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terça-feira, 16 de agosto de 2011

IMPOSTOS, AQUI E LÁ


Reproduzo o artigo publicado no blog Tijolaço, do deputado federal Brizola Neto:
O biolionário americano Warren Buffett

De um bilionário americano para a turma do “Cansei”

Aquele pessoal Associação Comercial de São Paulo que patrocina o impostômetro e a turma do “Cansei” deveriam ler o artigo que publica hoje, no The New York Times, o megainvestidor americano Warren Buffett, o terceiro homem mais rico do mundo. Aliás, ele era o primeiro, antes de ser ultrapassado por Bill Gates e pelo mexicano Carlos Slim, o tubarão das telecomunicações.

O título do artigo diz tudo: “Parem de mimar os ricos“.

Buffett não poderia ser mais claro. Usa o valor do que ele próprio paga de imposto de renda e o compara com o que pagam seus subordinados: é ele quem paga menos, proporcionalmente.

 Tudo o que ele diz sobre os Estados Unidos, mais seriamente se poderia dizer sobre o Brasil.

Já tivemos 13 alíquotas diferentes de Imposto de Renda, variando entre zero e 55% da renda, de acordo com seu valor. Chegamos a ter apenas duas e, hoje, são cinco, até 27,5%, no máximo. Os EUA, por exemplo, têm cinco faixas, com alíquota maior de 39,6%. No Reino Unido, são três faixas, de 20% a 40%. A França mantém 12 faixas (5% a 57%), e a China nove faixas (15% a 45%).

Além dos pobres, castigados por um sistema regressivo de impostos, que carrega o preço dos produtos muito mais fortemente que a renda – um estudo do Ipea mostra que os pobres pagam, proporcionalmente, três vezes mais ICMS que os ricos – também a nossa classe média é onerada de forma injusta. A incidência percentual de Imposto de Renda é a mesma para quem ganha R$ 3,7 mil ou R$ 370 mil por mês.

Nos últimos anos, até que se diminuiu essa injustiça, criando faixas mais baixas de tributação para rendas menores (7,5%, para renda até 2.246,75) e uma mínima ampliação (de 25% para 27,5%) para a faixa mais alta, embora o “alta” aqui seja uma piada,, em termos mundiais. Mesmo assim, como você vê na tabela, um imposto de renda baixo, em relação a quase todos os países do mundo.


E do qual os mega-rendimentos, por uma série de artifícios, escapam, enquanto o assalariariado não tem como fugir.

Quem sabe um dia apareçam aqui também grandes empresários e investidores que tenham a coragem de dizer o que o bilionário Buffett?

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

SATCHMO

Louis Armstrong completaria 110 anos no dia 4 de agosto. Apelidado de Satchmo ou Pops, foi um dos maiores trompetistas e cantores de jazz de todos os tempos. Originário de New Orleans, Armstrong teve uma influência fundamental no jazz, mudando o foco da improvisação coletiva para a performance individual. Com sua voz grave, Armstrong também foi um cantor sem igual, demonstrando grande destreza como improvisador, capaz de vocalizar sílabas com maestria como ninguém antes dele.

Louis Armstrong foi um dos primeiros artistas negros americanos verdadeiramente populares, cuja cor da pele ficaria em segundo plano mesmo numa América absurdamente racista. Essa popularidade lhe permitiu ser socialmente aceitável aos WASPs (brancos, anglo-saxões e protestantes), completamente fechados aos negros. Embora Satchmo raramente se manifestasse publicamente sobre questões raciais, ele foi um grande defensor dos direitos civis.

Com ele, o jazz passou a ser datado: AA (Antes de Armstrong)ou BA (Before Armstrong, para os anglo-falantes) e DA (Depois de Armstrong) para nós, ou AA (After Armonstrong)para os gringos.   




















domingo, 14 de agosto de 2011

REBELDES SEM CAUSA?

O jornalista e escritor Darcus Howe
É interessante verificar a percepção da grande mídia sobre os conflitos que estão ocorrendo em Londres e várias cidades da Inglaterra depois que um jovem foi assassinado pela polícia. Trata-se, segundo os jornalões e televisões, de distúrbios promovidos por arruaceiros, “rebeldes sem causa”, jovens que estariam saqueando por saquear, como se não houvesse nenhuma motivação social ou política por trás das manifestações. Se os distúrbios ocorridos nos banlieues (subúrbios) em Paris em 2007 podiam ser atribuídos às agruras sofridas pelos imigrantes na França, os da Inglaterra são classificados como simples “tumultos” porque neles também estão envolvidos não apenas imigrantes, mas jovens ingleses brancos que, supostamente, não teriam do quê reclamar. Como se a razzia social dos anos Thatcher/Blair não tivesse deixado esgarçado o tecido social do Reino Unido. Puro niilismo, portanto. 

Manifestantes ingleses em confronto com  a polícia

Nem a BBC escapou dessa visão preconceituosa e classista. Neste vídeo, uma entrevistadora da emissora pública, Fiona Armstrong, fica furiosa ao perceber que o entrevistado - o escritor, jornalista e militante de direitos humanos Darcus Howe – não tinha a mesma opinião do que ela de condenação aos “tumultos”. Howe diz que, se a polícia e o governo britânico tivessem ouvido os jovens, brancos ou negros, saberia que eles estavam no limite com a atuação arbitrária dos policiais. Em seguida, sempre interrompendo o entrevistado, Fiona diz que o próprio Howe tinha participado de tumultos no passado. “Nunca participei de tumultos. Eu estive em manifestações que terminaram em conflito. Tenha respeito por um velho negro das Antilhas”, disse o jornalista, que nasceu em Trinidad Tobago.

Depois do episódio, bombardeada por protestos, a BBC pediu desculpas ao público pela maneira como a âncora tratou Howe. Será que a Globo ou a Fox News teriam a mesma postura?



sábado, 13 de agosto de 2011

OS MUROS QUE (AINDA) SEPARAM OS POVOS


A construção do Muro de Berlim, em agosto de 1961

O Muro de Berlim, cujas obras começaram há 50 anos, veio abaixo em 1989 e com ele o "socialismo real" no Leste europeu. No entanto, em algumas regiões do planeta cercas e muros com extenso policiamento e alta tecnologia continuam separando pessoas e povos - muitos deles em países ditos "democráticos"


Com informações da Deutsche Welle
O Chipre foi dividido em 1974, como resultado de longos anos de tensões e conflitos sangrentos entre gregos e turcos. A chamada linha verde, que separa as duas partes da ilha, tem cerca de 180 km de comprimento. Ela passa pelo meio da capital comum, Nicósia, que desde a queda do Muro de Berlim é a última capital dividida do mundo.


Desde 2003, a situação está mais tranquila em Nicósia, depois que a Turquia abriu a fronteira para passagens diárias. Mesmo depois da integração do lado grego de Chipre à União Europeia, não há perspectiva para o fim da divisão.

Liberdade só para os capitais
"Muro da vergonha": assim ativistas de direitos humanos chamam a construção que marca a fronteira entre os EUA e o México, uma barreira de 3 mil km de comprimento feita de placas de metal, arame farpado, detectores de movimento e câmeras de infravermelho.

O muro entre México e EUA

Dezenas de milhares de policiais tentam impedir a imigração ilegal. Mas os imigrantes provenientes do México e países da América Central tentam passar mesmo assim, arriscando as próprias vidas.


As fortificações de fronteira os obrigam a entrar cada vez mais no deserto. Cerca de 400 imigrantes morrem a cada ano tentando chegar aos Estados Unidos - uma cifra maior do que a registrada nos 28 anos do Muro de Berlim.


Cerca na entrada da Europa
Ceuta e Melilla fazem parte da Espanha e, portanto, da União Europeia. Mas ambos ficam no continente africano. Esses enclaves do bem-estar são destino de migrantes de toda a África. Cercas de arame farpado, torres de guarda, detectores de movimento, câmeras de infravermelho e guardas armados impedem a entrada ilegal de migrantes africanos.

Os fundos para o financiamento das barreiras foram disponibilizados, em maior parte, no âmbito do Tratado de Schengen da UE. Apesar das medidas de alta segurança, há sempre tentativas de refugiados para passar pela cerca.

Contenção ou discriminação?

O muro que separa Israel da Cisjordânia palestina

Uns o chamam de "muro antiterrorista", outros o veem como o "novo Muro de Berlim". Para se proteger contra ataques terroristas de extremistas palestinos, Israel separou grande parte da Cisjordânia do território israelense com paredes e cercas. No entanto, a barreira de separação avança, em parte, profundamente sobre território palestino, separa agricultores de seus campos e obriga as pessoas a grandes desvios.


De acordo com as autoridades israelenses, a barreira de separação reduziu o número de ataques terroristas. Internacionalmente, esta forma de proteção das fronteiras permanece controversa. O Tribunal Internacional em Haia ressalta, em seu relatório sobre a construção do muro, que a edificação limita muito o direito dos palestinos à autodeterminação.


Coreias, resquício da Guerra Fria
Uma fronteira fortemente equipada, as tropas capitalistas e comunistas face a face e o medo constante de uma escalada de violência. A Coreia do Sul foi, assim como a Alemanha, dividida com o fim da Segunda Guerra Mundial, numa decisão conjunta dos Estados Unidos e da União Soviética. Os coreanos, que até a divisão em 1945 estavam sob ocupação japonesa, não foram consultados.

Até hoje, ambos os lados sofrem as consequências. A fronteira é praticamente impossível de ser transposta. O povo da Coreia do Norte vive isolado, sem poder deixar um país pobre, de regime ditatorial. De vez em quando acontecem confrontos entre os exércitos do sul e do norte. Não há perspectiva para um fim da divisão.


Caxemira, barreira de 500 km
Uma barreira de três metros de altura atravessa mais de 500 quilômetros da região de Caxemira. Com as cercas elétricas e de arame farpado, a Índia quer impedir que terroristas vindos da parte paquistanesa passem a linha de cessar-fogo. A cerca é um problema para o processo de paz entre Índia e Paquistão porque as pessoas na Caxemira temem que a intenção da Índia seja dividir a região para sempre.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

UM BRASILEIRO INJUSTIÇADO

O Marechal do Ar Casimiro Montenegro Filho (1904-2000) é um dos personagens históricos mais esquecidos e injustiçados do Brasil. Pioneiro do Correio Aéreo Nacional (CAN), ele foi o responsável pela criação do CTA (Centro Tecnológico da Aeronáutica, hoje Centro Tecnológico Aeroespacial) e do ITA (Instituto Tecnológico da Aeronáutica), que concebeu baseado na experiência do Massachusetts Institute of Technology (MIT). Numa época em que o Brasil importava quase tudo, Montenegro defendia que o país se convertesse em uma potência aeronáutica mundial.

Para viabilizar esse sonho, o então tenente-coronel Montenegro teve que enfrentar um amigo e colega de longa data, ninguém menos que Eduardo Gomes, contumaz reacionário, apesar de ter participado dos levantes tenentistas de 1922 e 1924 e da Revolução de 1930. Para Montenegro, o CTA/ITA deveria ser um celeiro de cérebros para o país, mas Eduardo Gomes achava que o complexo deveria se converter em um mero centro técnico de apoio e manutenção da FAB. Casimiro venceu a queda de braço e abriu caminho para transformar o CTA/ITA num dos mais respeitados centros mundiais de tecnologia, inovação e conhecimento.

O local escolhido para sediar o CTA/ITA foi São José dos Campos, pela proximidade com a capital. Mas Getúlio Vargas tinha sido derrubado em 1945, antes de assinar o plano de criação do futuro Centro Tecnológico da Aeronáutica-ITA. Segundo Fernando Moraes, autor de uma biografia de Montenegro, o general Eurico Gaspar Dutra, que derrotou o brigadeiro Eduardo Gomes na eleição presidencial de 1946, implicou com o nome do arquiteto que ganhou a concorrência para a construção do CTA: o comunista Oscar Niemeyer. Casimiro Montenegro deu um jeitinho: “O senhor arranje alguém de sua confiança para assinar o contrato em seu lugar com o Ministério da Aeronáutica e o resto é por minha conta”.

Montenegro não caiu na tentação imediatista de implantar ele mesmo a indústria aeronáutica, preparando terreno para que outros pudessem fazê-lo. Seu sonho se materializaria depois de ele ter sido afastado da linha de frente, em 1969, com a fundação da Embraer, empresa nascida de uma costela do CTA/ITA.

Montenegro sofreria nas mãos da ditadura militar instaurada no país em 1964. Ocupando a direção do CTA desde sua criação em 1954, ele resistiu à instauração de uma comissão de inquérito para apurar denúncias e punir alunos e professores do ITA acusados de “subversivos” pela nova ordem. Amigo e colega do brigadeiro Márcio Mello e Souza, comandante do IV Comando Aéreo de São Paulo, Montenegro disse a ele pelo telefone: “Márcio, escute o que eu vou falar. Eu sou da mesma patente que você, colega de turma e um pouco mais velho de idade. De modo que, se você puser os pés aqui no CTA, eu te prendo!” Mesmo assim, tempos depois a comissão foi instalada e puniu professores e alunos. O brigadeiro Eduardo Gomes, nomeado ministro da Aeronáutica por Castello Branco em 1965, exonerou Montenegro da direção do CTA por motivos puramente político-ideológicos.

Montenegro morreu aos 95 anos completamente esquecido. E, com toda essa contribuição sua à indústria aeroespacial brasileira, o brigadeiro Eduardo Gomes é que é o patrono da Aeronáutica...

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

MEMORABILIA - PEDRO NAVA

“Temos dois terrores, a lembrança do passado e o medo do futuro. Pelo menos um, a lembrança do passado, é anulado pela catarse de passá-lo para o papel”
(Pedro Nava)


“O que há de terrível na vida mundana é a perda de tempo – a troca inútil de visita, jantares e almoços de cortesia, as obrigações de missas de sétimo dia, de casamentos, ação de graças, bodas de ouro e prata. Velórios. Tudo isto é motivo de encontros tantas vezes desagradáveis, com outros que não os verdadeiros amigos, sobretudo nas casas cujos anfitriões fazem inevitavelmente ímpares convidando para refeição e pondo juntos, à mesa, pessoas que reciprocamente teriam vontade de se verem - uma no enterro da outra. Isto é o que fez Proust dizer com impaciência e até ferindo os verdadeiros amigos que “ ...l´artiste qui renonce à une heure de travail pour une heure de causerie avec un ami , sait qu´il sacrifie une realité pour quelque chose qui n´existe pas...”

(Pedro Nava, O Círio Perfeito)


Quando morto estiver meu corpo
evitem os inúteis disfarces,
os disfarces com que os vivos,
só por piedade consigo,
procuram apagar no Morto
o grande castigo da Morte.


Não quero caixão de verniz
Nem os ramalhetes distintos,
Os superfinos candelabros
E as discretas decorações.


Eu quero a morte com mau gosto!


(...)


E descubram bem minha cara:
Que a vejam bem os amigos.
Que a não esqueçam os amigos
E ela lance nos seus espíritos
A incerteza, o pavor, o pasmo...


E a cada um leve bem nítida
A idéia da própria morte.


(...)


Meus amigos! tenham pena,
Senão do morto, ao menos
Dos dois sapatos do morto!
Dos seus incríveis, patéticos
Sapatos pretos de verniz.


Olhem bem estes sapatos
E olhai os vossos também.
(Pedro Nava, O Defunto)


terça-feira, 9 de agosto de 2011

OS BRICs SÃO A SALVAÇÃO?

A contínua expansão da demanda dos BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China), mas principalmente dos BICs, pode ser a única saída para a grave crise vivida hoje pelo capitalismo em escala mundial. Ao contrário dos Estados Unidos e da Europa, que depois da inflexão keynesiana para enfrentar a crise de 2008 voltaram a apostar no cassino financeiro globalizado e em seus agentes, os BRICs investiram na economia real e se voltaram para seus mercados internos, retirando milhões de pessoas da pobreza e da miséria. Hoje, os BRICs têm três vezes mais reservas internacionais do que o Grupo dos Sete (G-7: Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, Japão, França, Itália e Canadá) e controlam 70% dos títulos do Tesouro americano em poder de países estrangeiros. E, como vimos, o rebaixamento da nota dos títulos americanos pela S&P derrubou as bolsas no mundo todo, mas não demoveu os investidores de buscar refúgio nos papéis americanos, muito pelo contrário.


Isso mostra que precisamos investir cada vez mais na produção e na inovação tecnológica, direcionando o eixo dinâmico da economia prioritariamente para o mercado interno, de maneira a garantir a melhoria de renda da maioria da população e o aumento de empregos. O Brasil também deve se aprofundar nas relações Sul-Sul, cujo caminho, é bom não esquecer, foi aberto pela diplomacia do atual ministro da Defesa, Celso Amorim - e, ao mesmo tempo, exigir relações de troca mais justas com o maior dos BRICs, a China. E medidas heterodoxas, como o controle de capital, também devem estar na agenda do governo se quisermos sair do furacão.

Keynes

Prebisch

A integração de cada vez mais pessoas no mercado em países como a China e a Índia, que representam 1/3 da humanidade, tem potencial para mover a máquina da economia mundial nos próximos anos. Seria um encontro notável entre lord Keynes, o pai do welfare state, e Raúl Prebisch, o pai da Cepal.     


E não é que a Teoria da Dependência ficou de ponta-cabeça?