quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

JOÃO PAULO I: A PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR

Albino Luciani, o papa João Paulo I
A mídia começa a especular sobre os reais motivos pelos quais Joseph Ratzinger resolveu renunciar ao cargo de Sumo Pontífice. Todos falam que Bento XVI tomou a drástica decisão tanto em função da idade avançada quanto da constatação de que perdera o controle sobre a Cúria, o “Politburo” do Vaticano. É evidente que uma instituição como a Igreja Católica, com dois mil anos de estrada, acumula muitas histórias de lutas pelo poder, conspirações, assassinatos, golpes e otras cositas más, que fazem a delícia dos ficcionistas. E, convenhamos, a realidade muitas vezes supera a ficção.

Veja-se o caso de João Paulo I (Albino Luciano), o “papa sorriso”, cujo pontificado durou apenas 33 dias. Eleito em 26 de agosto de 1978, 20 dias depois da morte de Paulo VI, o novo pontífice de cara recusou a cerimônia formal de coroação, abdicando da tiara (coroa pontificial). Jovem para os padrões do Vaticano (tinha 64 anos), ele se mostrou disposto a fazer mudanças profundas no funcionamento da Santa Sé. Luciani teria dito a assessores próximos que iria rever a estrutura da Cúria, reforçando a colegialidade dos bispos, e investigar o Instituto para Obras Religiosas (IOR), principal financiador do Banco Ambrosiano, e que se envolveu em atividades com a máfia e a loja maçônica P-2 (Propaganda Due), de Lício Gelli.

O arcebispo Marcinkus e seu protetor, João Paulo II
Para tanto, o papa tinha que afastar o poderoso cardeal Paul Marcinkus, presidente do IOR, conhecido pela alcunha de “banqueiro de Deus”. O envolvimento da máfia e da P-2 nas finanças do IOR, via Banco Ambrosiano, transformou-se numa rede de intrigas, com ações fraudulentas e ilegais e assassinatos. Entre essas ações do Ambrosiano estavam o financiamento de partidos políticos conservadores na Itália e de rebeldes antissandinistas da Nicarágua e do sindicato polonês Solidariedade. O papa também teria uma lista, elaborada pelo jornalista Mino Pecorelli, membro arrependido da P-2, que vinculava o secretário de Estado do Vaticano, Jean Villot, e o cardeal Marcinkus, à loja maçônica de Lício Gelli. Mino Pecorelli foi assassinado em 1979, Roberto Calvi, presidente do Ambrosiano, seria encontrado enforcado numa ponte em Londres em 1982 e o banco iria à falência naquele mesmo ano.

O banqueiro Roberto Calvi, presidente do Banco Ambrosiano
No dia 29 de setembro de 1978, João Paulo I foi encontrado morto em seu quarto. Segundo o Vaticano, a causa da morte teria sido um infarto agudo no miocárdio. Havia a suspeita de que o papa tinha tomado, inadvertidamente, um vasodilatador, mas o Vaticano se negou a autorizar uma autópsia do corpo. E as contradições começaram a se acumular: a Santa Sé afirmou que o pontífice tinha uma saúde frágil e debilitada, o que posteriormente seria desmentido pelo seu médico, dr. Antonio Da Ros, e pelo secretário de Luciani, Diego Lorenzo; o corpo do papa não foi encontrado pelo bispo John Magge, como afirmara a nota do Vaticano, mas pela irmã Vicenza Taffarel, que foi proibida pela Cúria de contar a verdade. É claro que, com tantos mistérios, várias teorias conspiratórias ganharam corpo. A principal foi elaborada pelo jornalista David Yallop, que escreveu um livro (Em nome de Deus) em que afirmava categoricamente que João Paulo I tinha sido assassinado pela Cúria.

Em relação à morte do papa, o cardeal brasileiro Aloísio Lorscheider teve a coragem de declarar: “As suspeitas continuam no nosso coração como uma sombra amarga, como uma pergunta à qual não foi dada resposta”. Mesmo depois de tanto tempo, o Vaticano ainda silencia sobre a morte de João Paulo I. O fato é que um novo Conclave elegeu como papa o polonês Karol Wojtyla. Este, em um gesto de aparente homenagem ao antecessor, adotou o nome de João Paulo II. Por outro lado, agiu firmemente no sentido de destruir a obra do papa anterior, encerrando as investigações sobre o Ambrosiano, mantendo intactas as estruturas eclesiásticas da cúpula do Vaticano e protegendo o arcebispo Paul Marcinkus, mesmo quando a Justiça americana mandou prendê-lo.

Não é preciso ser adepto de teorias conspiratórias, como David Yallop, nem tampouco ficcionista, como Dan Brown, para supor que a morte de João Paulo I não foi de causas naturais como o Vaticano quer fazer crer. Se algum dia, por algum milagre, abrirem os arquivos do Vaticano, saberemos...   
            

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