terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

CRÍA CUERVOS

Benedictus XVI

Uma nota do ano passado do L’Osservatore Romano, órgão oficial da Santa Sé, disse que o papa Bento XVI era “um pastor cercado de lobos”. O que o jornal não disse foi que, como cardeal e, depois, papa, Ratzinger ajudou a alimentar a matilha. Bento XVI foi o herdeiro e continuador da mais exitosa “reação termidoriana” de que se tem notícia na Igreja Católia – o pontificado de João Paulo II. Por reação termidoriana entende-se um movimento de reação sistemática a um processo revolucionário, como aconteceu na França depois de 1794, com a queda dos jacobinos e a ascensão do Diretório.
Papa João XXIII

Quando o cardeal Giuseppe Roncali foi eleito papa João XXIII em 1958, aos 77 anos, acreditava-se que ele seria um pontífice transitório, depois do extenso, absolutista e reacionário reinado de Pio XII. No entanto, em menos de cinco anos, João XXIII provocou uma verdadeira revolução na Igreja Católica ao convocar o Concílio Vaticano II (1962-1965), que promoveu um aggiornamento da instituição com a modernidade, suplantando a oposição sistemática da Santa Sé a tudo o que veio depois do Iluminismo. Um dos principais frutos do Vaticano II foi a Teologia da Libertação, com o engajamento do clero dos países do Terceiro Mundo com as forças que lutavam pela libertação nacional e pela justiça social. Paulo VI, sucessor de João XXIII, seguiu timidamente os passos de Roncali até sua morte, em 1978.

João Paulo II e Javier Echeverría, da Opus Dei
Mas Karol Wojtyla, o papa polonês, empreendeu uma vigorosa marcha à ré e, durante seu pontificado (1978-2005), destruiu pacientemente tudo o que o Vaticano II erigira. Enquanto perseguia bispos progressistas, João Paulo II protegia mafiosos, como o cardeal Marcinkus, envolvido com o escândalo do Banco do Vaticano, e reforçava reacionários como Escrivá Balaguer, da Opus Dei, que foi canonizado. O resultado foi um esvaziamento nunca visto pela Igreja, agravado com o escândalo de milhares de denúncias de pedofilia contra o clero, a maioria acobertada pelo Vaticano.  

João Paulo II e Marcial Maciel, dos Legionários de Cristo
O papa João Paulo II não era apenas um superstar midiático, mas um instrumento da Cúria e dos elementos mais reacionários da Igreja Católica. Ratzinger, embora comungando os ideais tridentinos de seus antecessor, encontrou ferrenha oposição à tímida limpeza que tentou empreender. Afinal, enquanto João Paulo II esteve vivo, a ordem foi proteger as “ovelhas desgarradas”. Um exemplo típico foi o caso dos Legionários de Cristo: Marcial Maciel, fundador do movimento, foi condenado nos EUA por pedofilia, mas elevado ao altar de assessor de João Paulo II. Bento XVI conseguiu afastá-lo. Mas não teve forças ou vontade política para ameaçar o poder da Cúria e dos movimentos integristas.   

“A Cúria forjada nos tempos de Wojtyla era uma reunião atrabiliária do pior de cada diocese, desde evasores fiscais passando por contrarrevolucionários latino-americanos e por integristas da pior espécie. Essa Cúria digna de O Chefão III sempre viu com maus olhos as tentativas de Ratzinger de fazer uma limpeza de fundo, enquanto os movimentos mais pujantes e lucrativos, como os Legionários, a Opus Dei e a Comunhão e Libertação, torpedeavam qualquer tentativa de regeneração”, diz o El Pais.              

Segundo El País, Ratzinger, intelectual e pouco afeito às tarefas de governo, mostrou-se um pontífice débil. O resultado é que, nestes sete anos, a máfia do Vaticano teve êxito em impedir a renovação da Cúria e a modernização da Itália, especialmente nos setores de finanças e informação, impérios onde mais poder e interesses têm a Opus Dei e a Comunhão e Libertação – os dois movimentos, ao lado dos Legionários – que mais prosperaram sob o pontificado de Wojtyla. “O papado de Ratzinger foi um rotundo fracasso [...] Os lobos ganharam a partida, e sua renúncia [...] o situa como um pastor derrotado que, farto de lutar, se retira à clausura antes de ser devorado pelos abutres. Que seja o primeiro caso em quase 600 anos diz muito sobre o nível de iniqüidade com a qual conviveu. E que até agora isso não tenha vazado diz tudo sobre sua solidão”, conclui o El Pais.

Como dizia aquela máxima espanhola: “cría cuervos y te sacarán los ojos”.     

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