terça-feira, 10 de janeiro de 2012

BATENDO NA MESMA TECLA - QUOSQUE TANDEM?

Os neoliberais gostam de pensar que a globalização determinou o esgotamento simultâneo do sistema nascido com Tratado de Westphalia (1648), que consolidou os Estados nacionais soberanos, e do keynesianismo, heterodoxia que prevê a intervenção do Estado para enfrentar as crises cíclicas do capitalismo. Este artigo do Flávio Aguiar, do site Carta Maior, mostra como esse pensamento está enraizado nos atuais dirigentes da Europa, particularmente da Alemanha - o que certamente contribuirá para o aprofundamento da crise econômica que assola o Velho Continente.   

Europa: Keynes, nem pensar



Relatório preparado por analistas do Deutsche Bank para o governo alemão no ano passado afirma que os mercados simplesmente não aceitarão o emprego de uma política fiscal expansionista do tipo keynesiano para impulsionar a demanda em países com crescimento baixo

Flávio Aguiar (*)

“No atual meio ambiente do Mercado, não há espaço para usar uma política fiscal expansionista do tipo keynesiano para impulsionar a demanda em países com crescimento baixo – os Mercados simplesmente não aceitarão essa estratégia”.

O economista britânico John Maynard Keynes
Essas palavras constam de um relatório confidencial (agora revelado pelo New York Times) sobre a crise, preparado pelos analistas do Deutsche Bank para o governo alemão no ano passado.

Tão elucidativo sobre esse “meio ambiente do Mercado”, o relatório também é elucidativo quanto ao clima que prevalece entre a maioria dos economistas alemães e, por extensão, no Banco Central Europeu, com sede em Frankfurt, e no próprio centro decisório da Comissão Européia, com sede em Bruxelas.

“Nós devemos rapidamente conseguir um orçamento estruturalmente equilibrado. A Alemanha deveria ser um exemplo para o restante da abalada zona do Euro”. Essas palavras sentenciosas – que beiram a arrogância – são de Jens Weidmann, presidente do Bundesbank – o Banco Central Alemão. “Não se deve adiar o corte nos déficits orçamentários” – complementou ele (também citado no NY Times).

Ao lado de outros, que são hegemônicos nas escolas econômicas alemãs (embora haja, é claro, vozes dissidentes) há uma liga, por exemplo, formada por Jörg Asmussen, ex-alto funcionário do Ministério das Finanças, e a partir de 1° de janeiro guindado à diretoria do Banco Central Europeu; seu mestre Axel Weber, ex-presidente do Bundesbank; e o mestre deste último, Otmar Issing, também ex-diretor do Bundesbank e do Banco Central Europeu.

Todos eles, em conjunto, são os mentores de “tecnocratas” como Mario Monti e Lucas Papademos, agora autênticos interventores de Bruxelas e Frankfurt nos governos, respectivamente, de Roma e Atenas.

Friedrich August Von Hayek
Todos procedem da escola austríaca, com August von Hayek e seu mestre Ludwig von Mises à frente, respectivamente avô e bisavô da chamada “Escola de Chicago”, cujo mentor, Milton Friedman, influenciou Pinochet et caterva. E foram também os mestres de Margaret Thatcher e Ronald Reagan.

Todos eles são absolutamente crentes nas virtudes da rígida disciplina fiscal, com base, por sua vez, na crença de que “menos gastos públicos encorajam os investidores a investir mais e os consumidores a gastar mais, porque eles esperam pagar menos impostos”.

Com freqüência cita-se a Dinamarca dos anos 80 como exemplo dessa virtude – esquecendo que a Dinamarca tinha então (e tem até hoje) soberania sobre a própria moeda.

Com um time desses à frente, não há Keynes que resista, é claro. Também não há economia fragilizada que agüente o peso desta leveza orçamentária.

Algumas heranças genéticas na Alemanha podem também ajudar a entender a popularidade hegemônica desse pensamento.

Trabalhadores carregam dinheiro em caixas na Alemanha de 1923
Em primeiro lugar, deve-se lembrar a espiral inflacionária que, no passado remoto, fez a desgraça da República de Weimar e auxiliou a ascensão de Adolf Hitler e dos nazistas.

Em segundo lugar, está o temor sempre presente da estatização comunista, que se reflete, entre outras coisas, na questão não resolvida de que a reunificação alemã significou uma transferência de impostos do Oeste para o Leste equivalente hoje a 1 trilhão de euros.

Em terceiro lugar, ainda está presente na lembrança de muitos o fato de que o chamado milagre alemão dos anos 50 – fartamente financiado pelo Ocidente num clima de Guerra Fria – entrou em compasso de espera ao fim dos anos 60 e em colapso no começo dos anos 70 graças à crise dos preços do petróleo e à diminuição das exportações alemãs. É fácil atribuir isso a “excessivos gastos” da social-democracia então imperante como pensamento hegemônico de fundo.

Last, but not least, é mais fácil atribuir os atuais desmazelos da situação da Zona do Euro aos excessos das aposentadorias gregas, das benesses italianas, das incúrias ibéricas etc. etc. & etc., do que à imprevidência, incúria e ganância – às vezes criminosas – por parte da bancada rentista. Até porque no caminho inverso pode-se irritar o “meio ambiente da bancada rentista”, como, com outras palavras, dizia o citado relatório do Deutsche Bank.

Ou seja, de fato, enquanto perdurar esse clima, e o poder dos atuais “homens do tempo”, Keynes por aqui, nem pensar.

(*) Flávio Aguiar é correspondente internacional da Carta Maior em Berlim

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