terça-feira, 5 de junho de 2012

MONSTRUOSA BANALIDADE


Eichmann em Jerusalém
Em 31 de maio fez 50 anos que foi enforcado em Israel o nazista Adolf Eichmann, principal operador do extermínio dos judeus em campos da Europa do Leste. Capturado em Buenos Aires por um comando argentino em 1960, Eichmann foi julgado em Jerusalém, condenado e executado. A filósofa judia de origem alemã Hannah Arendt assistiu ao processo e fez reportagens para o New Yorker, depois transformados em livro (Eichmann em Jerusalém).

Suas observações críticas incomodaram o establishment israelense e judaico, mas forneceram elementos essenciais ao debate sobre a natureza do nazismo. As reflexões de Arendt sobre a pessoa de Eichmann e sobre o Holocausto são perturbadoras. Em Eichmann em Jerusalém ela afasta-se do conceito de “mal radical” – elaborado em As Origens do Totalitarismo –, e esboça outro bem diferente, o da “banalidade do mal”, pelo qual crimes hediondos podem ser cometidos por burocratas obedientes. Para Arendt, Eichmann não era sádico nem demoníaco, antes um diligente cumpridor dos deveres e das leis – uma pessoa “normal”, em suma. “No Terceiro Reich, o mal tinha perdido aquela característica que o torna reconhecível para a maior parte das pessoas – a característica de ser uma tentação”.

Trechos de Eichmann em Jerusalém:

“De uma vida monótona, sem significação e conseqüência, o vento o soprara para as páginas da História, da forma como ele a entendia, isto é, para um movimento que continuava sempre a se desenvolver, e no qual alguém como ele podia começar do nada e ainda assim fazer carreira."
A filósofa Hannah Arendt

"[…] Não entrou no Partido por convicção nem jamais se deixou convencer por ele [...] foi como ser engolido pelo Partido contra todas as expectativas e sem decisão prévia. Aconteceu muito depressa e repentinamente. Ele jamais conheceu o programa do Partido [...] Kaltenbrunner disse para ele: Por que não se filia à SS: E ele respondeu: Por que não?”

“Eichmann era um homem que não parava para refletir. Ele não tinha perplexidades e nem  perguntas, apenas atuava, obedecia. Seu desejo [era] de agir corretamente, de ser um funcionário eficiente, de ser aceito e reconhecido dentro da hierarquia.”

“Sem dúvida, os juízes tiveram razão quando disseram ao acusado que tudo o que dissera era 'conversa vazia' – só que eles pensaram que o vazio era fingido, e que o acusado queria encobrir outros pensamentos, que embora hediondos, não seriam vazios. Essa idéia parece ter sido refutada pela incrível coerência com que Eichmann, apesar de sua má memória, repetia palavra por palavra as mesmas frases feitas e clichês semi-inventados (quando conseguia fazer uma frase própria, e a repetia até transformá-la em clichê) toda vez que se referia a um incidente ou acontecimento que achava importante." 

O Obersturmbannführer Eichmann
(…) o que ele dizia era sempre a mesma coisa, expressa com as mesmas palavras. Quanto mais se ouvia Eichmann, mais óbvio ficava que sua incapacidade de falar estava intimamente relacionada com sua incapacidade de pensar…”

“O fator mais potente no apaziguamento da consciência de Eichmann foi não ter conseguido encontrar ninguém, absolutamente ninguém, que fosse de fato contra a Solução Final.”

“Seus atos eram de um cidadão respeitador das leis. Ele cumpria o seu dever, como repetia insistentemente à polícia e à corte; ele não só obedecia ordens, ele também obedecia à lei”. 

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