assunto ganhou dinâmica própria. Cada vez menos deputados estarão dispostos a encobrir as falcatruas da revista. Temos que ficar atentos. Minhas atenções, por exemplo, recaem sobre o deputado Protógenes Queiroz, em quem infelizmente votei nas últimas eleições. No momento em que mais precisávamos dele, sumiu. Fez tanto barulho, e na hora H não dá as caras. O delegado deve explicações, sim, e não apenas a respeito da revista Veja. Vemos agora quem era o Dadá que ele chamou para auxiliá-lo durante a operação Satiagraha. Um capanga de Carlos Cachoeira. Um torturador a mando de um bicheiro, pelo que mostram os áudios divulgados ontem pela Rede Globo. Não duvido que o silêncio do delegado seja o produto de algum tipo de chantagem. Envolveu-se até o pescoço com essa gente, que agora tem munição de sobra para usar contra ele, caso não se comporte direitinho. 

Temos que denunciar sistematicamente E SEM MEDO os parlamentares que traem nosso voto nesse caso. Nada de aliviar a situação dos parlamentares do PT, por exemplo. Cada um tem que mostrar a sua cara. Queremos a convocação de Policarpo Jr. Queremos ver a revista Veja na berlinda, explicando-se a respeito de suas relações com Carlos Cachoeira. Achamos uma infâmia que parlamentares de esquerda ajam como têm agido nesse caso. Não votaremos mais em quem se comporta desse modo. Vocês ficarão sozinhos em breve. Sem mandato, serão alvos fáceis para seus algozes. Quatro anos passam muito rapidamente. Dois, aliás, já se passaram. 

 

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