quarta-feira, 6 de junho de 2012

COLEGUINHAS ALCAGUETES


O programa Dossiê Globonews, do jornalista Geneton Moraes Neto, levou ao ar uma reveladora entrevista de Paulo Egídio Martins, ex-governador biônico de São Paulo (1975-1979). Na entrevista, o ex-governador revela bastidores da luta pelo poder entre facções militares da ditadura que levou ao assassinato do jornalista Vladimir Herzog nas dependências do II Exército em 25 de outubro de 1975. Egídio diz que está disposto a depor na Comissão da Verdade. Este trecho da entrevista me pareceu revelador:   

Geneton Moraes Neto – O senhor fez uma reunião com o então secretário de  Cultura, José Mindlin; com o coronel Erasmo Dias, secretário de segurança; com o diretor do DOPS, Romeu Tuma e com o representante do SNI, coronel Paiva, para discutir a nomeação do jornalista Vladimir Herzog para a TV Cultura. Qual foi o resultado da reunião?

Paulo Egídio Martins, ex-governador biônico de São Paulo
Paulo Egydio Martins – “Quem me trouxe o problema foi o secretário de Cultura, meu amigo José Mindlin, que disse: ‘Estou recebendo acusações de ter escolhido, com muitas dificuldades, um responsável pelo Jornal da Cultura. E esse indivíduo que escolhi agora está sendo acusado – por uma imprensa marrom – de ser comunista’. Eu não tinha a menor idéia, cá entre nós. Se a Globo tinha cinqüenta por cento de audiência, o Jornal da Cultura deveria ter zero vírgula zero um de audiência. Quem era o diretor de jornal da TV Cultura era algo que não estava na minha cabeça –  de jeito nenhum. Se era comunista, se não era comunista….Virei para Mindlin: ‘O problema não é meu. É seu. Você resolve como quiser’. E Mindlin: ‘Isso tem me causado incômodo. Preciso que você verifique se procede alguma coisa ou não’.  Numa reunião, deixei instruções específicas : eu queria ter  informações do Serviço Secreto do Exército , Marinha e Aeronáutica e do SNI sobre se alguma coisa constava sobre aquele diretor de jornal da TV Cultura – de quem eu nunca ouvido o nome antes – , chamado Vladimir Herzog. Passaram-se dez, quinze dias. Houve outra reunião, em que as mesmas pessoas se reportaram a mim: ‘Nós levantamos tudo. Nada consta, senhor governador’. Eu disse: ‘Mindlin, veja a resposta: se nada consta, você fica livre para decidir o que quiser. Já cumprimos nossa obrigação de verificar se procedia uma acusação ou não. Ficou provado que não procede. Você, agora, aja como quiser agir. Quer manter, mantenha. Não quer manter, não mantém. Após esse incidente, houve a determinação se ele comparecer ao DOI-CODI, onde acabou assassinado’”.

Bem, o que chama a atenção nessa revelação tardia de Paulo Egídio Martins é que quem alertou a repressão sobre a militância de Herzog no PCB não foram os serviços de inteligência, mas jornalistas dedo-duros. Havia um crápula notório, de nome Cláudio Marques, diretor do Diário Comércio e Indústria e colunista nos jornais dominicais Shopping News e City News. Além disso, ele ocupava 10 miutos diários na TV Bandeirantes de São Paulo, patrocinados pela Construtora Adolpho Lindenberg. O dono dessa construtora era Adolpho Lindenberg, que também era diretor da TFP (Tradição, Família e Propriedade), organização católica ultramontana que combatia os setores progressistas da Igreja e via comunistas por todo lado.         

Em 1975, Marques usou sua coluna várias vezes para delatar colegas jornalistas, principalmente Vladimir Herzog. Uma delas:

O jornalista Vladimir Herzog
“A TV Educativa continua uma nau sem rumo. Repercutindo – pessimamente – o documentário exibido pelo Canal 2, fazendo apologia do Vietcong. Eu acho que o pessoal do PC da TV Cultura pensa que isso virou um fio.” (Shopping News, 7/8/75).

O problema é que não era apenas a “mídia marrom” que dedurava. Outro jornalista que aderiu à campanha de delação iniciada por Cláudio Marques era um medalhão do Jornal da Tarde e do Estadão, Lenildo Tabosa Pessoa.

No JT de 23/9/75 ele escreveu:
“A infiltração da esquerda contestatória no sistema e na democracia em vários escalões só não vê quem é conivente e burro. O caso da TV VietCultura (uma referência à TV Cultura) extrapolou. E muito...”
(Lenildo Tabosa Pessoa, Uma Questão de Horário, JT, 23/9/75).

A adesão dos jornalões foi fundamental para o golpe de 1964 e para a “legitimação” ideológica da ditadura perante amplos setores da classe média. E o “mau caratismo” de alguns coleguinhas dedo-duros ajudou a repressão a prender, torturar e matar muitos que se opunham ao regime.

A Comissão da Verdade vai ter muito trabalho.



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