quarta-feira, 2 de junho de 2010

RUMO AO ESTADO TEOCRÁTICO

O jornalista e médico Georges Clemenceau (1841-1929) foi um dos mais brilhantes líderes políticos franceses de todos os tempos. Conhecido como “o Tigre”, destacou-se tanto na oposição quanto no poder. Foi primeiro-ministro da França duas vezes (1906-1909 e 1917-1920); no último período, liderou a França na vitória na Primeira Guerra Mundial. Tenazmente anticlerical e crítico do militarismo, Clemenceau formulou o que talvez sejam as melhores definições sobre a guerra e seus operadores: “Fazer a guerra é de longe mais fácil do que fazer a paz” e “A guerra é uma coisa demasiada grave para ser confiada aos militares”.
A última reflexão continua válida até hoje e, em certas regiões como o Oriente Médio, onde a política e a religião estão interligadas, teria que se acrescentar: “a guerra é uma coisa demasiada grave para ser confiada aos militares ... e aos religiosos”. Veja-se o caso de Israel. As Forças Armadas israelenses – conhecidas como Forças de Defesa – estão entre as mais eficientes do mundo. Tiveram vitórias militares estrondosas em 1948, 1967 e 1973. Mas nos últimos anos, a ação dos militares israelenses, quase sempre brutal e desproprocional às ameaças, vêm se revelando um desastre atrás do outro. O episódio mais recente foi o ataque de comandos israelenses à flotilha internacional que levava ajuda humanitária a Gaza.
Como notou o comentarista Giles Lapouge, talvez isso se deva ao aumento da influência dos religiosos sobre o Exército de Israel que sempre se orgulhou de suas tradições liberais, como a incorporação de mulheres e gays em suas fileiras. Segundo o jornal Haaretz, em 1990 apenas 2% dos oficiais militares israelenses eram religiosos; hoje eles são 30%. “Na brigada Golani, seis dos sete coroneis são religiosos. Na brigada Kfir, especializada em ações antiterroristas na Cisjordânia, sete tenente-coroneis usam a kipá”, diz Lapouge. Há 20 anos, os oficiais do Exército vinham da esquerda (trabalhista) e dos kibutzim; hoje eles vêm de colônias ultranacionalistas. “E o Haaretz explica que, nestas colônias selvagens instaladas ilegalmente, os militares fornecem uma ajuda tácita aos colonos extremistas que residem ali”, conclui Lapouge.
De Estado confessional, Israel está se transformando rapidamente num Estado teocrático. A metamorfose nas suas Forças Armadas, uma das instituições mais representativas do país, é uma prova disso.

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