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quarta-feira, 15 de junho de 2011

FICÇÕES DA ETERNIDADE


Há 25 anos, morria em Genebra o escritor argentino Jorge Luis Borges, um dos maiores gênios literários de língua espanhola – jamais contemplado com um Nobel de Literatura. Sua obra, segundo Bella Jozsef, abrange o “caos que governa o mundo e o caráter de irrealidade em toda a literatura”. Abaixo, selecionei trechos de contos de dois de seus livros (Ficções e o Aleph).

“Ser imortal é insignificante; com exceção do homem, todas as criaturas osão, pois ignoram a morte; o divino, o terrível, o incompreensível é saber-se imortal. Tenho notado que, apesar das religiões, essa convicção é raríssima. Israelitas, cristãos e muçulmanos professam a imortalidade, mas a veneração que tributam ao primeiro século prova que só crêem nele, já que destinam todos os demais, em número infinito, a premiá-lo ou a castigá-lo. Mais razoável me parece a roda de certas religiões do Industão; nessa roda, que não tem princípio nem fim, cada vida é efeito da anterior e gera a seguinte, mas nenhuma determina o conjunto… Doutrinada num exercício de séculos, a república de homens imortais atingira a perfeição da tolerância e quase do desdém. Sabia que em um prazo infinito ocorrem a todo homem todas as coisas. Por suas passadas ou futuras virtudes, todo homem é credor de toda bondade, mas também de toda traição, por suas infâmias do passado ou do futuro. Assim como nos jogos de azar, os números pares e os números ímpares tendem ao equilíbrio, assim também se anulam e se corrigem o talento e a estupidez, e talvez o rústico poema de Cid seja o contrapeso exigido por um único epíteto das Éclogas ou por uma sentença de Heráclito. O pensamento mais fugaz obedece a um desenho invisível e pode coroar, ou inaugurar, uma forma secreta. Sei dos que praticavam o mal para que nos séculos futuros resultasse o bem, ou tivesse resultado nos já pretéritos… Encarados assim, todos os nossos atos são justos, mas também são indiferentes. Não há méritos morais ou intelectuais. Homero compôs a Odisséia; postulado um prazo infinito, com infinitas circunstâncias e mudanças, o impossível seria não compor, sequer uma vez, a Odisséia. Ninguém é alguém, um só homem imortal é todos os homens. Como Cornélio Agripa, sou deus, sou herói, sou filósofo, sou demônio e sou mundo, o que é uma fatigante maneira de dizer que não sou.”
Jorge Luis Borges, O Imortal, in O Aleph (1949)

Judas, de Leonardo da Vinci
 “Não uma coisa, todas as coisas que a tradição atribui a Judas Iscariotes são falsas. A primeira edição de Kristus och Judas leva esta categórica epígrafe, cujo sentido, anos depois, dilataria monstruosamente o próprio Nils Runeberg: Não uma coisa, todas as coisas que a tradição atribui a Judas Iscariotes são falsas (De Quincey, 1857). Precedido por algum alemão, De Quincey especulou que Judas entregou a Jesus Cristo a fim de forçá-lo a declarar a sua divindade e acender uma vasta rebelião contra o jugo de Roma; Runeberg sugere uma justificação de índole metafísica. Habilmente, começa por destacar a superfluidade do ato de Judas. Observa (como Robertson) que para identificar um professor que pregava diariamente na sinagoga e que operava milagres diante de concursos de milhares de homens não se requer a traição de um apóstolo. Isso, no entanto, ocorreu. Supor um erro na Escritura é intolerável; não menos intolerável é admitir um acontecimento casual no mais precioso acontecimento da história do mundo. Portanto a traição de Judas não foi casual: foi um ato prefixado que tem seu lugar misterioso na economia da redenção. Prossegue Runeberg: o Verbo, quando foi feito carne, passou da ubiqüidade ao espaço, da eternidade à história, da bem-aventurança sem limites à mutação e à carne; para corresponder a tal sacrifício era necessário que um homem, representando todos os homens, fizesse um sacrifício condigno. Judas Iscariotes foi esse homem. Judas, único entre os apóstolos, intuiu a secreta divindade e o terrível propósito de Jesus. O verbo havia se rebaixado a mortal; Judas, discípulo do Verbo, podia rebaixar-se a delator (o pior delito que a infâmia suporta) e ser hóspede do fogo que não se apaga. A ordem inferior é um espelho da ordem superior; as formas da terra correspondem às formas do céu; as manchas da pele são um mapa das incorruptíveis constelações; Judas refletiu de algum modo a Jesus. Daí os trinta dinheiros e o beijo; daí a morte voluntária, para merecer ainda mais a reprovação. Assim elucidou Nils Runeberg o enigma de Judas.”


[...]
O Beijo de Judas, de Caravaggio

“O asceta, para maior glória de Deus, envilece e mortifica a carne; Judas fez o mesmo com o espírito. Renunciou à honra, ao bem, à paz, ao reino dos céus, como outros, menos heroicamente, ao prazer. Premeditou com lucidez terrível suas culpas. Do adultério costumam participar a ternura e a abnegação; do homicídio, a coragem; das profanações e da blasfêmia, certo fulgor satânico. Judas elegeu aquelas culpas que não são visitadas por nenhuma virtude: o abuso de confiança (João 12:6) e a delação. Trabalhou com gigantesca humildade, creu-se indigno de ser bom. Paulo escreveu: Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor (1 Coríntios 1:31); Judas buscou o inferno, porque a felicidade do Senhor lhe bastava. Pensou que a felicidade, como o bem, é um atributo divino que não devem usurpar os homens. Ele estava no mundo e o mundo foi feito por intermédio dele, mas o mundo não o conheceu.”
Jorge Luis Borges, Três versões de Judas, in Ficções (1944)



“Devo a conjunção de um espelho e de uma enciclopédia o descobrimento de Uqbar. O espelho inquietava o fundo de um corredor numa quinta da Rua Gaona, em Ramo Mejía; a enciclopédia falazmente se chama The Anglo-American Cyclopedia (New York, 1917) e é uma reimpressão literal, mas também tardia, da Encyclopedia Britannica de 1902. O acontecimento ocorreu faz uns cinco anos. Bioy Casares jantara comigo naquela noite e demorou-nos uma vasta polêmica sobre a elaboração de um romance na primeira pessoa, cujo narrador omitisse ou desfigurasse os fatos e incorresse em diversas contradições, que permitissem a poucos leitores - a muito poucos leitores - a adivinhação de uma realidade atroz ou banal. Do fundo remoto do corredor, o espelho nos espreitava. Descobrimos (na noite alta esta descoberta é inevitável) que os espelhos têm algo de monstruoso. Então Bioy Casares recordou que um dos heresiarcas de Uqbar declarara que os espelhos e a cópula são abomináveis, porque multiplicam o número de homens. Perguntei-lhe a origem dessa memorável sentença e ele me respondeu que The Anglo-American Cyclopedia a consignava, em seu artigo sobre Uqbar. A quinta (que havíamos alugado mobiliada) possuía um exemplar dessa obra. Nas últimas páginas do volume XLVI achamos um artigo sobre Upsala; nas primeiras do XLVII, um sobre Ural-Altaic Languages, mas nem uma palavra a respeito de Uqbar. Bioy, um pouco perturbado, consultou os volumes do índice. Esgotou em vão todas as lições imagináveis: Ukbar, Ucbar, Ooqbar, Ouqbahr... Antes de sair, explicou-me que era uma região do Iraque ou da Ásia menor. Confesso que assenti com certo mal-estar. Conjeturei que esse país indocumentado e esse heresiarca anônimo eram uma ficção improvisada pela modéstia de Bioy para justificar um frase. O exame estéril de um dos Atlas de Justus Perthes fortaleceu minha dúvida.

No dia seguinte, Bioy me telefonou de Buenos Aires. Disse-me que tinha à vista o artigo sobre Uqbar, no volume XLVI da Enciclopédia. Não constava o nome do heresiarca, mas sim a notícia de sua doutrina, formulada em palavras quase idênticas às repetidas por ele, ainda que - talvez - literariamente inferiores. Ele recordara: Copulation and mirrors are abominable. O texto da Enciclopédia dizia: Para um desses gnósticos, o universo visível era uma ilusão ou (mais precisamente) um sofisma. Os espelhos e a paternidade são abomináveis (mirrors and fatherhood are abominable) porque o multiplicam e o divulgam. Eu lhe disse, sem faltar à verdade, que gostaria de ver esse artigo. Em poucos dias ele o trouxe. O que me surpreendeu, porque os escrupulosos índices cartográficos da Erdkunde de Ritter ignoravam completamente o nome de Uqbar.”
Jorge Luis Borges, Tlön, Uqbar, Orbis Tertius, in Ficções (1944)




DEVAGAR COM O ANDOR...


Pela primeira vez (“nunca antes na história desse país”...), os investidores internacionais vêem mais risco de calote nos Estados Unidos do que no Brasil. O Credit Default Swap (CDS) de um ano – instrumento de proteção contra o risco de um devedor não honrar seus compromissos – do Brasil atingiu 41,2 pontos-base, contra 49,7 pontos-base do CDS norte-americano. Antes que os ufanistas mais afoitos batam no peito, seria interessante lembrar que: a) os papéis da dívida pública americana, que ancoram a economia mundial, estão se tornando voláteis, o que pode provocar uma recessão mundial em breve – e, então, como vivemos num mundo globalizado, vai ser um salve-se quem puder; e b) a combinação de uma política de juros altos com o câmbio valorizado está desindustrializando rapidamente o Brasil. Apesar de todas as conquistas recentes, o modelo macroeconômico vigente ameaça o futuro do país.

Numa entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, o economista Wilson Cano lembrou que, nos anos 1980, o peso da indústria de transformação no PIB do Brasil era de 33% e hoje caiu para apenas 16%. Ele entende que a diminuição da proporção da renda da indústria no PIB geral é um fenômeno normal em países avançados, como EUA e Europa Ocidental, onde a urbanização é quase total e a diversificação dos serviços é muito grande. Nestes países, a indústria representa cerca de 20% do PIB, mas em nações emergentes como o Brasil, a desindustrialização tem outro significado: é “uma precoce diminuição da presença da indústria em um país onde há ainda muita coisa para fazer em termos de industrialização”.

“Estamos há 31 anos em crise. Nos 80 veio a crise da dívida. Depois o neoliberalismo com um crescimento medíocre, até 2003”, diz Cano. Segundo o economista, “de 2004 para cá estamos vivendo um processo ilusório, em parte, porque estamos crescendo sem investimento. Estamos crescendo pelo consumo, pelo crédito. É a situação no mercado internacional que é excepcional, com os elevados preços de produtos primários”. Ele adverte também que a relação manufaturados/exportações totais do Brasil atingiu 59% e hoje está na casa dos 40%. “Se olharmos as estruturas produtivas e exportadoras segundo o grau de intensidade tecnológica, estamos regredindo. Estamos na contramão da história econômica”, diz ele.

E a responsabilidade por essa situação, segundo Cano, não é apenas do governo. O empresariado brasileiro – aquilo que em priscas eras era chamado de “burguesia nacional” – não tem a menor visão estratégica, só pensa nos lucros imediatos. “A estratégia deles é ganhar dinheiro lá fora pegando o dinheiro do BNDES para matar boi nos EUA. Os empresários estão preocupados em ganhar dinheiro com dólar barato. Fazem negócio lá fora ou simplesmente aplicam no sistema financeiro. Com essa taxa de juros, quem tem o dinheiro aplica no mercado financeiro sem ter que se preocupar com trabalhador, processo produtivo, imposto”. Cano acredita que o Brasil está cantando como a cigarra da fábula de La Fontaine. “Cantando por exportar galinha, soja e minério de ferro. Mas isso nunca deu futuro a ninguém. As lideranças aceitam que é muito bom ficar exportando essas coisas, mas esquecem da regressão industrial”.


Finalmente, ele argumenta que a China não vai continuar pagando o altíssimo preço que paga hoje pelas commodities e que Pequim está buscando novas fontes de abastecimento, abrindo frentes de produção na África e na América Latina. A farra vai acabar. 

terça-feira, 14 de junho de 2011

RETRATO DO NOSSO TEMPO


Dominique Strauss-Khan, ex-todo poderoso diretor-gerente do FMI 
 O escândalo sexual que derrubou o diretor-gerente do FMI, o “socialista” Dominique Strauss-Khan, bem cotado nas pesquisas para suceder o presidente Nicolas Sarkozy no próximo ano, continua rendendo notícia na França, na Europa e nos EUA. Mas há um aspecto pouco mencionado no caso, que este artigo do Le Monde capta com perfeição: o affair DSK é um sintoma de nossa época, marcada por um grau voragem e absoluta falta de limites dos das classes dominantes – as mal-chamadas “elites”, novas e velhas. O que me faz lembrar o caso do nosso ex-ministro Antonio Palocci, cujo patrimônio cresceu 20 vezes em pouco mais de cinco anos em função das "consultorias" - leia-se tráfico de influência.   



O caso DSK : sintoma do nosso tempo?


Dany-Robert Dufour, Le Monde

"Partamos do seguinte: não tenho nada a dizer sobre a psicologia de Dominique Strauss-Khan. Além disso, ele tem direito, como todo mundo, à presunção de inocência. Em contrapartida, há muito a dizer sobre o meio, sobre a cultura de que está impregnado o mundo dos negócios e das finanças onde DSK se movimentava.

Alan Greesnpan, o "maestro" do FED

Para ter uma idéia, basta reler o que dizia há pouco tempo sr. Alan Greenspan que comandava a todo-poderosa Reserva Federal Americana (Fed) e que era designado como 'o Maestro', o fazedor de milagres, isto é, de dinheiro. Interrogado no auge da crise iniciada em 2008 pela Comissão dos Estados Unidos, o gênio da economia declarou não entender nada do que estava acontecendo pois, disse ele, 'sempre acreditou que a percepção dos próprios interesses por parte dos banqueiros era a melhor proteção para todo mundo'. Portanto, o que ele estava dizendo claramente é que esse era um mundo em que o interesse pessoal, que se confunde facilmente com a avidez e o desejo de ter cada vez mais, fora alçado à categoria de lei universal.

Em suma, ele estava designando a cultura dominante desse meio como caracterizada pela ausência de limite. Trata-se em evidência de um princípio cínico, pois diz que se formos tão ávidos, egoístas e preocupados com nossos interesses e prazeres quanto possível, melhor contribuiremos para a prosperidade geral. Ora, esse princípio produz um mundo obsceno. Um mundo que, aliás, havia sido entrevisto e descrito à perfeição pelo marquês de Sade no século XVIII, pouco depois de ter nascido o princípio liberal, esse princípio que diz que é preciso liberar os vícios privados porque é isso que produz a fortuna pública.

Marques de Sade

Essa obscenidade pode tomar várias formas. Pode ser a forma que na Antiguidade era chamada de libido dominandi em que se trata de dominar possuindo cada vez mais. Pode ser uma libido sentiendi que remete à volúpia dos sentidos. Os Antigos eram muito perspicazes nesse domínio pois diziam que essas libidos podem facilmente se converter uma na outra porque ambas participam da ausência de limites, da desmedida e do sentimento de onipotência, o qual pode vir a funcionar como um potente afrodisíaco.

Em resumo, essa cultura constitui um meio incitador a todo tipo de passagem ao ato. Sabe-se hoje que o mundo dos traders era também o da prostituição e da cocaína. Sinto-me então tentado a ver no caso DSK um verdadeiro sintoma de nossa época, algo que diz a verdade desse tempo marcado pela ausência de limites dos verdadeiros donos desse mundo.

Michael Jackson sai do tribunal

É verdade que essa acusação visa somente a um meio tentado permanentemente pela passagem ao ato e que em nada permite afirmar uma culpa pessoal de DSK. Entretanto cabe notar que, se ele quisesse verdadeiramente demonstrar sua inocência ou denunciar a armação de um golpe contra ele, deveria ter escolhido um outro advogado e não Benjamin Brafman, o advogado vedete das causas perdidas dos poderosos. De fato, pode-se perguntar por que escolher o advogado de mafiosos notórios, advogado também de Michael Jackson em relação ao qual todos sabem o preço que foi pago para liberá-lo da acusação de pedofilia. Brafman foi ainda advogado do rapper Diddy (Sean Combs) e conseguiu inocentá-lo da acusação de porte ilegal de armas embora ele tivesse sido visto por uma centena de testemunhas no momento em que usava sua arma, em uma briga na saída de uma casa noturna. Uma coisa é conseguir ser liberado judicialmente, outra coisa é conseguir convencer seus concidadãos de sua inocência.

Sabe-se muito bem como funciona a justiça americana : ela começa quase sempre bem (estamos em um espaço liberal onde cada um, mesmo uma camareira, deve ser defendido em seus direitos), e com frequência, termina mal porque o Mercado e a espetacularização logo se imiscuem no caso. Todos sabem que um advogado hábil e bem remunerado pode comprar testemunhas, mantendo as devidas aparências, ou conseguir, por exemplo, um indivíduo nos confins da África qui certifique que a dita camareira lhe roubara um pacote de arroz há vinte anos, o que, portanto, torna suspeitas suas declarações atuais. De modo que, ao final, essa mulher será aconselhada a retirar sua queixa mediante enormes indenizações, e o caso será arquivado.

Silvio Berlusconi

É possível senão provável que esse caso que se iniciou como obscenidade moral termine como uma forma de obscenidade judiciária. Evidentemente, se DSK for inocentado nessas condições corre o risco de todos acreditarem que ele é tão « inocente » quanto o foram Michael Jackson ou Diddy.

Um último ponto, dessa vez, otimista. Os franceses tiveram muita sorte, porque esse caso aconteceu antes da indicação dos candidatos à eleição presidencial. Durante o período eleitoral, o caso teria desacreditado o candidato portador das matizes socialistas e teria acarretado a vitória quase automática do candidato do outro lado. E se acontecesse depois da eleição presidencial, teria colocado o eventual governo de esquerda em uma situação hyperberlusconiana – algo que, francamente, não faz falta à França nesse momento de sua história.

LÁ, COMO CÁ


Ollanta Humala, novo presidente do Peru

Essa análise do jornal argentino Página/12, transcrita abaixo, mostra o papel da grande mídia na campanha presidencial do Peru, na qual ela cerrou fileiras em torno da candidata da oligarquia, Kiko Fujimori, desencadeando uma campanha suja contra o candidato de centro-esquerda – afinal eleito presidente – Ollanta Humala. Um paralelo notável com o que aconteceu no Brasil no ano passado, quando Dilma Rousseff foi eleita presidente a despeito de ter quase toda a grande mídia contra si.

Martín Granovsky, do Página/12

“Se acontece mais de uma vez, não deve ser casualidade. E aconteceu. Ollanta Humala ganhou o segundo turno apesar do ataque virulento do El Comercio, o grupo midiático que domina o mercado do Peru. O fenômeno repete o que ocorreu nas últimas eleições presidenciais sul-americanas, vencidas pela brasileira Dilma Rousseff, em outubro último, com 54% dos votos.

O grupo El Comercio, da família Miró Quesada, controla o jornal do mesmo nome. Foi fundado no século XIX como La Nación, tem o peso empresarial do grupo Clarín e dispõe da capacidade articuladora de interesses que, juntos, ambos representam. Também é co-proprietário da TV Peru, que por sua vez controla a Plural TV, que por sua vez controla a Companhia Peruana de Radiodifusão e Produtora Peruana de Informação (Canal N). Além do jornal El Comercio, o grupo é dono de outros três, Trome, Peru.21 e Gestão, e das revistas Somos, Ruedas y Tuercas, e PC World.


Foi daí que partiu o bombardeio massivo (“cargamontón”, como se diz no Peru) contra Humala e a defesa de Keiko Fujimori.


Na agressão, El Comercio perdeu seu principal colunista, Mario Vargas Llosa. O escritor deu instruções ao jornal El País, da Espanha, que vende suas colunas, para mudar-se para o jornal La República, onde começou a publicar no domingo das eleições. Antes enviou uma carta de renúncia a Francisco Miró Quesada, Diretor do El Comercio. Vargas Llosa escreveu:

'Desde que um punhado de acionistas, encabeçados pela senhora Martha Meier Miró Quesada, tomou o controle desse diário e do grupo de canais de televisão e periódicos dos quais é proprietário, o jornal se converteu em uma máquina propagandista da candidatura de Keiko Fujimori, violando as mais elementares noções da objetividade e da ética jornalística; silencia e manipula informações, deforma os fatos, abre suas páginas às mentiras e calúnias que podem prejudicar o adversário, ao mesmo tempo em que, em todo o grupo, jornalistas independentes são demitidos ou intimidados, e se recorre às insídias e golpes baixos dos piores pesquisas que vivem do sensacionalismo e do escândalo'.


E acrescentou:

'Não posso permitir que minha coluna Pedra de toque siga aparecendo nesta caricatura do que deve ser um órgão de expressão genuinamente livre, pluralista e democrático'.


Vargas Llosa não é um esquerdista desaforado. Os leitores do Página/12 tiveram a oportunidade de conhecer em primeira mão, na entrevista publicada no dia 22 de abril, suas advertências contra 'as debilidades coletivistas' dos social-democratas e sua afirmação de que 'a intervenção do Estado gera injustiça'.

Em 1990, após ser considerado favorito, Vargas Llosa perdeu as eleições para Alberto Fujimori, que o derrotou no segundo turno. Depois, em 1992, o escritor se opôs ao auto-golpe e à dissolução do Parlamento. A reação de Fujimori foi tão violenta que a Espanha concedeu nacionalidade a Vargas Llosa para apoiá-lo.

O caso de Vargas Llosa marca um ponto interessante no debate sobre os meios e o poder. Vargas Llosa deixou o jornal El Comercio porque viu ferido seu narcisismo ante uma possível vitória de Keiko Fujimori, a filha do tirano? É uma pergunta que não tem resposta. Talvez tampouco tenha sentido. Na política, valem os fatos. E Vargas Llosa produziu três. Um, anunciar seu voto para Alejandro Toledo, no primeiro turno. Disse que eleger Humala ou Keiko era 'escolher entre o HIV e o câncer'. O segundo fato, depois da derrota de Toledo, foi avisar que votariam em Humala considerando-o um 'o mal menor'. O terceiro foi abandonar o El Comercio.

O criador e a criatura, Keiko Fujimori

Para além do que vai ocorrer no futuro entre Humala e Vargas Llosa, uma hipótese é possível: o autor de 'Os cachorros' deixou El Comercio porque acreditou que o grupo midiático ultrapassou um limite. Qual? O limite da democracia. Vargas Llosa é um liberal que, com incongruência, apoia neoconservadores que sustentaram ditaduras, como Milton Friedman no caso do Chile, às quais ele mesmo se opôs. Convém levar em conta que Humala ganhou no segundo turno por pouco menos de 3% dos votos: 51,45% contra 48,54. Se sua base foram os pobres da serra e os pobres do litoral, é evidente que conseguiu desequilibrar o resultado com o apoio de uma parte dos setores médios e inclusive de setores médios com explícitas ideias de centro-direita, como Vargas Llosa.


Humala derrotou o grupo El Comercio? Talvez seja mais proveitoso experimentar outro cenário: Humala liderou uma mudança e entrou em sintonia com ela, enquanto El Comercio foi contra. E a mudança – presente no humor social, no sentido comum, na alma dos peruanos – varreu tanto Keiko como o El Comercio. Se os grandes grupos de poder não são invencíveis, por que o seriam os grupos midiáticos gigantes que articulam a expressão desses grupos? Por que triunfariam quando diante deles há uma aliança social e uma construção política.


O nome de Lula ressoou na campanha peruana. É possível que, como símbolo, a palavra Lula desperte menos resistências que a palavra Chávez. Mas, como estratégia de fundo e não só de marketing eleitoral, Humala se inspirou no método lulista de alianças. Entre o primeiro e o segundo turno, não teve dúvida em reunir-se com Toledo, em agradecer o apoio de Vargas Llosa e em prometer que faria 'um governo de concertação nacional' baseado na honestidade. E, ao mesmo tempo, manteve sua promessa dupla de ampliar as políticas sociais de educação, assistência e saúde e de implantar um imposto especial para a renda extraordinária da mineração. O grupo El Comercio, como Keiko, acabou indo contra a maioria dos peruanos que acreditaram no projeto de Humala.

El Comercio não se deu por vencido nem quando o escrutínio atingiu um ponto sem retorno. No dia 7 publicou a seguinte manchete: 'Incerteza por falta de sinais claros'. Em um dos títulos secundários admitia que 'o volume de negociações foi baixo', mas assinalava que 'a Bolsa de Valores de Lima teve a pior queda da história, com 12,45%'. Acrescentava que 'especialistas sustentam que devem ser definidas com rapidez as novas cabeças do Ministério de Economia e Finanças e do Banco Central' e, em um editorial, indicava que 'o novo presidente deve dar uma mensagem tranquilizadora aos cidadãos, ao mercado e aos setores econômicos'. Puro terrorismo financeiro.

No mesmo dia, o jornal La República escolheu outro título: 'Ollanta dá o primeiro passo'. Informava sobre a designação de uma comissão de transferência do poder desde o triunfo até a posse, dia 28 de julho, sob o comando da vice-presidenta eleita Marisol Espinoza.


La República publicou uma interessante coluna do historiador Nelson Marique, 'Balanço de feridos'. 'As dúvidas em torno do que um governo de Humala poderia representar foram minimizadas pela perspectiva de contribuir para o retorno do fujimorismo', escreveu Manrique. 'Não conheço nenhum outro momento da história peruana em que tenha se produzido uma convergência tão ampla e comprometida de escritores, cientistas políticos, cineastas, sociólogos, jornalistas, historiadores, linguistas, educadores, etc., em torno de uma causa comum resumível em duas palavras: decência e dignidade'. Para Manrique, esse 'aval ético' envolve 'a responsabilidade de exercer vigilância sobre os atos do novo governo'.

Alberto Fujimori e os militares, nos quais se apoiou para governar

É aguda a análise sobre a contribuição do grupo El Comercio para o triunfo de Humala. 'Desempenhou também um papel importante o ‘efeito saturação’ provocado pela campanha de demolição empreendida pela maioria dos meios de comunicação contra Ollanta Humala. Quando, em uma campanha propagandista, se baixa de um certo ponto, ela deixa de ser efetiva e acaba produzindo o efeito contrário ao desejado. O bombardeio midiático ultrapassou amplamente esse limite e suas mensagens não só deixaram de funcionar, como alimentaram o ceticismo dos espectadores em relação ao desempenho do grosso da imprensa, rádio e TV. O desempenho do grupo El Comercio merece uma menção especial, pois fez um esforço homérico para destruir sua própria credibilidade'.

Segundo Marinque, El Comercio passou tanto, mas tanto, do limite que, ao final, se converteu 'em uma excelente recordação de como foram os tempos de Fujimori'.

Lula governou oito anos com a oposição ferrenha do jornal Folha de São Paulo, da revista Veja e da Rede Globo. Deixou o poder no dia 1° de janeiro deste ano com uma popularidade superior a 80%. A melhoria real da vida dos brasileiros, mais sua percepção subjetiva de uma melhora – Lula sempre fala da recuperação da autoestima e esse foi seu elogio a Néstor Kirchner no velório do ex-presidente – atuaram como um dique de contenção contra o qual se esborrachou o bombardeio da grande mídia do Brasil.”

segunda-feira, 13 de junho de 2011

O ÚLTIMO INTELECTUAL ENGAJADO

A guerra civil espanhola (1936-1939), que forjou o antifascismo
Com a morte de Jorge Semprún Maura desaparece o último representante de uma espécie hoje quase extinta, o intelectual engajado – espécie essa nascida na França (onde mais?) na época do Affaire Dreyfus (1894-1905). Os maiores expoentes dessa estirpe foram André Malraux, Ernest Hemingway, George Orwell, John dos Passos, Albert Camus e Jean-Paul Sartre. Sim, porque houve um tempo e que os intelectuais não se consideravam dignos de seu papel se não fossem também “homens de ação” – aqueles que não se conformavam em apenas interpretar o mundo, mas insistiam em transformá-lo, participando ativamente das lutas de seu tempo. A maior parte desses intelectuais teve seu “batismo de fogo” no conflito que foi considerado o ensaio geral da Segunda Guerra Mundial, a Guerra Civil espanhola (1936-1939). Todos eles se engajaram ao lado dos republicanos espanhois (comunistas, socialistas e anarquistas) contra os fascistas do general Francisco Franco. Depois, esses intelectuais seguiram caminhos políticos diversos, mas sempre se mantiveram fieis à causa antifascista.

Jorge Semprún, escritor e político

Jorge Semprún nasceu em Madri em 1923, mas viveu a maior parte de sua vida na França. Ele foi descrito como “o mais espanhol dos escritores franceses e o mais francês dos escritores espanhois”. Filho de um político liberal republicano que fora obrigado a se exilar na França, Semprún entrou para a Resistência Francesa em 1942, depois de ter ingressado no Partido Comunista Espanhol (PCE). Preso pela Gestapo no ano seguinte, foi internado no campo de concentração de Buchenwald, onde participou ativamente da resistência. Seus melhores livros (A Longa Viagem, Um Belo Domingo, A escrita ou a vida) são reflexões dolorosas dessa experiência-limite dos campos. Se no estreante A Longa Viagem Semprún é um tanto romântico ao contrapor a liberdade moral do prisioneiro à prisão moral do soldado do campo, em Um Belo Domingo ele revela a “escolha de Sofia” dos resistentes como ele, que eram recrutados pelas SS para trabalhar no Arbeitsstatisk (departamento de estatística) de Buchenwald – o que significava poder de escolha sobre quem deveria morrer e quem deveria sobreviver. Por um lado, essa era uma oportunidade para preservar os quadros da resistência; mas por outro significava participar do macabro mecanismo de terror e morte montado pelos nazistas. 

Ao ser libertado, Semprún continuou atuando como militante e depois liderança do Partido Comunista Espanhol, sob o pseudônimo de Federico Sánchez. Em 1964, ele e Fernando Claudín – autor de uma obra notável sobre a III Internacional – foram expulsos do partido por defenderem uma linha reformista, rejeitando a luta armada. Linha, aliás, que seria adotada pelo PCE 13 anos depois, sem nenhuma autocrítica, no processo de redemocratização da Espanha. Essa ruptura política posteriormente levaria Semprún a se tornar um dos maiores críticos do stalinismo, do totalitarismo soviético e das idiossincrasias dos PCs.

O ajuste de contas com seu passado, longo e tortuoso, foi brilhantemente descrito no livro Autobiografia de Federico Sánchez (1977). O desmonte de mitos stalinistas como Dolores Ibarruri (La Pasionaria) e Santiago Carrillo é devastador. Para mim, pessoalmente, esse livro foi fundamental para consolidar a ruptura com a ortodoxia marxista e adotar posições de esquerda democrática. O ajuste de contas de Semprún o levaria a abraçar as políticas neoliberais do PSOE - um fenômeno comum na Europa dos anos 1980 e 1990. Mas ele jamais perdeu a dimensão humanista e iluminista, tampouco se bandeou para a direita, como alguns "novos filósofos" franceses.

Semprún se tornaria mais conhecido pelos filmes dos quais foi roteirista: Z (1967), A Confissão (1970) e Sessão Especial de Justiça (1974), do diretor grego Konstantin Costa-Gravas); A Guerra Acabou (1966) e Stavisky, o grande jogador (1974), do francês Alain Resnais e Las Rutas del Sur (1978), de Joseph Losey. Um de seus grandes sucessos literários foi A Segunda Morte de Ramón Mercader, sobre o assassino de Leon Trotsky. Em 1988, Semprún foi nomeado ministro da Cultura do governo socialista de Felipe González, da Espanha. Sua experiência governamental foi narrada no livro Saudações de Federico Sánchez, no qual ele desnuda o homem-forte do governo de Felipe González, Alfonso Guerra, uma espécie de José Dirceu avant la lettre.


A meu ver, a descrição mais densa da experiência de Jorge Semprún de ter vivido o invivível dos campos da morte está nas páginas de A Escrita ou a Vida:

Os fornos crematórios do campo de Buchenwald

“Pode-se imaginar Léon Blum, naquelas noites. De primavera, provavelmente: janelas abertas para o ar fresco da primavera que chegara, para os eflúvios da natureza. Momentos de nostalgia, de vazio na alma, na dilacerante incerteza da vida nova. E de repente, levado pelo vento, o estranho cheiro. Adocicado, insinuante, com relentos acres, propriamente repugnantes. O cheiro insólito, que se revelaria ser do forno crematório.

Estranho cheiro. Na verdade, obsessivo. [...]

Haverá sobreviventes, com certeza. Eu, por exemplo. Eis-me aqui, sobrevivente de serviço, oportunamente surgido diante daqueles três oficiais de uma missão aliada para contar-lhes a fumaça do crematório, o cheiro de carne queimada sobre o Ettersberg, as chamadas sob a neve, as corvéias mortais, o esgotamento da vida, a esperança inesgotável, a selvageria do animal humano, a grandeza do homem, a nudez fraterna e devastada do olhar dos companheiros”.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

DUAS DOSES A MAIS (OU A MENOS)


H.  L. Mencken pelo caricaturista David Levine
Henry Louis Mencken (1880-1956)foi um jornalista literário americano, ensaísta, crítico e satírico - o maior iconoclasta de seu tempo. Sua pena era particularmente ácida contra o jingoísmo da classe média da América, os fundamentalistas cristãos e as frivolidades do jornalismo - aquilo que hoje, pseudo-sofisticadamente, chamamos de fait divers e que, desgraçadamente, tentamos levar a sério. O trecho abaixo foi escrito durante a infame Lei Seca - a proibição, em nome de princípios morais, da fabricação e comercialização de álcool nos Estados Unidos. A lei durou entre 1919 e 1933, aumentou a procura pelo álcool e acabou fazendo da Máfia - então um bando de carcamanos desordeiros - um paradigma do crime organizado.    

"O álcool, por assim dizer, nos desenreda. Ele levanta o toldo da sensação e nos torna menos sensíveis aos estímulos eternos e, particularmente, àqueles que nos são desagradáveis. Ao pôr um freio em todas as qualidades que nos permitem tocar a vida e brilhar diante dos colegas - por exemplo, a combatividade, a agudeza, a diligência, a ambição - , o álcool liberta as qualidades que nos enternecem e fazem com que as pessoas gostem de nós: a afabilidade, a tolerância, a generosidade, o humor, a simpatia. [...] Tudo é tão óbvio que me espanto ao ver que nenhum utópico, até hoje, se propôs a abolir todas as lamentações do mundo pelo simples artifício de manter toda a humanidade ligeiramente alta. Note bem, eu não disse bêbada; disse ligeiramente alta - e peço desculpas por não saber como descrever este estado numa frase menos indecorosa. O homem ligeiramente calibrado pelo álcool é capaz de pôr suas melhores qualidades para fora. Ele não é apenas imensamente mais mais amável do que o indivíduo que vive a seco; é também imensamente mais decente. Reage a todas as situações de maneira expansiva, generosa e humana. Torna-se mais liberal, tolerante e agradável. É melhor cidadão, marido, pai e amigo. As inciativas que tornam a vida humana insegura e desconfortável nunca são tomadas por este homem: ele não declara guerras, não rouba nem oprime ninguém. Todas as grandes vilanias da História foram perpetradas por homens sóbrios e, principalmente, por abstêmios. Mas todas as coisas belas, do Cântico dos Cânticos à tartaruga à Maryland, das nove sinfonias de Beethoven ao martini seco, foram concebidas por homens que, na hora certa, trocavam a água de bica por algo mais colorido e com outros ingredientes que não apenas hidrogênio e oxigênio".

H. L. Mencken, Retrato de um mundo ideal (1924)       

O TURISTA DESAPRENDIZ


Alain Finkielkraut
“Graças à anulação da topologia pela tecnologia, a experiência humana, por demais humana, da vizinhança, cede lugar à embriaguez olímpica de uma eqüidistância universal. O homem não é mais vernacular, ele é planetário. Seu círculo imediato não é mais local, mas digital. Ele estava ligado a um território, agora está conectado à rede e doravante só tem que fazer autoctonias. A inerência ao mundo era seu destino, o espetáculo e o chamamento do mundo marcam sua acessão à liberdade. Cibernauta e orgulhoso de o ser, ele abandona a obscena materialidade das coisas pelas delícias infinitas de um espaço insubstancial.


Ele era geográfico e histórico, ei-lo angélico, livre, como os anjos, das fadigas de sua vida na terra e da ordem da encarnação, dotado, como eles, do dom da ubiqüidade e da imponderabilidade. Limitado que era por uma memória mais velha que ele e que o constrangia ao particularizá-lo, libertou-se do fardo do passado, dessa usurpação do dado, dessa alteridade íntima, desse ferimento prejudicial infligido ao sonho de autarcia e dessa presença em si dos mortos que se chama, sem dúvida por antífrase, identidade. Fim da existência fechada: dado que a comunicação e a conexão generalizadas apagaram – miraculoso lifting – as rugas que as fronteiras haviam esculpido no rosto da humanidade, a pertença experimentada se apaga em proveito da relação escolhida: doravante todos os mortos estão disponíveis; “a felicidade se eu quiser, qualquer um pode dar qualquer prenome da terra a seu filho, se conectar, sem sair do quarto, a qualquer divertimento, ter acesso imediato às catástrofes, explorar avidamente as mais longínquas culturas, aparecer de repente em todos os lugares históricos, namorar, de chinelos, vitrines nos antípodas, e navegar à vontade nos bancos de dados da grande miscelânea mundial em que as tradições nos transformaram. Outrora estava-se num ou noutro lugar, dentro ou fora, em seu próprio país ou no estrangeiro; era-se burguês ou boêmio, sedentário ou nômade. Este tende a desaparecer: o que quer dizer que a qualidade de turista, no homem, substitui pouco a pouco a do habitante e que se anuncia uma era em que, com a abolição simultânea das distâncias e dos destinos, todos poderão ser visitantes de tudo”.

Alain Finkielkraut, A humanidade perdida