sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

OS MITOS E A ORIGEM DA PROPAGANDA POLÍTICA

Jean-Marie Domenach

Um trecho do livro seminal La Propagande Politique (1950), de Jean-Marie Domenach (1922-1997), escritor francês católico de esquerda que lutou contra os nazistas na Resistência. Ele dirigiu a revista Esprit, fundada por Emmnuel Mounier, porta-voz do chamado Movimento Personalista. Durante a Guerra Civil da Argélia, a revista criticou duramente o uso da tortura pelo Exército francês. Hoje Domenach está quase esquecido.

“A propaganda política moderna não é simplesmente o uso pervertido das técnicas de difusão destinadas às massas. Ela precedeu a invenção da maior parte dessas técnicas: seu aparecimento coincide com o dos grandes mitos que arrastam um povo e o galvanizam em torno de uma visão comum do futuro.

No século XVIII, na França, desabrochou o mito revolucionário; depois, na metade do XIX, verificou-se a cristalização, lenta e perturbadora, do mito socialista e pro1etário. O primeiro, depois de ter explodido, tal qual uma série de bombas de efeito retardado nos países europeus, progressivamente perdeu sua virulência até o fim do século XIX, quando ainda animava a vivência da III República; antes de passar ao estágio de culto histórico, chegou a conhecer o rejuvenescimento com a questão Dreyfus; quanto ao
segundo, depois de haver suscitado grandes lutas civis, a Comuna em junho de 1848 e inúmeras greves, foi empolgado pelo marxismo e, mais tarde, pelo leninismo; hoje movimenta massas gigantescas, no Extremo Oriente.

A força com que esses dois grandes mitos revolucionários se espraiaram pelo mundo serviu de ligação aos pensadores políticos. Compreenderam a ajuda que poderia advir dessas representações motrizes, cujo conteúdo, a um só tempo ideológico e sentimental, atua diretamente na alma das multidões. Georges Sorel, antes de qualquer outro, discerniu perfeitamente a insipidez que ameaçava uma social-democracia que se tornara verbalista e parlamentar, propondo, como remédio, que se recorresse a mitos violentos, capazes de aliciar os trabalhadores na Revolução: “Enquanto o socialismo permanece uma doutrina inteiramente exposta em palavras, é muito fácil desviá-lo no sentido de um meio-termo; essa transformação, porém, é manifestamente impossível quando se introduz o mito da greve geral, que comporta uma revolução absoluta”, disse Sorel. Foram as reflexões de Sorel que, exploradas em um sentido inteiramente diverso por Mussolini, o impeliram a construir o fascismo na base de mitos nacionais de outrora (grandeza da antiga Roma) e de mitos conquistadores do futuro (exaltação da força, da guerra e da vocação imperial da Itália). Doravante, a revivescência dos mitos do passado e a criação dos mitos do futuro caracterizam as propagandas fascistas, seja a de Hitler, de Mussolini ou de Franco. Ao passo que, na Itália ou na Espanha, os mitos assim fabricados permanecem argumentos retóricos e conseguem inflamar apenas uma minoria de fanáticos, logram profundo eco nas grandes massas alemãs.

Nessa primeira metade do século XX, discerne-se por toda parte na Europa uma reação contra o abuso do pensamento racionalista e liberal do século XVIII francês. Em verdade, tal pensamento tornou-se o apanágio de uma elite. Entram em cena massas que não se reconhecem na sociedade libera1, sem os quadros naturais nem os valores comuns, que a burguesia capitalista oferece, e ainda menos no funcionamento descolorido e complexo do regime parlamentar. O tédio não é apenas a chave stendhaliana de uma psicologia individual; é decisivo fator da psicologia coletiva moderna. As massas aborrecem-se. Isso é evidente na França do século XIX, depois da queda de Napoleão. O segundo Napoleão aposta e ganha nesta carta. Ao sonho de glória, contudo, soma-se o sonho de felicidade das massas sofredoras, e o sonho de comunidade das massas alienadas. O socialismo apresenta-se como “ideal”, como “mística”, antes de ser filosofia e, com Marx, doutrina de ação; assim permanecerá, em uma proporção considerável. Gustave Le Bon sublinhou “a que ponto a imprecisão das doutrinas socialistas é um dos elementos de seu êxito”. Dessa esperança de libertação, dessa ânsia de fraternidade sempre vítima de decepções e, por vezes, afogada em sangue, os fascismos vão-se apoderar, desviando-as em proveito próprio. Um mundo privado de alegria é entregue ao império dos mitos A função desses é de aproximar o desejo obscuro, informulado, de sua satisfação: entre aquele e essa não subsiste mais que diminuto intervalo que a luta e o sacrifício preencherão; essa distância já fora abolida pelas imagens, pelos cantos, pelos discursos, pelas bandeiras desfraldadas e desfiles ameaçadores: o alvo está quase ao alcance de nossas mãos e nos regozijamos de antemão pela felicidade que nos proporciona; milhões de homens “vivem” a terra prometida graças a essa exaltação poética da multidão, que decuplica a fé, antecipando sem dores o futuro. O mito é uma participação antecipada, que preenche um momento e reaviva o desejo de felicidade e o instinto de potência; o mito é indissoluvelmente promessa e comunhão.”

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