quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

O NORDESTE CRESCE E ASSUSTA O SUL MARAVILHA

O blog do deputado Brizola Neto (PDT-RJ)postou uma nota mostrando uma matéria em que o Estadão destila seus preconceitos oligárquicos contra o Nordeste. A matéria, “Nordeste recebe metade dos benefícios do Bolsa Família em dezembro“, informa o óbvio: a transferência de recursos para pessoas em situação de miséria é maior onde é maior a própria miséria.
(Segundo o IPEA, 51,1% dos recursos do Bolsa Família vão para o Nordeste, ainda que a população da região represente 28% do total de habitantes do país. Ao mesmo tempo, o Sudeste, que possui 42,2% dos brasileiros, recebe 24,7% do orçamento anual do projeto).

Cito o Brizola Neto:
"A matéria não diz, mas os comentaristas explicitam: é um absurdo São Paulo receber menos bolsas-família que o estado da Bahia, o único dos estados nordestinos que supera o valor transferido aos paulistas que, é obvio, arrecadam mais tributos.

E aí as manifestações viram explicitudes.

'(…) o Sul e o Sudeste nao têm nada a ver com as misérias do Nordeste. Os problemas do Nordeste precisam ser resolvidos pelos nordestinos, e nao pelos paulistas ou gaúchos. O povo nordestino que se vire sozinho. Que cobre atitudes efetivas dos políticos que ele elege. A pobreza deles é problema deles, e de ninguém mais', diz um deles. 'Bem que o povo lá de cima podia começar a trabalhar como nós aqui para sentir o drama do que é viver contra o governo tirando tudo que você sua para ganhar', argumenta outro.

Talvez diminuissem sua fúria racista se tivessem tido acesso à pesquisa do Ipea de onde vieram os dados sobre a bolsa-família. Ignoram o que ela contém, como fez o repórter do Estadão.

Ali veriam, por exemplo, que o Sudeste tem 44% das instituições públicas – e caras – de ensino superior do país, metade delas em São Paulo, enquanto o Nordeste fica com 25%. Ou que o número de médicos recebendo pelo Sistema Único de Saúde é de 301 mil, 50% do total, e no Nordeste, que tem uma relação médico público/habitante 30% menor, são apenas 20% do total de profissionais médicos brasileiros.

Todos eles custando dinheiro público.

Essa parcela – felizmente minúscula – dos brasileiros, que pensa ser moderna mas ainda tem a cabeça na Idade Média não é apenas escravocrata: é burra e raivosa. E por estar concentrada no estado mais rico da Federação, São Paulo, acha que o papel que lhe cabe é o de capitão do mato cosmopolita.

Odeiam Dilma e Lula no século XXI como odiaram a Getúlio no século XX.

Porque, no fundo, o que odeiam é a idéia de um só Brasil e de um povo brasileiro.

Ficaram para trás, estão politicamente em extinção."
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Para fazer o contraponto, é interessante ler trechos de uma matéria que saiu no ano passado no Diário de Pernambuco e que, a meu ver, revela o temor mais profundo da oligarquia e da classe média tradicional paulista: na medida em que cresce num ritmo acima do país, enquanto a importância econômica de São Paulo diminui, o Nordeste deixa de fornecer o exército industrial de reserva - leia-se mão de obra barata - para o Sul Maravilha:

O PAÍS NORDESTINO
Diário de Pernambuco


"Nos últimos oito anos recebeu um inédito conjunto de obras públicas e privadas. Acabam de ser anunciadas para Pernambuco uma siderúrgica, com investimento previsto de R$ 1,5 milhão, e uma montadora da Fiat, que deve ter investimento de R$ 3 bilhões. Com população de 53 milhões de habitantes, a região tornou-se um cobiçado mercado consumidor. A Sadia implantou fábrica na região e está produzindo uma mortadela adaptada ao gosto dos nordestinos - mais macia, mais vermelha e mais apimentada que a de outras regiões. O Nordeste não é um só, são muitos - por isso é tão comparado com países. Celso Furtado já dizia: 'No Nordeste tudo escapa a explicações fáceis'.

Tamanho
O Nordeste tem área de 1,5 milhão de km2 (19,5% do território nacional); 53 milhões de habitantes (27,8% do total do país, segundo o último censo) e 13,1% da renda nacional. Sua área equivale aos territórios da França, Espanha, Alemanha e Suíça, juntos. A população é maior do que as da Argentina e Portugal, reunidas. E o PIB (US$ 232 bilhões) equipara-se à soma dos do Chile (US$ 169 bi) e Luxemburgo (US$ 54 bi).

Sem água e sem emprego
Da área do Nordeste, 63% é semiárido (Sertão). O resto fica assim: 16% cerrado; 11% litoral-mata, e 10% pré-amazônia. O semiárido tem gente demais (é o mais povoado do mundo), água de menos e quase nada de indústria. Lá estão os piores indicadores sociais e econômicos da região. Da mesma forma que se diz que não há solução para o Brasil sem solução para o Nordeste, pode-se dizer que o desenvolvimento do Nordeste é impossível sem uma solução para o semiárido.

Trabalho e Consumo
De janeiro de 2003 a setembro de 2010 o Nordeste foi a segunda região do país em que o nível de emprego mais cresceu: 59,52%, o que representou a criação de cerca de 2,9 milhões de empregos formais (com carteira assinada). A taxa foi superior à média nacional, 51,34%. A região que alcançou o melhor índice foi o Norte, com 76,56%. Há uma tendência simplista no país de considerar que a elevação do consumo na região deve-se exclusivamente ao Bolsa Família. O fato é que isso ocorreu em decorrência de uma série de fatores: a transferência de renda (não só Bolsa Família, mas também outros programas sociais e a Previdência Social), a criação de empregos em massa e o aumento real do salário mínimo. Como 50% dos trabalhadores de carteira assinada no Nordeste recebem um salário mínimo (o maior percentual desse indicador entre todas as regiões), o aumento real desse ganho tem um forte impacto na região. O ganho real do mínimo entre 2005 e 2010 foi de quase 50%.

Projetos de infraestrutura

Projetos de Irrigação do PAC para o Nordeste

Quando os grandes projetos de infraestrutura terão efeito no PIB nordestino? Os cálculos são de que, depois de concluídos, isso acontecerá num período de cinco a 10 anos. O governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), avalia que o PIB do estado vai dobrar nesse período. Atualmente é de R$ 70,4 bilhões, equivalente a 2,3% do PIB nacional. O estado sedia o empreendimento que melhor encarna o ciclo de expansão do Nordeste: o Complexo Portuário Industrial de Suape. Lá estão o Estaleiro (que marca a retomada da indústria naval brasileira, e já está em funcionamento), a refinaria Abreu e Lima (em obras) e mais 138 indústrias. A montadora da Fiat e a siderúrgica também farão parte do Complexo, e 25 outras empresas estão em negociação para instalar-se lá. Suape foi criado em 1979. Até 2006 tinha 81 indústrias. Hoje são 140. [...]

(MAS, APESAR DAS MUDANÇAS, O NORDESTE CONTINUA MANDANDO DINHEIRO PARA O SUDESTE):   
Celso Furtado: ele sabia das coisas

Quando a renda criada numa região não fica nesta mesma região diz-se que há “vazamento”. Uma das formas do vazamento dá-se por meio do déficit comercial com o Sudeste. Um exemplo: em 2004 o Nordeste teve um superávit comercial de R$ 11,3 bilhões com o comércio exterior, mas um déficit de R$ 34,8 bilhões no comércio com as regiões desenvolvidas do Brasil. Resultado final: déficit de R$ 23,5 bilhões, valor que na época era equivalente a 9,5% do PIB nordestino. É um problema antigo; Celso Furtado o chamava de “operação triangular”, em que a região menos desenvolvida sempre sai perdendo. Repete-se ano após ano, como mostra o estudo Entraves ao Desenvolvimento Regional: uma análise a partir dos fluxos comerciais da região Nordeste do Brasil, de autoria dos economistas Antonio de Castro Queiroz Serra e Otávio Augusto Miranda (Fortaleza, 2009). É uma conta reveladora de que, assim como acontecia nos anos 60, o Nordeste permanece vazando renda para o crescimento do Sudeste (na medida em que compra bens e serviços de lá). O que, de outro lado, gera a reivindicação do Nordeste de que a União precisa compensar o déficit com transferências para a região."

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