terça-feira, 5 de junho de 2012

RFK: UMA TRAJETÓRIA INSÓLITA


Em tempos de escassez de liberais – no sentido americano do termo, isto é, social-democrata – nos EUA, vale a pena lembrar a trajetória de Robert Francis Kennedy, o irmão mais novo de John Fitzgerald Kennedy, assassinado em 6 de junho de 1968. Foi uma trajetória insólita, ainda mais para um americano. Fiel às posições anticomunistas do pai, “Bobby”, como era conhecido, começou sua carreira política assessorando Joseph McCarthy, senador de extrema-direita que presidia o famigerado Comitê de Atividades Antiamericanas do Congresso. Bobby foi um dos mais dedicados auxiliares do senador que caçava bruxas por todos os lados. Como conselheiro do comitê que investigava as atividades criminosas de sindicatos, Bobby peitou o presidente do sindicado dos caminhoneiros (Teamsters), o mafioso Jimmy Hoffa. Em 1961, quando foi nomeado Procurador Geral (equivalente a ministro da Justiça) pelo presidente John Kennedy, Bobby ainda era marcado por uma postura fundamentalmente conservadora.

Em termos políticos, aliás, John Kennedy era tão obcecado pelo anticomunismo quanto Eisenhower ou Nixon. O presidente democrata não só aprovou operações secretas contra Cuba, como a invasão da Baía dos Porcos em 1961, como iniciou a escalada das tropas americanas no Vietnã e a corrida nuclear - apesar das bobagens em contrário ditas no filme JKF, de Oliver Stone. John e Bobby também aprovaram diversas ações contra Cuba, como a Operação Mongoose, destinada a provocar a derrubada do regime castrista.

Mas Bobby Kennedy fez a virada política decisiva do clã. E esta se deu por causa do pastor negro Martin Luther King, líder da luta pelos direitos civis. Bobby, que inicialmente mandara o FBI espionar King por suspeitar que seu movimento estava infiltrado por comunistas, passou a defendê-lo na luta contra os racistas do sul dos Estados Unidos. O procurador se envolveu a tal ponto que ajudou o governo a preparar a Civil Rights Act (Lei dos Direitos Civis), que, entre outras coisas, acabava com a discriminação racial que perdurava no sul desde a Guerra Civil. Muito criticada no Congresso, a lei foi aprovada em 1964, sob o impacto do assassinato de John Kennedy.

Eleito senador por Nova York em 1964, Bobby mergulhou na campanha pelos direitos civis e na defesa dos marginalizados, principalmente negros e pobres das grandes cidades. Fez críticas duras ao apartheid (regime de supremacia branca então vigente na África do Sul), coisa que poucos políticos, à época, tinham coragem. O senador também se tornou um crítico ácido da Guerra do Vietnã, indispondo-se cada vez mais com o presidente Lyndon Johnson. Naquele ano de 1968, lançou-se pré-candidato à Casa Branca pelo Partido Democrata, conquistando o apoio de parte da juventude que se rebelava contra o establishment. Foi assassinado no Hotel Ambassador, em Los Angeles, quando comemorava a vitória nas prévias da Califórnia. Seu irmão caçula, o senador Edward (Teddy) Kennedy, foi o mais "esquerdista" dos Kennedys, tornando-se o principal crítico da ajuda militar americana a ditadores como Pinochet. Depois dele, os democratas foram cada vez mais para o centro do espectro político.

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