segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

O RACISMO CORDIAL

Maravilhosa crônica da jornalista e escritora espanhola Rosa Montero, autora, entre outros, de A Louca da Casa, Paixões e Instruções para Salvar o Mundo. Significativo que o episódio tenha ocorrido na Alemanha, país cuja trajetória na II Guerra Mundial provocou uma catarse que fez os alemães desenvolver um sentimento de culpa - sentimento difícil de encontrar, por exemplo, em boa parte de franceses, italianos e austríacos.
   
Uma história contra o racismo, preconceito e xenofobia

Por Rosa Montero, do El País (*)

Não, não somos racistas. Nem a Benetton...

Estamos num refeitório estudantil, de uma universidade alemã. Uma aluna loirinha e indiscutivelmente germânica retira seu bandejão com o prato do dia e vai se sentar em uma mesa. Então, descobre que esqueceu de pegar os talheres, e volta para buscá-los. Ao regressar, verifica com surpresa que um rapaz negro – a julgar por seu aspecto, vindo provavelmente de algum lugar bem ao sul do Saara – tinha se sentado no seu lugar, e estava comendo da sua bandeja.

No começo, a garota se sente desconcertada e agredida, mas logo corrige sua sensação inicial e supõe que o africano não está acostumado ao sentido de propriedade privada e de privacidade do europeu, ou quem sabem não tenha dinheiro suficiente para comprar sua própria comida, apesar de a bandeja universitária ser até barata, considerando o elevado custo de vida do seu rico país.


A garota, portanto, decide se sentar em frente ao sujeito, sorrindo amistosamente, o que o rapaz negro responde com outro sorriso pacífico. Em seguida, a alemã começa a comer da comida que está na bandeja em frente aos dois, tentando demonstrar a maior naturalidade possível, compartilhando aquela refeição com o colega com saborosa generosidade e cortesia.

Assim, ele vai comendo a salada, enquanto ela aproveita a sopa, ambos beliscam igualitariamente o mesmo refogado limpando o prato, até que ele escolhe o iogurte de sobremesa, enquanto ela prefere a fruta. Tudo isso acompanhado de diversas expressões educadas, tímidas por parte do rapaz, suavemente condescendente e compreensivas por parte dela.


Terminado o almoço, a aluna alemã se levanta para ir buscar um café. E então descobre, na mesa que estava logo atrás dela, sua própria jaqueta colocada sobre o braço de uma cadeira, e em frente a esta, uma bandeja de comida intacta.

A escritora e jornalista Rosa Montero

Dedico esta história deliciosa, que além do mais é verídica, a todos aqueles espanhóis (nota do tradutor: e se poderia estender também aos brasileiros)que, no fundo, têm um enorme receio dos imigrantes e, inconscientemente, os consideram indivíduos inferiores. A todas as pessoas que, ainda que bem intencionadas, observam o mundo com condescendência e paternalismo. Será melhor nos livramos dos preconceitos, ou corremos o risco de fazer o mesmo papel ridículo que a pobre alemã, que pensava ser o suprassumo da civilização, enquanto o africano, ele sim imensamente educado, a deixou comer de sua bandeja, talvez pensando: "acho que esses europeus são mesmo malucos".


(*) Tradução de Victor Farinelli

2 comentários:

  1. Cláudio, eu interpreto a ênfase da dedicatória como sendo incialmente aos brasileiros e secundariamente aos espanhois.

    Adinaldo

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