quinta-feira, 6 de setembro de 2012

A MORTE DO CARDEAL COMPASSIVO



Morreu aos 85 anos um dos últimos representantes do clero católico liberal, o cardeal italiano Carlo Maria Martini, ex-arcebispo de Milão. Embora fosse da Companhia de Jesus, ordem que nunca teve um papa, Martini era um dos papabili do último Conclave, que elegeu o atual pontífice em 2004. Dizem que Martini, que liderava os poucos cardeais progressistas, teria feito um acordo para apoiar a eleição de Joseph Ratzinger em troca da promessa de reformas na Igreja. Deve ter se arrependido amargamente...

Defensor do ecumenismo e do diálogo entre católicos e não-crentes, inclusive ateus, Martini protagonizou um famoso debate epistolar com  Umberto Eco, depois transformado em livro (Em que crêem os que não crêem?). Ele também defendeu posições polêmicas dentro de uma Igreja cada vez mais retrógada, como o diálogo com os divorciados, a interrupção das terapias em doenças terminais quando prolongam artificialmente a vida, a flexibilização da Igreja em questões como o celibato dos padres e a ordenação de mulheres. Martini também fez críticas à encíclica Humanae e Vitae, do papa Paulo VI – que rejeita a contracepção artificial – e à posição pífia do Vaticano em relação aos casos de pedofilia em todo o mundo.  

Martini foi um dos últimos representantes de uma linhagem de clérigos católicos compassivos e antenados às mazelas do capitalismo, como João XXIII, D. Oscar Romero. D. Hélder Câmara e D. Paulo Evaristo Arns.   

Abaixo, trechos de suas últimas entrevistas:       

“A Igreja atrasou-se duzentos anos. Porque não se mexe? Temos medo? Medo em vez de coragem? Mas a fé é o fundamento da Igreja. A fé, a confiança, a coragem."

“A Igreja está cansada, na Europa do bem-estar e na América. A nossa cultura envelheceu, as nossas igrejas são grandes, as nossas casas religiosas estão vazias e a burocracia da Igreja aumenta, os nossos ritos religiosos e as vestes que usamos são pomposos. Mas será que tudo isto exprime aquilo que somos hoje?"

“A Igreja deve reconhecer os próprios erros e deve percorrer um caminho radical de mudança, começando pelo papa e pelos bispos. Os escândalos da pedofilia levam-nos a começar um caminho de conversão. As questões sobre a sexualidade e sobre todos os temas relacionados com o corpo são um exemplo desse caminho de conversão. Elas são importantes para cada um e por vezes são também mesmo muito importantes. Devemos perguntar-nos se as pessoas ainda ouvem os conselhos da Igreja em matéria de sexualidade. Neste campo, a Igreja é ainda uma autoridade de referência ou apenas uma caricatura nos meios de comunicação?”

“Os sacramentos não são um instrumento ao serviço da disciplina, mas sim uma ajuda aos seres humanos nas etapas do seu caminho e nas fraquezas da vida. Estaremos levando os sacramentos àqueles que precisam renovar suas forças? Penso em todos os divorciados e nos casais que são fruto de um segundo casamento, nas famílias reconstituídas. Estas têm necessidade de uma proteção especial. A Igreja defende a indissolubilidade do matrimônio. [...] A atitude que temos para com as famílias reconstituídas determina a aproximação da Igreja em relação aos filhos. Uma mulher foi abandonada pelo marido e encontra um novo companheiro que se ocupa dela e dos seus filhos. [...] Se esta família é discriminada, são marginalizados a mãe e os filhos. E se os pais se sentem fora da Igreja, ela perde a geração futura”.


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