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quarta-feira, 22 de agosto de 2012

MICHAEL COLLINS: O HOMEM E SUAS CIRCUNSTÂNCIAS


Michael Collins como líder do IRA... 
Morto há 90 anos, Michael Collins (1890-1922) foi um dos fundadores do IRA (Exército Republicano Irlandês) e depois o primeiro chefe de Estado da Irlanda. Ele ficaria famoso por organizar um esquadrão especialmente encarregado de eliminar policiais e militares britânicos na Irlanda; daí sua fama de perigoso terrorista. Já o Blacks and Tans, a unidade de elite do Exército Britânico que aterrorizava os irlandeses – como no Bloody Sunday, em 1920, quando integrantes dessa tropa mataram 14 civis no Croke Park Stadium – jamais ganhou este epíteto. Isso me faz lembrar uma frase de Noam Chomsky (estou citando muito ele ultimamente): “quando alguém pratica o terrorismo contra nós ou contra nossos aliados, isso é terrorismo; mas quando nós ou nossos aliados o praticamos contra outros, talvez um terrorismo muito pior, isso não é terrorismo; é antiterrorismo ou guerra justa”.


Mas o “terrorista” seria o representante dos irlandeses nas negociações de paz com os britânicos em 1921. Foi então que Collins mostrou que não era apenas um líder militar da guerrilha, mas tinha a dimensão política da luta. Sabia que as negociações implicavam ter consciência da correlação de forças e da necessidade de se fazer concessões. O Tratado Anglo-Irlandês foi oficialmente assinado em 6 de dezembro de 1921 e criou o Estado Livre Irlandês, que seria o primeiro passo para uma transição pacífica para a democracia e terminaria com mais de 700 anos de ocupação britânica da ilha. O tratado permitia a criação de um Estado que em tese compreendia toda a ilha, mas estava sujeito à aprovação dos seis condados do Norte, conhecidos como Ustler, de maioria anglicana, que poderiam não querer fazer parte do novo país, majoritariamente católico.

...e chefe de Estado da Irlanda
O novo Estado seria ainda um domínio que, mesmo independente, deveria fazer parte temporariamente da Commonwealth (Comunidade Britânica das Nações), com a chefia de Estado nas mãos do monarca britânico. Mas o controle de fato estaria nas mãos do governo irlandês eleito pela Dáil Éireann (Câmara Baixa). Ainda que não fosse a República sonhada pelos irlandeses, era a “liberdade para conquistar a liberdade”, nas palavras de Collins. Mas ele sabia que o tratado, em especial a partição do território, não seria bem recebido no novo país. “Eu assinei a minha própria sentença de morte”, disse ele ao assinar o documento.

Dublin bombardeada durante a guerra civil de 1922
De fato, o Sinn Féin se dividiu a respeito do tratado e o Tratado foi aprovado por 64 votos a 57. O grupo dissidente, liderado por Eamon De Valera, rompeu com Collins e se rebelou contra a nova ordem. Um governo provisório foi constituído por Collins, que se tornou o primeiro presidente da Irlanda. Em 14 de abril de 1922, um grupo de 200 homens do IRA que eram contra o Tratado ocuparam prédios do governo. Collins, que queria evitar a repressão e a luta fratricida entre antigos camaradas, evitou atacar até junho de 1922, quando os britânicos também começaram a pressioná-lo. 

Estourou então a guerra civil, com combates irrompendo por toda Dublin entre rebeldes do IRA anti-Tratado e as tropas do Governo Provisório. Sob o comando de Collins, as forças do Estado Livre rapidamente reassumiram o controle da capital. Mas Collins seria morto a tiros em Cork numa emboscada preparada por rebeldes, em 22 de agosto de 1922. Sua morte comoveu a Irlanda e consolidou o novo país.

Michael Collins inspirou outros combatentes nacionalistas e revolucionários e é, talvez, um exemplo acabado da máxima de Ortega y Gasset: “O homem é ele e suas circunstâncias”.  

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