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terça-feira, 12 de julho de 2011

UM ESPECTRO RENDE A EUROPA

O economista indiano Amartya Sen revolucionou o conceito de desenvolvimento ao incluir indicadores sociais nos padrões de classificação dos países, o que resultou na criação do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano). Órgãos como Banco Mundial repensaram suas políticas de fomento ao desenvolvimento em todo mundo, passando a observar, além das estatísticas de crescimento econômico e renda, as estatísticas sociais. Neste artigo reproduzido abaixo, Sen alerta para o perigo que a submissão dos países à lógica dos mercados financeiros traz à democracia.

Não é só o euro, mas a
democracia que está em jogo

Amartya Sen (*)

 “A Europa liderou o mundo no que diz respeito à prática da democracia. É, portanto, preocupante que os perigos para a governabilidade democrática de hoje, que entram pela porta traseira das prioridades financeiras, não recebam a atenção que merecem. Há questões de fundo que devem ser enfrentadas a respeito de como o governo democrático da Europa pode ser minado pelo papel enormemente aumentado das instituições financeiras e das agências de classificação de riscos, que hoje se apropriaram de certas partes do terreno político da Europa.

É preciso separar duas questões diferenciadas. A primeira se refere ao lugar das prioridades democráticas, incluindo o que Walter Bagehot e John Stuart Mill consideravam a necessidade do ‘governo por meio da discussão’. Suponhamos que aceitemos que os poderosos chefes das finanças possuem uma compreensão realista do que é preciso fazer. Com isso se fortaleceria o argumento favorável a prestar atenção em suas vozes em um diálogo democrático. Mas isso não é o mesmo que deixar às instituições financeiras internacionais e às agências de classificação de risco o poder universal de mandar sobre governos eleitos democraticamente. Em segundo lugar, é difícil ver que os sacrifícios que os comandantes financeiros vêm exigindo dos países em situação precária vão garantir a viabilidade destes países e a continuidade do euro dentro de um modelo sem reformar o setor financeiro e um conjunto de membros sem mudanças dentro do clube do euro.

O diagnóstico dos problemas econômicos por parte das agências de qualificação não é a voz da verdade como pretendem. Vale a pena lembrar que o histórico dessas agências nas instituições de certificação financeira e de negócios antes da crise econômica de 2008 era tal que o Congresso dos EUA debateu seriamente se deviam ser processadas. Dado que grande parte da Europa encontra-se agora empenhada em conseguir uma rápida redução do déficit público mediante a redução drástica do gasto público, é fundamental examinar com realismo que possíveis repercussões poderiam ter essas medidas políticas, tanto no caso da população quanto no da geração de receitas públicas por meio do crescimento econômico.

A alta moral de ‘sacrifício’ tem um efeito embriagante. Esta é a filosofia do corpete ‘correto’. ‘Se a senhora se sente muito cômoda com ele, então certamente precisa de um tamanho menor’. No entanto, se as exigências de adequação financeira se vinculam de maneira demasiadamente mecânica aos cortes imediatos, o resultado pode ser o de matar a galinha dos ovos de ouro do crescimento econômico. Essa preocupação se aplica a uma série de países, desde a Inglaterra até a Grécia. A comunidade da estratégia do ‘sangue, suor e lágrimas’ de redução do déficit outorga uma aparente plausibilidade ao que está sendo imposto aos países mais precários como Grécia ou Portugal. Também faz com que seja mais difícil ter uma voz política unida na Europa que possa fazer frente ao pânico gerado nos mercados financeiros.

Além de uma visão mais política, há necessidade de um pensamento econômico mais claro. A tendência a ignorar a importância do crescimento econômico na geração de receitas públicas deveria ser um assunto importante de análise. A sólida conexão entre crescimento econômico e receitas públicas é uma coisa observada em muitos países, como Índia, China, Estados Unidos e Brasil. Também aqui se tiram lições da história. A grande dívida pública de muitos países ao término da Segunda Guerra Mundial provocou uma enorme ansiedade, mas o gravame diminuiu rapidamente graças a um rápido crescimento econômico. Do mesmo modo, o enorme déficit que o presidente Clinton enfrentou quando assumiu seu cargo em 1992 se dissipou durante sua presidência, em grande medida graças à ajuda de um rápido crescimento econômico.

O temor de uma ameaça à democracia não se aplica, com certeza, a Inglaterra, já que estas medidas políticas foram escolhidas por um governo investido pelo poder das eleições democráticas. Apesar de que o desenvolvimento de uma estratégia não revelada no momento das eleições possa ser razão para uma reflexão, este é o tipo de liberdade que um sistema democrático permite aos que saem vencedores nas eleições. Mas com isso não se elimina a necessidade de uma maior discussão pública, mesmo na Inglaterra. Também existe a necessidade de reconhecer de que modo as políticas restritivas resultantes da eleição na Inglaterra parecem dar verossimilhança às medidas ainda mais drásticas impostas à Grécia.

Como os países do euro se meteram nesta enrascada? A rara singularidade de ir na direção de uma moeda única sem uma maior integração política e econômica sem dúvida contribuiu para isso, ainda mais considerando as transgressões financeiras que sem dúvida cometeram no passado países como Grécia ou Portugal (inclusive depois da importante advertência de Mario Monti de que uma cultura de ‘excessiva deferência’ na União Europeia permitiu que essas transgressões ocorressem sem controle). É preciso reconhecer imensamente o governo grego – e Yorgos Papandreu, o primeiro ministro, em particular – que está fazendo o que pode apesar da resistência política, mas a vontade aflita de Atenas de cumprir certos termos não elimina a necessidade de os europeus estudarem a razoabilidade desses termos – e os tempos – que estão sendo impostos a Grécia.

Não é nenhum consolo para mim lembrar que me opus firmemente ao euro, apesar de estar fortemente a favor da unidade europeia. Minha preocupação com o euro guardava em parte relação com o fato de que cada país renunciara à liberdade de sua política monetária e dos ajustes na taxa de câmbio, que ajudaram enormemente a países em dificuldade no passado e evitou a necessidade de uma desestabilização massiva de vidas humanas nos frenéticos esforços por estabilizar os mercados financeiros.

Essa liberdade monetária poderia ser permitida mesmo com uma integração política e fiscal (como têm os estados nos EUA), mas a pressa em inaugurar uma casa que estava em construção acabou resultando numa receita desastrosa. Obrigou-se a incorporar à maravilhosa ideia de uma Europa democrática unida um precário programa de incoerente fusão financeira. Reordenar a zona euro suporia muitos problemas, mas as questões difíceis devem ser discutidas de maneira inteligente, ao invés de permitir uma Europa à deriva em meios aos ventos financeiros, alimentada por um pensamento de mentalidade estreita com um terrível histórico.

O processo tem que começar com certa restrição imediata do poder sem oposição das agências classificadoras de emitir mandatos unilaterais. Estas agências são difíceis de disciplinar mesmo com seu péssimo histórico, mas a voz bem refletida dos governos legítimos pode supor uma grande diferença para a confiança financeira enquanto se elaboram soluções, sobretudo se as instituições financeiras internacionais prestarem seu apoio. Deter a marginalização da tradição democrática na Europa envolve uma urgência que é difícil de exagerar. A democracia europeia é importante para a Europa... e para o mundo.”

(*) Professor da Universidade de Harvard, Prêmio Nobel de Economia de 1998. Publicado nos sites Carta Maior e operamundi

segunda-feira, 11 de julho de 2011

OS JORNALÕES E OS JORNALISTAS


John Wayne e James Stewart em O Homem que Matou o Facínora
O cinema – Hollywood particularmente – produziu vários filmes sobre jornalismo inescrupuloso, onde qualquer método, mesmo o mais sórdido, é válido, desde que consiga um belo furo, que renda manchetes sensacionais, trazendo glória ao repórter e (muitos) dólares ao proprietário. O mais famoso deles, sem dúvida, é A Montanha de Sete Abutres, do inigualável diretor Billy Wilder, em que o canastrão Kirk Douglas vive o repórter que adia o salvamento de uma vítima de desabamento numa mina para continuar enviando notícias exclusivas. Em outro filme memorável, O Homem que Matou o Facínora, de John Ford, as práticas “heterodoxas” do jornalismo são criticadas apenas en passant, mas numa frase certeira no final: “quando a lenda é melhor que a história real, imprima-se a lenda”. 

O adeus do infame tabloóide
 Esta semana marcou o fim de um dos veículos mais típicos do jornalismo de esgoto em que se transformou boa parte da mídia comandada pelo gângster australiano-americano que atende pelo nome de Rupert Murdoch, dono de um império de quase 200 títulos, com ativos de US$ 60 bilhões que incluem, além dos veículos sensacionalistas, o respeitável The Wall Street Journal, a bíblia dos financistas de todo o mundo. No domingo, o tablóide News of the World, fundado há 168 anos, fechou as portas por causa das inescrupulosas escutas telefônicas, violações de sigilo da família real, de celebridades, políticos, familiares de militares que morreram no Iraque e no Afeganistão e pessoas comuns, como revelou o jornal The Guardian. O caso mais escabroso foi o de Milly Dowler, uma garota de 13 anos que tinhado sido sequestrada e assassinada e os jornalistas apagaram recados de seu celular para liberar espaço para novas mensagens, fazendo a família e a polícia terem esperança de que a menina ainda estivesse viva. O jornal também hackeou telefones das vítimas dos atentados de Londres, em 2005, e pagou policiais por informações. Murdoch tentou vender a versão de tudo não passou de um desvio de conduta de maus profissionais. Simples assim: a culpa pelos crimes de espionagem teria sido de jornalistas inescrupulosos, que avançaram o sinal sem o conhecimento dele e da poderosa Rebekah Brooks, a executiva-chefe do braço que cuida dos jornais do grupo no Reino Unido. Mas, na verdade, o fechamento do News of the World foi uma manobra de Murdoch para evitar que fosse por água abaixo seu projeto de expandir o império com a compra a BSkyB, a maior provedora de TV por assinatura no Reino Unido.
The Godfather

As pressões para que o governo vete a negociação – um negócio de US$ 14 bilhões – estão aumentando. A compra da BSkyB viola a lei da livre concorrência e concentra a produção e distribuição de informação, uma vez que o grupo de Murdoch já é proprietário de canais de tevê e de três jornais no Reino Unido, além de provedor de internet (isso se chama “propriedade cruzada”, uma prática oligopólica de grandes conglomerados de mídia que é proibida em qualquer país civilizado. Aqui no Brasil, a simples discussão do tema é tratado pelos jornalões e televisões como tentativa de “cercear a liberdade de imprensa”). Com a descoberta das escutas, da corrupção e de que os executivos do grupo mentiram para encobrir o caso, a probabilidade de aprovação do negócio é mínima. E o fato de um dos envolvidos no escândalo, o ex-diretor do News of the World Andy Coulson, preso na sexta-feira, ter sido assessor de imprensa do primeiro-ministro James Cameron, só piora as coisas para Murdoch.

Coulson, ex-assessor de Cameron
A imprensa britânica agora encontrou revidências de que outros jornais do grupo Murdoch – como o Sun e o Sunday Times – também fizeram espionagem política, violaram sigilos e fizeram escutas telefônicas contra o ex-primeiro-ministro Gordon Brown, do Partido Trabalhista. Papéis relativos à compra um apartamento pelo político, seus dados bancários e até mesmo os registros médicos que documentavam uma grave doença sofrida por seu filho mais novo teriam sido violados; alguns destes documentos foram encontrados com os “arapongas” que trabalhavam para Murdoch. A multiplicação de casos de escutas e violações por vários jornais do grupo deixa evidente que os crimes do News of the World não se tratavam de “desvios” cometidos por meia dúzia de jornalistas, mas de uma política empresarial do grupo Murdoch.

Janet Malcom, autora de O Jornalista e o Assassino
Tudo isso nos leva à reflexão sobre o perigo que representa para a democracia a concentração de veículos da mídia em poucas mãos. No Brasil, em nome da “liberdade de imprensa”, os barões da mídia se colocam resolutamente contra qualquer medida que vise a democratizar a informação. Isso é um ponto. Mas é preciso refletir, também, sobre o papel que nós, jornalistas, desempenhamos num contexto dominado pela completa mercantilização e espetacularização da notícia. O início do livro O jornalista e o assassino, de Janet Malcom, fornece um amarga reflexão sobre nossa mísera condição nas circunstâncias atuais:

“Qualquer jornalista que não seja demasiado obtuso ou cheio de si para perceber o que está acontecendo sabe que o que ele faz é moralmente indefensável. Ele é uma espécie de confidente, que se nutre da vaidade, da ignorância ou da solidão das pessoas. Tal como a viúva confiante, que acorda um belo dia e descobre que aquele rapaz encantador e todas as suas economias sumiram, o indivíduo que consente em ser tema de um escrito não ficcional aprende – quando o artigo ou livro aparece – a sua própria dura lição. Os jornalistas justificam a própria traição de várias maneiras, de acordo com o temperamento de cada um. Os mais pomposos falam de liberdade de expressão e do ‘direito do público a saber’; os menos talentosos falam sobre a Arte; os mais decentes murmuram algo sobre ganhar a vida.”

A montanha dos sete abutres, de Billy Wilder


quinta-feira, 7 de julho de 2011

O UTILITARISMO É UM HUMANISMO


Richard Rorty ou o utilitarismo de esquerda
"Os relativistas concordam sobre o fato de que o colapso do marxismo ajudou-nos a compreender por que a política não deveria tentar ser redentora. E não por estar disponível outro tipo de redenção, aquela que os católicos consideram possível encontrar na Igreja, mas porque desde o início a redenção sempre foi uma má ideia. É preciso tornar os homens mais felizes, e não redimi-los, porque eles não são seres degredados, almas imateriais aprisionadas em corpos materiais, almas inocentes corrompidas pelo pecado original. Os homens são, como afirmava Friedrich Nietzsche, animais inteligentes. Inteligentes porque, diferentemente de outros animais, aprenderam como colaborar uns com os outros para poder realizar os próprios desejos da melhor forma possível. No decorrer da história, nós, animais inteligentes, adquirimos novos desejos e nos diferenciamos bastante de nossos ancestrais animais. Nossa inteligência, de fato, não apenas nos permitiu adequar os meios aos nossos fins, mas também imaginar novos fins, cogitar novos ideais.

[...]


John Stuart Mill
Bento XVI lamentoiu-se sobre o fato de que a Igreja tem cada vez mais dificuldade para dizer em que acredita. Em breve, declara o papa, já não será possível afirmar que  homossexualidade constitui um distúrbio objetivo na estrutura da existência humana, como ensina a Igreja católica. [...] O papa tem razão ao sugerir que a pressão por parte de uma opinião pública ultrajada poderia obrigar a Igreja a silenciar sobre o tema da homossexualidade. Espero que seus receios sejam confirmados e que isso ocorra, pois acredito que a condenação da homossexualidade gerou uma considerável e desnecessária infelicidade humana.

A atitude da Igreja reduziu significativamente a felicidade humana. A controvérsia sobre a homossexualidade suscita uma pergunta essencial sobre a natureza da moralidade: a Igreja tem razão em afirmar que existe uma espécie de estrutura de existência humana capaz de servir de ponto de referência moral, ou nós, seres humanos, não temos obrigações morais, além da obrigação de nos ajudar reciprocamente a satisfazer nossos desejos, atingindo assim a maior felicidade possível?

Concordo com John Stuart Mill, o grande filósofo utilitarista, sobre o fato de que esta última é a nossa única obrigação moral.

A Igreja, obviamente, afirma quje opiniões como as de Mill reduzem o ser humano à categoria de um animal, mas filósofos como eu acreditam que o utilitarismo nos engrandece, oferecendo-nos um ideal moral estimulante. O utilitarismo conduzia a esforços heroicos e altruístas no interesse da justiça social, esforços perfeitamente compatíveis com a afirmação de que não existe nenhuma estrutura da existência humana.

George Santayana
O filósofo espanhol George Santayana afirmou que a superstição é a confusão de um ideal com o poder; é acreditar que qualquer ideal deve de algum modo fundamentar-se em algo já existente, em algo transcendente que põe esse ideal diante de nós. O que o papa define como estrutura da existência humana é um tipo dessa entidade transcendente.

Santayana afirmava, e eu concordo com ele, que a única fonte de ideais morais é a imaginação humana; esperava que os seres humanos, no fim, abandonariam a noção de que os ideais morais deveriam fundamentar-se em algo mais amplo que eles mesmos. Esperava que começasssem a pensar que todos esses ideais como criações humanas, sem se ressentir com isso."

Richard Rorty, Uma ética laica

quarta-feira, 6 de julho de 2011

A ESCOLINHA DE ÉTICA DO FMI


Christiane Lagarde, diretora-gerente do FMI
 Ao tomar posse no cargo de diretora-gerente do FMI, a francesa Christiane Lagarde prometeu em contrato seguir um “alto padrão de conduta” e a fazer “treinamento ético”. A exigência, inédita, foi acrescentada na semana passada, na sequência de um “escândalo” que derrubou seu antecessor, o também francês Dominique Strauss-Khan, preso em Nova York em maio sob suspeita de ter estuprado uma camareira do hotel. A acusação, depois se viu, era infundada.

Pensei que a noite mal dormida me embotara os sentidos e que, por isso, eu não tinha lido direito a manchete. Mas era isso mesmo: a poderosa chefona do FMI terá que fazer um treinamento ético! Nessa idade, meu Deus? Será que ela aprende??

Parece que o "jequismo" puritano dos americanos, ultimamente travestido de “politicamente correto”, chegou ao FMI. Os cartesianos franceses têm agora mais uma razão para desprezar a indigência intelectual do establishment americano. Fico pensando como seriam esses cursos; qual ética seria ensinada? A platônica, a aristotélica ou a sofística? A hobbesiana, a kantiana ou a hegeliana? Não, os calvinistas não são tão sofisticados... Por certo no curso haveria provas, notas, avaliações; neste caso, fico me perguntando se o sujeito (ou “sujeita”; afinal, “todas e todos” não virou regra?) que tirasse, por exemplo, nota 9 numa prova de ética seria considerado alguém um pouco menos ético do que quem tirasse 10... De uma coisa eu tenho certeza: esse curso do FMI jamais ensinará, por exemplo, que é aético impor políticas recessivas que provoquem desemprego e crise social nos países...

Alexander Hamilton
O fato é que o establishment americano, a despeito do ceticismo iluminista dos Pais Fundadores e dos Federalistas (Hamilton, Jefferson, Madison), tem uma mentalidade primitiva, religiosa e pré-moderna, moldada na época das 13 colônias. Tanto que, se você for preencher um formulário para tirar visto para os EUA, deve responder a perguntas cretinas, do tipo: “você pretende praticar algum atentado terrorista nos EUA?”; “você está traficando drogas ou armas?”; “você é comunista?” (esta, da época do macartismo, já tiraram).

O puritanismo que acha que pode melhorar as pessoas por meio de “treinamento ético” é o mesmo que aponta o dedo acusador e condena, antes de qualquer prova. E, se condena, se arvora no direito de impor uma punição exemplar. Veja-se o caso de Dominique Strauss-Khan. Ele foi preso, algemado e mostrado para um batalhão de fotógrafos do mundo inteiro – é o que os americanos chamam de “perp walk” (desfile do suspeito). E isso apesar do princípio de presunção de inocência que informa o Direito anglo-saxão. Aqui o puritanismo se encaixa perfeitamente no espírito da “sociedade do espetáculo” e, ainda por cima, o faz seqüestrando o discurso democrático (“todos são iguais perante a lei”) para justificar o circo.

Dominique Strauss-Kahn escoltado pelos guardiões da Justiça
Ora, na maioria dos países civilizados, um suspeito, seja figurão ou proletário, jamais poderia ser exposto dessa maneira. “Nos EUA, humilhações públicas fazem parte da tradição puritana, na qual os presos tornam-se exemplos públicos”, escreveu o jornalista Michael Kepp. O fato de a própria Promotoria de Nova York ter descoberto que DSK foi vítima de uma armação, a ponto de determinar sua libertação, não altera nada. No fundo, os puritanos devem achar que, pelo menos, DSK cometeu um “crime”, o de adultério, e que, portanto, é bom que pague por isso...

Sei não, mas suspeito que dona Lagarde não vai aprender nada nesse curso...

terça-feira, 5 de julho de 2011

POR QUE ELES RIEM

Reproduzo postagem do site Carta Maior sobre os bônus pagos ao executivo-chefe do Citigroup:
“O executivo-chefe do Citigroup, Vikram Pandit receberá este ano US$ 80 milhões relativos a pagamentos não salariais, além de bônus e incentivos, num volume que pode superar os US$ 200 milhões. A informação é da agência Bloomberg. O Citi foi o banco símbolo da crise engendrada pela supremacia das finanças desreguladas que esganou a economia, o emprego e a democracia em todo o planeta, como avultam os exemplos da Grécia, Espanha, Portugal etc. Foi, ademais, a instituição financeira que recebeu o maior balão de oxigênio do Estado norte-americano. Em novembro de 2008, no auge da crise, o governo dos EUA assumiu a responsabilidade de resgatar a montanha desordenada de créditos podres e ações esfareladas que fizeram do Citi um emblema da maior crise do capitalismo desde 1929.


A canalização de dinheiro dos contribuintes incluiu US$ 20 bilhões de injeção de capital para mitigar os rombos de caixa do Citi; US$ 25 bilhões em programa de ajuda oficial; garantias do Estado para US$ 306 bilhões de ativos problemáticos (créditos podres ou em processo de putrefação acelerado). Em bom português: o Citi foi estatizado, embora mantido nas mãos do mercado --essas coisas existem. A título de prestação de contas à opinião pública, que naturalmente não digeriu bem o amparo a uma das alavancas da crise que ceifou 30 milhões de empregos no mundo, convencionou-se que o salário do presidente do Citi ficaria restrito a simbólico US$ 1 por ano. Agora se vê que os chamados ‘restos a pagar’ – que podem chegar a US$ 200 milhões'- suportavam tal demagogia. Vê-se, ademais, que, três anos depois da hecatombe, as medidas destinadas a devolver a pasta de dente ao tubo da regulação fracassaram. E a tal ponto, que, um executivo-chefe como Pandit, dá-se ao luxo de conciliar ganhos milionários com uma queda de 87% no valor das ações do Citi desde a sua posse, em 2007. Pandit não é um caso isolado.


Um típico dirigente de corporação financeira dos EUA recebeu US$ 9 milhões no ano passado, contra um valor equivalente a um quarto disso em 2009. Enquanto isso, os salários dos trabalhadores em maio último, descontada a inflação, estavam 1,6% abaixo do seu valor em igual mês do ano passado. O desemprego é de 9% e quase 45 milhões de americanos recebem atualmente cupons de alimentação porque não ganham sequer para sustentar o próprio metabolismo”.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

A ESTRATÉGIA FABIANA: COMENDO PELAS BORDAS


Presidenta Dilma Rousseff: quantas divisões ela tem? 
Nos primeiros seis meses de governo, a presidenta Dilma Rousseff queimou a língua várias vezes. Ela adotou posições duras e depois recuou – nos casos das regras especiais para contratações de obras da Copa do Mundo de 2014, da prorrogação do prazo das emendas parlamentares e do sigilo eterno dos documentos secretos do governo. Talvez lhe falte experiência para saber que, em política, assim como no campo de batalha - afinal, a política também é a continuação da guerra por outro meios -quem não tem força suficiente para se impor não pode ameaçar o adversário, sob pena de ser derrotado ou se desmoralizar. Nessas circunstâncias, é necessário evitar o embate frontal e adotar a estratégia “fabiana” de comer pelas bordas, como sabiamente recomendava Niccolò Machiavelli. Na verdade, estou usando as derrotas política da presidente como pretexto para falar sobre a fascinante história dessa estratégia, cujas origens remontam aos campos de batalha da Segunda Guerra Púnica (218aC-201aC), travada entre os exércitos de Roma e Cartago.

Fabius Maximus Cunctator
A estratégia deriva seu nome de Quintus Fabius Maximus Verrucoso – depois conhecido como Fabius Cunctator – ditador da República Romana, a quem foi conferida a tarefa de derrotar o grande general cartaginês Aníbal Barca no sul da Itália. Ele se tornou uma grande ameaça a Roma depois de ter invadido a Itália atravessando os Alpes com sua cavalaria de efefantes durante o inverno. Aníbal infringiu perdas devastadoras aos romanos, principalmente nas batalhas de Trebbia e a do Lago Trasimeno. Fabius iniciou então uma guerra de atrito, explorando vulnerabilidades estratégicas do general cartaginês, mas evitando entrar em confronto direto com ele.

Aníbal tinha dois
Aníbal Barca, general cartaginês
pontos fracos. Em primeiro lugar, ele era comandante de um exército em solo italiano, muito distante de Cartago, que se deslocava com rapidez e tinha grandes dificuldades logísticas. Tendo isso em conta, em vez de enfrentar o exército cartaginês, Fabius atacou as linhas de suprimento de Aníbal e o obrigou a fazer manobras em terreno acidentado, de modo a anular sua superioridade na cavalaria. O segundo ponto fraco do general cartaginês consistia no fato de grande parte do seu exército ser composto por mercenários da Gália e da Espanha, que não tinham grande lealdade a Aníbal, ainda que não gostassem de Roma. Sendo mercenários, eles estavam despreparados para a guerra de desgaste; não tinham nem equipamento nem paciência para tal campanha. A estratégia de Fabius Cunctator de atrasar a batalha, atacar as cadeias de fornecimento e evitar o confronto direto, assim, atingiu em cheio o exército de Aníbal. Apesar disso, muitos dos conterrâneos de Fabius viam essa estratégia como indigna e covarde, embora eficaz em alguns aspectos, e o apelido Cunctator – o que posterga – inicialmente era pejorativo. A estratégia foi então abandonada, mas a vitória dos cartagineses em Cannae, em 216aC, fez os romanos retomá-la.

Batalha de Zama (202 aC)
Embora a vitória final de Roma sobre Aníbal e Cartago tenha sido conquistada na batalha de Zama (202 aC) por Cipião, o Africano, um general romano que se opunha às teses de Fabius Cunctator, a estratégia fabiana foi reconhecida como responsável por ter salvo Roma em seu momento mais crucial. Aníbal e Cipião são tidos como dois dos maiores generais de todos os tempos, mas a estratégia fabiana ganhou força a partir do século XVIII, tendo sido empregada por George Washington contra os ingleses na Guerra da Indendência Americana, e no século XIX pelos espanhóis contra as tropas napoleônicas. O fabianismo inspiraria, portanto, tanto a guerra de guerrilhas – que opunha exércitos irregulares a regulares – quanto uma modalidade moderada de socialismo.

Seria bom conhecer essa estratégia para adotá-la quando necessário – embora políticos intuitivos que aprenderam a usá-la, como Lula, por certo não a conheceram pelos livros de História.

sábado, 2 de julho de 2011

CHINA: A VIA COMUNISTA PARA O CAPITALISMO


Comemoração pelos 90 anos do PCC em Pequim
O Partido Comunista Chinês (PCC) completa 90 anos sem dar sinais aparentes de fadiga, liderando um país que caminha celeremente, 20 anos depois do colapso do comunismo soviético, para se tornar a segunda economia do planeta. Ele combina o vigor de uma economia capitalista em expansão há pelo menos 25 anos, que retirou cerca de 500 milhões de pessoas da pobreza extrema, com a manutenção da ditadura de partido único. Como explicar essa contradição? Como explicar o fato de que um partido responsável pela morte de cerca de 40 milhões de pessoas entre 1958-1960, no período da fome que se seguiu ao Grande Salto para a Frente, e outros milhões durante a Revolução Cultural (1966-1976), tenha conseguido se manter no poder sem enfrentar nenhuma ameaça, à exceção dos protestos da Praça da Paz Celestial em 1989? E por que o regime ainda se considera comunista, quando a China atual se assemelha mais ao capitalismo selvagem da Inglaterra vitoriana do que a qualquer utopia igualitária?

Massacre de comunistas em Xangai, 1927
Nestes 90 anos, o PCC passou basicamente por três grandes períodos, cada um com duração aproximada de 30 anos. O primeiro período, da fundação do partido em 1921 até a conquista do poder em 1949, é a fase heróica, que forjou um partido comunista de massas de novo tipo, ligado aos camponeses e que se relevaria uma alternativa ao modelo bolchevique de revolução comunista urbana. O batismo de fogo ocorreu em 1927, quando os comunistas chineses, obedecendo orientações de Moscou, entraram em massa no Kuomintang (Partido Nacionalista), de Chiang Kai-shek – que na ótica da III Internacional representava a “burguesia nacional anti-imperialista” – e foram massacrados em Xangai. Esse episódio é narrado no belíssimo romance A Condição Humana, de André Malraux.

A Longa Marcha, 1935
Depois disso, já sob a liderança de Mao, um exército de 80 mil homens iniciou em 1935 a Longa Marcha, percorrendo dez mil quilômetros para escapar das tropas nacionalistas. Apenas 10% do contingente inicial do exército sobreviveram quando chegaram a Yenan. As tropas de Mao se reagruparam e, à medida em que derrotavam as forças de Chiang, estabeleciam áreas liberadas no campo, onde realizavam a reforma agrária. Criaram, assim, um poder paralelo. Quando os japoneses invadiram a China, os comunistas propuseram uma aliança tática ao Kuomintang, que aceitou de maneira relutante. Depois do fim da Segunda Guerra Mundial, o Exército Popular de Libertação de Mao levou apenas quatro anos para conquistar o poder.

O PCC chega ao poder com Mao, em 1949
O segundo período, de 1950 a 1978, dominado por Mao Tsé-tung, foi o mais turbulento da história do partido. O impacto inicial da revolução foi enorme, pois a China de então era um país semifeudal, dominado e dividido por potências ocidentais. A unificação, a reforma agrária e a libertação da mulher mudariam a face do antigo Império do Meio. Mas logo o voluntarismo do “grande timoneiro” se mostraria trágico. O primeiro grande desastre foi a “Grande Salto para Frente”, uma tentativa tresloucada de transformar um país agrário em desenvolvido da noite para o dia, além de, paralelamente, pretender construir a “sociedade comunista” a fórceps. Os camponeses foram obrigados a se organizar em gigantescas comunas agrícolas, as "comunas populares", onde siderúrgicas improvisadas com tecnologia rudimentar foram instaladas por toda a parte. O Grande Salto desorganizou completamente a economia e provocou a morte de milhões de camponeses pela fome. Mao foi afastado da direção efetiva do partido, sendo substituído por uma direção mais pragmática. Ao mesmo tempo, a China rompia com a União Soviética, estabelecendo um novo centro para o movimento comunista internacional.

Os Guardas Vermelhos na Revolução Cultural, 1966
Em 1966, a pretexto de combater as “tendências capitalistas” no partido, Mao lançou a Grande Revolução Cultural Proletária – uma versão original e sofisticada dos expurgos stalinistas. Foram criadas milícias de jovens, os guardas vermelhos, que foram lançados contra o aparelho do PCC. O país foi sacudido de alto a baixo, milhares de dirigentes foram expulsos, humilhados, torturados e assassinados. O ensino ficou paralisado por anos. Mas, no Ocidente, a percepção foi de que a Revolução Cultural era a expressão chinesa da rebelião estudantil de 1968. Perdendo o controle do movimento, Mao foi obrigado a chamar o Exército para controlar os guardas vermelhos – o que atiçou as ambições do ministro da Defesa e sucessor designado de Mao, Lin Piao, que acabaria morto em 1969 num misterioso acidente aéreo quando fugia para a Mongólia. Ao mesmo tempo, Mao deu uma reviravolta no xadrez geopolítico mundial ao se aproximar dos EUA em 1971.

Deng Xiaoping
 O terceiro período se inicia em 1978, depois de um violento interlúdio de luta interna no PCC que se seguiu à morte de Mao Tsé-tung, em 1976, que culminará com a vitória de Deng Xiaoping, o dirigente pragmático execrado durante a Revolução Cultural por seus “desvios capitalistas”. Ele abriu a economia ao capital exterrno e criou as bases para uma profunda transformação na China. Durante 30 anos, o país cresceu a taxas médias de 10% ao ano, retirando milhões de chineses da miséria e se tornando a segunda economia mais poderosa do planeta. O contraponto foi o aumento brutal da corrupção, que provocaria manifestações no final dos anos 1980, culminando no massacre de estudantes da Praça da Paz Celestial por tropas do Exército Popular de Libertação, em 1989.
Os tanques do ELP na Praça Tian Anmen, 1989

Depois disso, o ELP se consolidou como fiador do regime. Deng, o homem para quem não importava a cor do gato, desde que ele caçasse ratos, inverteu a fórmula de Mao segundo a qual “o Partido comanda os fuzis e não o contrário”. O ELP se tornou uma casta dentro da Nomeklatura chinesa, com generais controlando várias empresas estratégicas. Isso também fez com que muitos oficiais se vissem como soldados profissionais, divididos entre a obrigação de defender o país e a de defender o partido. Protestos ocasionais surgem na imprensa chinesa pedindo a despolitização do ELP.
A via comunista para o capitalismo
Mas a legitimidade do regime se assenta fundamentalmente na expansão contínua da prosperidade econômica – o que exige muita flexibilidade dos dirigentes para se adaptar a um mundo em constante mudança. Isso talvez responda à pergunta sobre a ausência de grandes contestações populares ao regime depois de 1989. Mas essa expansão econômica vem alimentando a corrupção institucionalizada. Constitui um paradoxo o fato de os líderes chineses reconhecerem que a corrupção é a maior ameaça à sua autoridade, mas ao mesmo tempo apoiarem seu poder num sistema que a torna praticamente inevitável. Para Richard McGregor, autor do livro The Party: the secret world of China’s communist leaders, uma campanha independente anticorrupção seria capaz de fazer toda a estrutura do partido desmoronar.


Este é parte do que o autor chama de “paradoxo fundamental” do regime comunista chinês: um partido forte e todo-poderoso que tem que lidar com um governo fraco e com instituições comprometidas. Isso o deixa mal preparado para lidar com as grandes mudanças em curso, como o reequilíbrio da economia chinesa para estimular o consumo doméstico e a construção de uma rede de segurança social decente.

Para McGregor, a resposta à pergunta de por que o regime chinês ainda se considera comunista pode ser encontrada na frase de Chen Yan, administrador do Banco de Desenvolvimento da China, Chen Yuan: “Nós somos o Partido Comunista e nós decidimos o que o comunismo significa”.