sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

DO SPLEEN ÀS TRINCHEIRAS

La cità che sale (1910), de Umberto Boccioni

Outro pensador pouco citado, mas um analista arguto do mal-estar ocidental, George Steiner (1929), que, há mais de 40 anos, escreveu O Castelo do Barba Azul. Trechos do livro:   

“O colapso das esperanças revolucionárias após 1815, a brutal desaceleração do tempo e das expectativas radicais deixaram um reservatório de energias turbulentas, não realizadas. A geração romântica tinha inveja de seus pais. Os “anti-heróis”, os dândis assolados pelo spleen (melancolia) no mundo de Sthendal, Musset, Byron e Púshkin movimentam-se pela cidade burguesa como condottieri desempregados. Ou, pior, como condottieri aposentados antes da primeira batalha, com uma pensão miserável. Mais ainda, a própria cidade, outrora festiva com os sinos da revolução, tinha-se tornado uma prisão. 

A conjunção do extermo dinamismo técnico-econômico com larga medida de imobilismo social imposto, conjunção sobre a qual foi construído um século de civilização liberal burguesa, preparou uma mistura explosiva. Provocou na vida da arte e da inteligência certas respostas específicas e, no fim das contas, destrutivas. Estas, segundo me parece, constituem o significado do romantismo. É a partir delas que crescerá a nostalgia pelo desastre.     
          
" [...] a descrição que Freud faz (em O mal-estar da civilização) das tensões que as maneiras civilizadas impõem aos instintos humanos centrais e não realizados continua válida. Assim como as insinuações, abundantes na literatura psicanalítica (que é, por si mesma, pós-darwiniana), de que há nas interrelações humanas uma inelutável pulsão à guerra, a uma afirmação suprema da identidade à custa da destruição mútua [...]. 

“[...] por volta de 1900, havia uma propensão terrível, uma sede mesmo, por aquilo que Yeats viria a chamar ‘maré turva de sangue’. Exteriormente serena e brilhante, La BelleÉpoque estava demasiado madura, de um modo ameaçador. Sob a superfície do jardim, compulsões anárquicas estavam chegando a um ponto crítico. Notem-se as imagens proféticas de perigo subterrâneo, de influências destrutivas prontas a levantar-se dos esgotos e dos porões que atormentavam a imaginação literária desde o tempo de Poe e do Les misérables até o Princess Casamassima de Henry James. A corrida armamentista e a crescente febre do nacionalismo europeu eram, acho, apenas sintomas desse mal-estar intrínseco. O intelecto e o sentimento foram, literalmente, fascinados pela perspectiva de um fogo purificador."

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