quarta-feira, 29 de agosto de 2012

(MAIS UMA) CHANCE À PAZ NA COLÔMBIA

O presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos

O presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, anunciou que seu governo iniciará conversações com representantes das FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), o principal grupo guerrilheiro do país. O processo ocorrerá em Oslo (Noruega) e terá a mediação dos governos da Venezuela, Cuba e Noruega. Trata-se de mais uma tentativa de pôr fim a um conflito de décadas e matou mais de 300 mil colombianos.

O Bogotazo, em 1948
Ao contrário do que alardeia a grande mídia, mais preocupada em propagar rótulos e visões maniqueístas, a origem desse conflito é a brutal concentração de propriedade da terra e a conseqüente desigualdade social. O assassinato do político reformista Jorge Eliécer Gaitán, em abril de 1948, provocou violentas manifestações populares que ficaram conhecidas como o Bogotazo, em que milhares de pessoas morreram. Abriu-se um período de guerra civil no campo – conhecido como La Violência – entre os partidários dos partidos Liberal e Conservador. Em uma década, cerca de 200 mil colombianos foram mortos. A disputa por terras era o leitmotiv da violência. Esse período encerrou-se em 1958, quando os dois partidos fizeram um acordo para acabar com os conflitos, mas deixaram a questão agrária sem solução. Em 1964, o Partido Comunista da Venezuela fundou as FARC aglutinando camponeses antes ligados ao Partido Liberal.

Guerrilheiros das Farc
A história das FARC é tortuosa. No início, eles foram uma guerrilha camponesa clássica, engajada em combates na selva e na conquista de territórios. Militarmente, eles eram uma miscelânea heterodoxa das práticas de Che Guevara e de Mao Tsé-tung, embora jamais admitissem isso. As FARC chegaram a controlar cerca 40% do território colombiano, a maioria na região amazônica, e a ter um contingente de 17 mil homens (e mulheres) em armas. Suas ações fizeram surgir os grupos paramilitares de extrema-direita, ligados aos proprietários de terras e ao narcotráfico e treinados pelo Exército. Eram esquadrões da morte que realizavam verdadeiros experimentos de “limpeza social”, eliminando camponeses e roubando suas terras para realizar projetos agroindustriais para lavar o dinheiro do narcotráfico. Neste contexto, a violência só tendia a crescer.

O envolvimento das FARC com o narcotráfico, portanto, não é constitutivo do movimento, mas decorrência do domínio dessa atividade ilegal na economia colombiana. No início, os guerrilheiros davam proteção a camponeses que eram ameaçados pelos paramilitares. Depois, passaram a proteger os trabalhadores que cultivavam drogas para vendê-las aos traficantes. A guerrilha então deu o passo fatal e entrou no negócio para arrecadar fundos pensando que tinha meios de manter o controle. Acabou sendo engolida por ele. Essa aliança com os narcos e prática de seqüestros para extorquir dinheiro fez da organização um grupo bandoleiro.
Militantes da Unión Patriótica assassinados

A aposta do governo colombiano agora em negociar o fim dos conflitos é ousada. Até porque já houve outras, no passado, que fracassaram rotundamente. A mais dramática foi primeira, nos anos 1980, afogada em fogo e sangue. As FARC tinham concordado em depor as armas se transformar em partido político, a Unión Patriótica (UP). A UP teve grandes vitórias, encerrando o domínio dos liberais e conservadores e conquistando mais de 300 prefeituras, dez cadeiras no Senado e mais de 50 cadeiras na Câmara. Mas o candidato da UP a presidente, Jaime Pardo Leal, foi morto a tiros em um comício. Menos de um ano depois, as elites, os barões da droga e o Exército, com apoio dos EUA, desencadearam uma guerra contra a UP e assassinaram mais da metade dos deputados e prefeitos eleitos. No total, três mil militantes foram massacrados. Acuadas, as FARC tiveram que reorientar sua política e voltar às selvas.

O Estado-Maior das Farc, com Mono Johoy e Marulanda (Tirofijo)
Na tentativa mais recente, em 1999, o governo desmilitarizou uma área de 42 mil km², interrompeu as operações militares e iniciou conversações. Desta vez a guerrilha não aproveitou a chance e as negociações fracassaram. Veio então o Plano Colômbia e depois o governo de Álvaro Uribe, um tipo ligado aos paramilitares que apostou na repressão sem tréguas à guerrilha. As FARC foram enfraquecidas – vários líderes foram assassinados – mas não vencidas. Agora o presidente Santos, antigo pupilo de Uribe – foi seu ministro da Defesa, responsável pela repressão –, joga a carta da negociação. Uribe já saiu rosnando. Mas, desta vez, parece que todos - governo e guerrilha - têm interesse em chegar a um acordo. Consta que o governo estaria disposto até a iniciar uma reforma agrária - o que acabaria com a causa maior do conflito. E, por mais que Uribe esperneie, já está demonstrado que a guerrilha, golpeada, não consegue avançar, mas tampouco o Exército consegue dizimá-la. Alea jact est!  

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