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terça-feira, 30 de novembro de 2010

OSCAR WILDE (1854-1900)

"Porque considero que influir sobre uma pessoa é transmitir-lhe um pouco de sua própria alma; esta pessoa deixa de pensar por si mesma, deixa de sentir as suas paixões naturais. Suas virtude não são mais suas. Seus pecados, se houver qualquer coisa semelhante a pecados, serão emprestados. Ela tornar-se-á eco de uma música estranha, autora de uma peça que não se compôs para ela. O fim da vida é o desenvolvimento da personalidade. Realizar a sua própria natureza- eis o que todos procuramos fazer. Os homens hoje, amedrontam-se deles mesmos. Esqueceram-se dos maiores de todos os deveres, do dever que cada um deve a si próprio. Naturalmente são caridosos. Nutrem o pobre e vestem os andrajosos, mas deixam as suas almas famintas e andam nus. A coragem nos abandonou; é possível que nunca a possuíssemos! O terror da sociedade, que é a base de toda moral, o terror de Deus, que é o segredo da religião - eis as duas coisas que nos governam."

Oscar Wilde, O Retrato de Dorian Gray
http://www.youtube.com/watch?v=4v_O0zLPsbs&feature=player_embedded

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O CHEFE DO MOSSAD FUGIU DAS AULAS DE HISTÓRIA?



Meir Dagan, chefe do Mossad

Uma das mais surpreendentes revelações dos documentos secretos provenientes das embaixadas americanas pelo mundo que foram divulgados pelo site Wikileaks é a de que o Mossad (serviço de inteligência externa israelense) propunha aos EUA articular um golpe militar para derrubar o regime dos aiatolás no Irã. O plano era um programa em cinco fases com o objetivo de impedir a qualquer custo que Teerã obtivesse êxito no desenvolvimento de seu programa nuclear - o que lhe daria condições de produzir a bomba atômica, quebrando o monópolio que Israel mantém sobre a arma de destruição total na região. A proposta foi apresentada em 2007 pelo general Meir Dagan, chefe do Mossad, ao então subsecretário de Estado americanos para assuntos políticos, William Burns.

É impressionante como a mentalidade de caserna de Israel atingiu tal paroxismo que provocou uma abissal decadência do nível político dos militares israelenses. Antigamente, o país dispunha de líderes militares que, mesmo sendo "duros" no campo de batalha, se revelaram estadistas realistas, capazes de entender o inimigo e a complexidade do conflito, como Moshe Dayan e Yitzhak Rabin. Hoje, dominam a cena israelense tipos messiânicos como esse Dagan, que além de tudo parece ter fugido das aulas de História ou saído da famigerada Escola das Américas - aquela instituição que os EUA tinham no Panamá nos tempos da Guerra Fria que ensiva técnicas de contra-insurgência aos milicos latino-americanos. Uma proposta doidivanas dessas supõe um desconhecimento atroz do passado histórico do Irã.

Revolução Islâmica no Irã em 1979

Mossadegh
Em 1953, instigado pelos britânicos, os Estados Unidos patrocinaram, por meio da recém-criada CIA (Agência Central de Inteligência), um golpe de Estado no Irã contra o então primeiro-ministro nacionalista Mohammad Mossadegh, que havia expropriado a British Petroleum e nacionalizado a indústria petrolífera do país. Em seu lugar, foi reinstaurado o poder do xá Reza Pahlevi, um testa de ferro dos interesses ocidentais que governou e tentou modernizar o Irã a ferro e fogo. A memória desse golpe contra Mossadegh marcou o país e alimentou ressentimentos contra os americanos, que explodiriam décadas depois, em 1979, quando a ditadura do xá foi derrubada por um grande movimento de massas, que depois seria instrumentalizado pelo clero xiita liderado por Khomeini  

O analista americano Chalmers Johnson, morto este mês, retomou um conceito que a velha escola de espionagem emprestara dos militares - Blowback - e o redefiniu para explicar o processo de "bumerangue" provocado pelas "operações encobertas" - ou não tão encobertas - dos EUA em vários países do Terceiro Mundo ao longo da Guerra Fria; em suma, ele tentou entender como essas ações acabaram inevitavelmente se voltando contra os próprios interesses americanos. Irã, Nicarágua, El Salvador, China, Vietnã e Camboja são apenas alguns exemplos. Que um chefe do Mossad desconheça tudo isso a ponto de propor a repetição de ações desse tipo mostra a condição lastimável do atual establishment israelense.    

Aroeira (1967), Geraldo Vandré

domingo, 28 de novembro de 2010

MUITO ALÉM DA TROPA DE ELITE

















A operação contra o narcotráfico desencadeada pelas forças de segurança pública no Rio de Janeiro não tem paralelo na história desse confronto. Pela primeira vez, uma ação coordenada entre a Polícia Militar, Polícia Civil, Polícia Federal, Marinha e Exército - operação que envolveu 1.200 homens - foi coroada de êxito e provocou baixas mínimas. Primeiramente, a ação policial expulsou os traficantes da Vila Cruzeiro, usando blindados da Marinha para transportar policiais e vencer os obstáculos colocados pelos traficantes. Acuados, cerca de 600 bandidos fugiram para o Complexo do Alemão. Enquanto paraquedistas do Exército com experiência no Haiti cercavam as 44 entradas do complexo, as forças policiais entraram na comunidade e fizeram uma operação de varredura em busca dos criminosos. A experiência dos paraquedistas na pacificação do Haiti evitou o envolvimento direto deles na operação propriamente policial. Não houve o confronto violento que se esperava, provavelmente porque os traficantes perceberam que estavam em nítida desvantagem com as forças de segurança.

O nível inédito de colaboração entre o governo do Rio de Janeiro e o Governo Federal permitiu a execução dessa operação tão bem coordenada. E, ao contrário de outras ações dessa natureza, desta vez não houve violência policial indiscriminada, mas o uso da inteligência para buscar os bandidos, além da colaboração da comunidade, que pela primeira vez se sentiu protegida pelo Estado e não numa "terra de ninguém" em que os civis ficavam sob fogo cruzado da polícia e dos bandidos. Completamente diferente do que aconteceu em São Paulo, em 2006. Depois que o PCC declarou "toque de recolher" na cidade, a polícia executou mais de 400 "suspeitos", num ato de vingança rasteira para encobrir o acordo que as autoridades estaduais tinham feito com o traficante Marcola. Com essa ação do Rio, o poder público começa a retomar áreas onde vigorava um poder paralelo que não tem nenhum escrúpulo e fazia os habitantes das favelas de reféns.

Mas é preciso não ter ilusões. A retomada parcial do controle do Estado sobre a cidade, com a política de ocupação das favelas por meio das UPPs, não vai acabar com o narcotráfico, nem no Rio de Janeiro nem no Brasil. Este é um problema multinacional que não terá solução enquanto não se legalizar as drogas, quebrando de vez a espinha dorsal do crime organizado e da corrupção policial. Mas pensar nessa possibilidade hoje em dia é completamente utópico - e portanto, teremos que conviver com o crime organizado por muito tempo ainda. E é preciso lembrar que no Rio de Janeiro existe também o problema das famigeradas milícias - integrantes da banda podre da corporação policial que "vendem" proteção aos ameaçados pelo narcotráfico e também operam com drogas e outras ilegalidades. Segundo alguns estudiosos, as milícias podem ser o estágio superior do narcotráfico, porque economicamente diversificadas. A estes, o Estado ainda não deu combate, pelo menos combate eficaz.

O "capitão Nascimento"

Washington Luís
Outra ilusão correlata dessa vitória parcial do Estado sobre o narcotráfico é acreditar que ações policiais resolverão por si só todos os problemas ligados à violência urbana e à criminalidade. É a "ideologia do capitão Nascimento", cara a uma certa classe média, que crê que um punhado de salvadores da pátria, do tipo integrantes do BOPE, implacáveis e incorruptíveis, seriam a única resposta do poder público contra esse flagelo, sem levar em conta a necessidade de políticas públicas sociais para eliminar as causas dessa violência. É a "Tropa de Elite III", como a capa da Veja desta semana parece sugerir. Trata-se da velha "tese" das oligarquias brasileiras de que a questão social é um caso de polícia - frase de Washington Luís, o carioca que governou São Paulo até ser deposto pela Revolução de 1930. 

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

1935: A REVOLUÇÃO FALTOU AO ENCONTRO

Soldados rebelados do III Regimento de Infantaria (Rio)
Há 75 anos, entre os dias 23 e 27 de novembro, ocorria o levante armado da Aliança Nacional Libertadora (ANL) que a direita apelidou de “Intentona Comunista”. A ANL era uma organização antifascista e anti-imperialista de massas e seu fechamento pelo governo de Getúlio Vargas deu ao Partido Comunista do Brasil (PCB), um de seus integrantes, a falsa sensação de que o país vivia uma situação pré-revolucionária. Liderada pelo partido e com apoio da III Internacional, a rebelião eclodiu basicamente em quartéis (Natal, dia 23; Recife. 25  e Rio de Janeiro, 27), seguiu o padrão clássico de "putsch" militar e foi rapidamente derrotada pelas forças legalistas. Os combates mais dramáticos ocorreram no Rio de Janeiro, onde os insurretos tentaram tomar o III Regimento de Infantaria, na Praia Vermelha, a Vila Militar e a Escola de Aviação do Campo dos Afonsos. Em todo o país, cerca de 120 soldados sublevados e 28 legalistas morreram. Segundo alguns historiadores, o levante de 1935 foi a última manifestação do tenentismo, movimento de oficiais subalternos que, nos anos 1920, se insurgiu contra a corrupção e o voto de cabresto. Os tenentes foram derrotados em 1922 e 1924, criaram a lendária Coluna Prestes e chegaram ao poder com a Revolução de 1930. Desencantada com Vargas, uma ala do tenentismo fundou a ALN para enfrentar o integralismo, versão tupiniquim dos camisas negras fascistas de Benito Mussolini. Mais à esquerda, os tenentes dissidentes de 1930, no entanto, continuavam prisioneiros de arcabouço teórico marcial. O dirigente comunista Luís Carlos Prestes, por exemplo, ex-capitão do Exército, planejou a revolta unicamente em unidades militares, esperando que o povo aderisse a ela espontaneamente. Um foquismo avant la lettre.

Soldados rebeldes são conduzidos à prisão em Ilha Grande

“O programa da ANL continuava vago como sempre fora - característica dos tenentes - e cheio de ambiguidades. Por exemplo, a ANL apresentava um programa de governo, mas não se colocava a questão do poder [...] Esta posição era reflexo exatamente da proposta ideológica dos tenentes: nacionalista e democrática, julgava poder transformar o país econômica e socialmente sem modificar o regime. Tal como agiram – os mesmos, por sinal – no início dos anos 20. O descompasso entre a proposta ampla e a luta armada para alcançá-la é justamente uma característica dos tenentes, que só acreditavam em levantes de quartel", diz a historiadora Marly Vianna, autora do livro Rebeldes de 1935.

Luís Carlos Prestes preso em 1936
Para Getúlio Vargas, o levante foi o pretexto para desencadear uma selvagem repressão. Prestes foi preso em 1936 com sua mulher, Olga Benário, comunista alemã de origem judaica. Ela estava grávida e mesmo assim foi deportada para a Alemanha nazista, onde morreria num campo de concentração em 1942. Prestes amargaria nove anos de prisão. O dirigente alemão Harry Berger (Arthur Ernest Ewert), da III Internacional, enlouqueceria na prisão em conseqüência das torturas da polícia de Filinto Müller, nosso aprendiz de Himmler e patrono do torcionário Sérgio Fleury. E, durante décadas, a direita criou o mito de que os comunistas tinham covardemente assassinado soldados legalistas “enquanto dormiam” – calúnia ironicamente desmentida por um dos próceres da ditadura militar de 1964 e anticomunista convicto, o coronel Jarbas Passarinho.

O III RI, na Praia Vermelha (RJ)

"O levante [...], apesar da derrota, também deixou um saldo positivo. [...] Não se pode julgar um movimento como positivo apenas quando ele é vencedor, ou desprezaríamos a Comuna de Paris, a Revolução de 1905 na Rússia, os movimentos revolucionários do início dos anos 20, na Europa Central, a Guerra Civil Espanhola, para citar algumas situações históricas [...] Além da luta antifascista, anti-imperialista e da experiência da organização popular, o levante deixou para o movimento operário e socialista do Brasil a importância do exemplo", diz Marly Vianna.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A CASA DOS ESPÍRITOS FORTES


Dilma Rousseff
Dilma Rousseff será a primeira ex-ocupante do cargo de chefe da Casa Civil a assumir a Presidência da República. Criada em 1938, a pasta é encarregada de coordenar as ações do governo, os outros ministérios e de avaliar as propostas legislativas a serem encaminhadas pelo Executivo ao Congresso Nacional. Historicamente, o cargo foi exercido por personalidades políticas poderosas - algumas se tornaram o que se costuma chamar de "o poder atrás do trono". No primeiro governo Lula, José Dirceu chefiou a Casa Civil, dividindo com o ministro da Fazenda Antônio Palocci a condição de "superministro" e, consequentemente, de presidenciável. Até que o mensalão o derrubou. Dilma foi içada ao posto, inicialmente como personagem secundária, mas logo ganhou fôlego, com o PAC e a intenção de Lula de fazê-la sua sucessora. A pasta "emana" tanto poder que até os desvios de uma burocrata menor como Erenice Guerra quase levaram a candidatura Dilma ao desastre eleitoral. Talvez por isso seja lícito supor que, seja quem for o chefe da Casa Civil do próximo governo, provavelmente terá menos poder do que tiveram historicamente muitos de seus ex-titulares.

Golbery do Couto e Silva
No nosso híbrido presidencialismo, o chefe da Casa Civil geralmente exerce as funções de um primeiro-ministro sui generis. Não como um premiê dos sistemas parlamentaristas clássicos, em que o cargo é ocupado pelo líder do partido que ganha as eleições, mas como um primeiro-ministro da V República de De Gaulle - antes, portanto, da coabitação -, nomeado pelo presidente. Na história recente do Brasil, talvez o mais poderoso chefe da Casa Civil tenha sido o general Golbery do Couto e Silva, que exerceu essa função nos governos Ernesto Geisel (1974-1979) e João Figueiredo (1979-1985). Um dos articuladores do golpe de 1964, criador do Serviço Nacional de Informações (SNI - ele diria depois que criara "um monstro") e especialista em geopolítica, Golbery foi o grande estrategista do fim da "anarquia militar" da ditadura, enquadrando os serviços de repressão e os generais da linha-dura ao comandante-em-chefe (Geisel), o que levaria ao processo de "distensão lenta, segura e gradual" e, depois, à abertura política. Verdadeira eminência parda de Geisel e Figueiredo, Golbery deixou o cargo em 1981, em consequência da tentativa de atentado terrorista no Riocentro praticada por agentes militares da repressão, quando percebeu que Figueiredo não tinha o mesmo pulso de Geisel para enfrentar os "ultras" e os remanescentes do “porão”.

Lourival Fontes
Talvez o mais enigmático ocupante dessa pasta tenha sido Lourival Fontes (1899-1967), político e jornalista de tendências fascistas. Ele foi o chefe do poderoso DIP (Departamento de Imprensa e Proganda) do Estado Novo de Getúlio Vargas - mal comparando, uma espécie de Goebbels brasileiro. Com a volta de Vargas ao poder pela via democrática, em 1950, Lourival assumiu a Casa Civil da Presidência, onde permaneceu até o desfecho da crise política que levaria ao suicídio do presidente, em 1954. Intelectual refinado, Lourival foi casado com a poetisa e jornalista Adalgisa Nery, que era viúva do pintor Ismael Nery e  militante de esquerda.

Álvaro Lins

Mas houve outros ilustres ocupantes do cargo que, ao contrário de Lourival Fontes e de Golbery, tinham impecáveis credenciais democráticas. O jornalista, escritor e crítico literário Álvaro Lins (1912-1970) foi chefe da Casa Civil de Juscelino Kubitschek durante dez meses em 1956; posteriormente, como embaixador do Brasil em Portugal, entrou em rota de colisão com a ditadura salazarista. Ele foi um dos responsáveis pela concessão de asilo ao general português dissidente Humberto Delgado, que depois seria assassinado pela PIDE (polícia política salazarista). Sentindo-se abandonado, Lins rompeu com JK. Foi substituído por outro jurista, Victor Nunes Leal, autor do clássico Coronelismo, enxada e voto; ele depois seria ministro do STF até ser afastado pela ditadura, em 1969. O jurista, jornalista, ensaísta e político socialista Hermes Lima chefiou a pasta entre setembro de 1961 e setembro de 1962, durante o breve interregno parlamentarista do governo João Goulart. Na sequência Lima seria primeiro-ministro de fato e, finalmente, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF). Os militares o aposentaram com o AI-5. O advogado Evandro Lins e Silva, que durante a ditadura se tornaria um dos grandes defensores dos direitos humanos, substituiu Hermes Lima, mas ocupou o cargo por apenas seis meses (janeiro a junho de 1963).

Darcy Ribeiro

Lins e Silva foi sucedido pelo antropólogo Darcy Ribeiro, fundador da Universidade de Brasília (UnB), uma das mais brilhantes cabeças do país, posteriormente um dos expoentes do brizolismo. Quando eclodiu o golpe de 1º de abril de 1964, Darcy Ribeiro queria que Jango resistisse à conspiração a bala. Se o presidente tivesse lhe dado ouvidos, não teria caído - ou, pelo menos, não tão facilmente.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

E SE O SERJÃO NÃO TIVESSE MORRIDO?


Sérgio Motta, ministro das Comunicações de FHC
Transcrevo abaixo, ligeiramente editado, texto de Alberto Dines publicado no Observatório da Imprensa sob o título: Sérgio Motta & Franklin Martins: Quem é mais radical


“A História como piada: a telenovela da regulação da mídia deve ganhar lances sensacionais (ou patéticos, depende de quem a observa) quando se examinar com a devida atenção um projeto de lei preparado em segredo há 12 anos pelo homem forte do governo de Fernando Henrique Cardoso, seu amigo e confidente, o então ministro das Comunicações Sérgio Motta.

O ministro Franklin Martins
A mídia acostumou-se a classificar como radical o jornalista Franklin Martins, atual ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República. Todas as suas iniciativas são imediatamente carimbadas como atentados à liberdade de imprensa e logo rejeitadas.


Nossa mídia tem memória curta ou simplesmente ignora quem foi o Serjão, Sérgio Motta, um trator que nada fazia pela metade. A Lei de Comunicação Eletrônica de Massa concebida por ele não era radical, era revolucionária: criava uma agência reguladora, impedia a propriedade cruzada de mídia eletrônica, interferia no vicioso sistema de concessões de radiodifusão, cuidava do conteúdo da programação, criava mecanismos para proteger os assinantes da TV paga, forçava o funcionamento do Conselho de Comunicação Social e facilitava a sobrevivência da TV Pública facultando-lhe o direito de veicular publicidade comercial.


Evidentemente não previu o extraordinário crescimento da internet nem contou com o atual estágio de desenvolvimento da telefonia móvel. Convergência de conteúdos era uma noção desconhecida. O projeto era holístico, como se dizia à época, integral. Ambicioso, audacioso e, sobretudo, estatizante. Tão estatizante que o petista e democrata Daniel Herz chegou a reclamar do excesso de prerrogativas oferecidas ao Executivo.

Esta incursão na história recente carrega evidentemente algumas doses de ironia. O projeto foi recebido com absoluta naturalidade, não causou alvoroço nem comoção, não foi bombardeado pela mídia. Ao contrário, algumas matérias da Folha de S.Paulo foram até simpáticas à iniciativa do governo porque àquela altura – antes da assinatura do Tratado de Tordesilhas entre os grupos Folha e Globo – o jornal dos Frias freqüentemente se atritava com a Vênus Platinada dos Marinho. O que era extremamente salutar em matéria de oxigenação.


[...]

Sérgio Motta não conseguiu terminar o seu revolucionário projeto, morreu em 1998, foi sucedido por Luiz Carlos Mendonça de Barros e, em seguida, pelo deputado federal e ex-líder do governo, Pimenta da Veiga, autor de uma nova e desastrosa versão destinada à cesta do lixo. À época, corria que fora redigida pelos consultores da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert)”

Pois é. Com Serjão a malfadada regulamentação da mídia teria sido "pior" e as famiglias nem sequer chiaram. Por que será? Talvez não tivessem se dado conta. Talvez achassem que a lei não iria pegar e que por isso não valia a pena criar caso. Mas se Serjão não tivesse morrido e tivesse implementado essa lei, possivelmente as coisas teriam sido diferentes; certamente o ministro seria acusado de ser o Saint-Just de FHC e dificilmente resistiria no poder. Mas, como a História não é feita de "ses", jamais saberemos...   

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

OS HEROIS E OS CÚMPLICES

 
Folha de S. Paulo, abril de 1964: apoio de primeira hora à ditadura

A sórdida campanha da grande mídia em torno do processo movido pela ditadura militar contra a presidente eleita Dilma Rousseff tenta criminalizar as ações armadas de guerrilheiros contra a tirania "da mesma forma como a Coroa portuguesa atribuiu como criminosa a insurgência política de Tiradentes", como bem lembrou o jornalista Paulo Henrique Amorim. "E lá estavam as velhas conhecidas familias Marinho, Frias, Mesquita e Civita, da velha mídia, engajadas em demonizar os guerrilheiros, em entusiasmados editorais, colunas e na deturpação do noticiário. Hoje, coerentes com o passado em prol da ditadura, fazem o mesmo ao colocarem suas mãos sujas no processo de Dilma, vilipendiando a verdade", diz Amorim.

Guerrilheira da Resistência Francesa
 Aqueles que pegaram em armas contra a ditadura civil-militar de 1964, mesmo se estavam politicamente equivocados, foram herois, como herois foram os integrantes da resistência francesa, italiana e iugoslava ao nazismo na Europa. Já os donos dos jornalões foram cúmplices de um regime criminoso, o qual eles não apenas apoiaram como - no caso da Folha de S. Paulo - emprestaram veículos impressos e rodantes para ajudar os torcionários. Para estes, a ditadura só podia ser "ditabranda".

Dos 339 militantes assassinados pela ditadura militar, destaco três, cujas mortes completam 40 anos este ano. São eles: Mário Alves, dirigente do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), Joaquim Câmara Ferreira (Toledo), dirigente da Ação Libertadora Nacional (ALN) e Eduardo Collen Leite (Bacuri), também da ALN - os dois últimos mortos pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury.

Mário Alves (1923-1970) Baiano, filho de latifundiários, participou da União Nacional dos Estudantes (UNE) durante o Estado Novo. Ingressou no Partido Comunista do Brasil (PCB) em 1939 e foi um dos líderes do movimento antifascista em Salvador. Dirigiu os jornais comunistas Novos Rumos e Voz Operária. Com o golpe de 1964, foi preso mas libertado um ano depois em função de um habeas corpus. Crítico da linha moderada do PCB, foi afastado em 1967 junto com outros dirigentes, como Carlos Marighella, Joaquim Câmara Ferreira, Jacob Gorender e Apolonio de Carvalho. Com Gorender e Apolonio fundou o PCBR. Foi preso em 16 de janeiro de 1970 pelo DOI-CODI do Rio de Janeiro. Morreu sob torturas no dia seguinte, tendo sido barbaramente seviciado.

Joaquim Câmara Ferreira ("Toledo" - 1913-1970) Paulistano, era jornalista e dedicou sua vida à militância. Ingressou no PCB em 1933 e dirigiu diversos jornais do partido. Liderou o trabalho clandestino no setor ferroviário. Preso e torturado no DOPS durante o Estado Novo, elegeu-se vereador em Jaboticabal (SP) pelo PCB. Perdeu o mandato em 1947, com a cassação do registro do partido. Foi para a URSS realizar estudos políticos. Em 1967, rompeu com o partidão pela esquerda e, junto com Carlos Marighella, fundou a Ação Nacional Libertadora (ALN). Participou do sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrik em setembro de 1969, que foi trocado por 15 presos políticos. Preso em São Paulo em 23 de setembro, Toledo foi levado para um sítio clandestino; torturado pela equipe do delegado Sérgio Fleury, ele morreria em consequência dos ferimentos. Segundo as informações oficiais, ele morreu no dia 23 de outubro, mas data essa foi uma armação da repressão para justificar outro assassinato, o de Bacuri.

Eduardo Collen Leite ("Bacuri" - 1945-1970) Mineiro, começou na Política Operária (Polop), vinculando-se posteriormente à Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), da qual se retirou para fundar a Resistência Democrática (Rede) e, em 1969, ingressar na ALN. Participou de diversas ações armadas e foi protagonista de dois sequestros de diplomatas. Preso em 21 de agosto de 1970 no Rio de Janeiro pela equipe do delegado Fleury, Bacuri foi levado para um cárcere privado e depois para o Cenimar (serviço secreto da Marinha) e para o DOI-CODI. Bacuri foi barbaramente torturado durante 109 dias em diversas dependências policiais e militares. Em outubro foi removido para o DOPS de São Paulo. No dia 25, os jornais divulgaram que Bacuri tinha sido levado para identifcar Toledo e conseguira fugir. Na verdade, ele continuava sendo submetido a torturas no DOPS, conforme testemunhas de 50 presos políticos da época, que inclusive realizaram um protesto para tentar impedir seu assassinato. Uma das mais torpes manchetes da época foi a da Folha da Tarde, de propriedade da Folha da Manhã, que também editava a Folha de S. Paulo e estava nas mãos do DOPS: " METRALHADO E MORTO OUTRO FACÍNORA".
Bacuri foi retirado da cela do DOPS com o corpo cheio de hematomas e queimaduras em 27 de outubro de 1970. Nunca mais foi visto.

"Liberdade, abre as asas sobre nós" - Hino da Proclamação da República
http://www.youtube.com/watch?v=en9qiUUXrBY&feature=related