quarta-feira, 19 de setembro de 2012

ESTIRPE EM EXTINÇÃO



Santiago Carrillo, tendo ao fundo a foto da Pasionaria
Santiago Carrillo, que morreu no último dia 18 aos 97 anos, pertencia a uma estirpe de políticos em extinção. Comunista histórico desde a Guerra Civil (1936-1939), ele foi um típico stalinista, suspeito inclusive de ter responsabilidade nos massacres de Paracuellos (1936), em que milhares de prisioneiros foram assassinados por forças comunistas. Com a derrota dos republicanos e a vitória dos fascistas de Francisco Franco na guerra civil, Carrillo foi para o exílio, onde ficaria 38 anos entre Paris e Moscou. Neste período, ele viria várias vezes clandestinamente para a Espanha.

Carrilo (centro) entre Berlinguer (esq.) e Marchais
Virou líder do Partido Comunista Espanhol em 1960, substituindo a lendária Pasionária (Dolores Ibarrurí). Em 1964, Carrillo expulsou do partido Jorge Semprún e Fernando Claudín, “revisionistas” defensores uma transição pacífica que, anos mais tarde, o próprio Carrillo abraçaria. O stalinista convicto começaria a mudar a partir da invasão da Tchecoslováquia pelas tropas do Pacto de Varsóvia, em 1968. Na década seguinte, junto com os líderes dos Partidos Comunistas da Itália (Enrico Berlinguer) e França (Georges Marchais), lançaria o Eurocomunismo, um movimento que afirmava a independência dos PCs em relação a Moscou e o compromisso destes com a democracia como “valor universal”, rompendo com o marxismo-leninismo soviético, que defendia a “democracia burguesa” apenas como tática para se atingir o poder.

No Parlamento, como deputado pelo PCE
O zênite de Carrillo foi a transição espanhola para a democracia. Foi quando ele se revelou um estadista. Carrillo não apenas participou das negociações do processo de democratização levado à cabo por Adolfo Suárez como reconheceu a autoridade do rei Juan Carlos – embora o PCE sempre tenha sido republicano – para levar a bom termo a transição. Demonstrou coragem pessoal quando militares franquistas tentaram dar um golpe invadindo as Cortes (Parlamento) em fevereiro de 1981. Carrillo foi um dos três deputados que se recusaram a obedecer as ordens do coronel Tejera Molino de se abaixar; ele ficou sentado fumando calmamente enquanto o militar esbravejava com uma pistola na mão. Acabou, ele mesmo, vítima de um expurgo e foi expulso do PCE em 1985.

Na tentativa de golpe, Carrillo (dir.) e Adolfo Suárez permanecem sentados
Para uns, Carrillo foi a síntese da grandeza e dos erros da Espanha e da esquerda no século XX. Nas palavras de Carlos Alonso Zaldívar, em relação do partido, ele quis ser “o papa e Martin Lutero ao mesmo tempo”. Mas Carrillo foi, sobretudo, um dos “pais fundadores” da democracia espanhola – ao lado de Adolfo Suárez e Felipe González, entre outros. O que veio depois é desolador. “A geração de políticos posterior à transição encontrou um mundo mais cômodo e acreditou que a política era um assunto de dinheiro e publicidade. Na realidade, nestes tempos na Europa e Estados Unidos se produziu uma tempestade conservadora que desregulou o mundo financeiro. Enquanto isso, na Espanha, os novos políticos se dedicavam a buscar senhas de identidade para legitimar-se à margem de seus predecessores. Quando veio a especulação imobiliária, todos só viram dinheiro e dinheiro. Até que começaram a cair raios e relâmpagos. Então, descobrimos que não tínhamos mais refúgio. [...] Onde procurar? Se se trata de encontrar a saída, temos que olhar para trás”, escreveu Carlos Alonso Zaldívar no El País.       

  
             

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