terça-feira, 29 de junho de 2010

O FASCÍNIO DAS ARMAS


Deu no New York Times:
Cerca de 10 mil americanos morreram em consequência de violência com armas de fogo durante os quatro meses em que a Suprema Corte debateu se a proibição do uso de armas aprovada por alguns estados, como Chicago e o Distrito de Columbia, era inconstitucional. Na segunda-feira 28, a Corte entendeu, por 5x4, que nenhum estado ou cidade americana pode limitar o direito dos cidadãos de possuir armas de fogo.
A polêmica começou há dois anos, quando Suprema Corte, invocando a Segunda Emenda, derrubou a proibição de armas imposta pelo Distrito de Columbia, interpretando que ela autoriza qualquer cidadão a portar armas e não apenas as milícias de autodefesa. A Segunda Emenda diz textualmente: "sendo necessária à segurança de um Estado livre a existência de uma milícia bem organizada, o direito do povo de possuir e usar armas não poderá ser impedido." É justamente a segunda parte desta emenda que tem justificado, ao longo dos anos, que todo e qualquer cidadão norte-americano possa adquirir e portar armas com quase nenhuma restrição.
"Uma vez mais, a maioria conservadora da Corte impôs sua leitura seletiva da História americana", diz o Times, lembrando que os juízes citaram a vitória americana contra a Grã-Bretanha na Guerra da Independência (1776-1812) e a da União na Guerra da Secessão (1861-1865) como exemplos de que os autores da Constituição estavam certos ao considerar a posse de armas como um direito constitucional fundamental. "Os membros da Corte ignoraram o cotidiano de Chicago, onde 258 estudantes de escolas públicas foram baleados no ano passado - e 32 deles morreram", diz o Times.
A Associação Nacional do Rifle (NRA), claro, comemorou a decisão. "Esta é uma reivindicação da grande maioria de cidadãos americanos, que sempre acreditou que a 2ª Emenda é um direito e uma liberdade individual que vale a pena defender". Já os defensores do controle de armas criticaram o veredito, citando estatísticas que mostram uma média anual de 30 mil mortes, incluídos 12 mil assassinatos, por disparos de armas de fogo. Estima-se que nos Estados Unidos exitam cerca de de 200 milhões de armas em circulação.
Estranha, a alma ianque. A questão da posse de armas como direito inalienável do americano parece estar no DNA da nação. Hoje os conservadores adaptaram seus discursos aos novos tempos, esgrimindo as causas politicamente corretas da Independência e da guerra contra a escravidão para justificar a nação em armas. Mas não faz muito tempo que ninguém na América tinha dúvidas de que a conquista violenta do Oeste bravio tinha sido uma grande epopeia. A espoliação e o massacre dos índios e a conquista de terras mexicanas só começou a ser questionada a partir da década de 1970, em meio ao atoleiro no Vietnã.
Os conservadores que apoiam o direito de possuir armas de fogo também apoiam, naturalmente, a pena de morte - e ela continua vigente em 36 dos 50 Estados americanos, depois de ter sido suspensa por um breve período de tempo (1972-1976). À exceção dos EUA, os países que ainda adotam a pena capital são ditaduras ou semiditaduras: Irã, China, Coréia do Norte, Cuba, Arábia Saudita, Egito, Iraque, Paquistão. Toda a Europa e a maioria da América Latina a aboliu. Curiosamente, os mesmos conservadores que defendem o direito à posse de armas de fogo e a pena de morte consideram que o aborto é um crime...
Será que foi por causa dessa obsessão armada dos americanos que John Lennon cunhou a frase "a felicidade é uma arma quente"?
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PS.: As armas acima, uma Luger (à esq.) e uma Walther P-38, são alemãs. Os EUA têm as Colt e as Smith & Wesson, mas o design das alemãs é mais bonito do que o das americanas...

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